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quinta-feira, 25 de março de 2021

Críticos às medidas de combate à Covid-19 não se consideram negacionistas

 

Confira a reportagem de capa do Jornal da Metrópole desta semana

[Críticos às medidas de combate à Covid-19 não se consideram negacionistas]
Foto : Reprodução / Instagram

Desde o dia 11 de março de 2020, quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou a pandemia de Covid-19, foram registrados mais de 124 milhões de casos e 2,7 milhões de mortes pela doença em todo o mundo. Autoridades médicas e científicas estabeleceram protocolos com o objetivo de reduzir a disseminação do vírus: adoção de medidas de distanciamento ou isolamento social, uso de máscara e higienização de mãos e superfícies. O esforço da comunidade científica também tornou possível o desenvolvimento de vacinas contra a Covid-19 em tempo recorde.

Mesmo com o aval da ciência, essas medidas são alvo de questionamentos de indivíduos e organizações sociais, com motivações diversas. Há aqueles que acreditam no poder da fé para evitar o contágio pela doença, enquanto outros duvidam das vacinas e fazem uso do chamado “tratamento precoce”, com substâncias sem eficácia comprovada contra a Covid-19. O isolamento social também é criticado, bem como as restrições impostas por Estados e municípios. O que os leva a pensar dessa maneira? O Jornal da Metrópole foi em busca dessa e de outras respostas.

Isolamento é questionado: 'Todo serviço é essencial'

“Quando surgiu a questão da pandemia, me vi inclinado a falar sobre esses assuntos porque vi que muitas coisas das medidas restritivas não se aplicam à nossa realidade”, diz o vendedor Marcos Nascimento, de Salvador, que publica, nas redes sociais, vídeos com duras críticas ao isolamento social “indiscriminado”. Para ele, a medida deveria ser aplicada apenas aos que têm sintomas ou comorbidades. “Na cidade em que nós vivemos, a grande maioria das pessoas trabalha de manhã para poder comer de tarde. Não tem como prender as pessoas em casa para que elas fiquem esperando isso passar”, opina. O engenheiro baiano Wellington Costa, que atualmente mora em Palmas (TO), tem visão semelhante. “Serviço essencial pra mim é tudo aquilo que um pai de família precisa para colocar alimento em casa”, pontua.

O isolamento social é recomendado por especialistas para minimizar a transmissão do coronavírus. Em alguns países que adotaram a medida, como Nova Zelândia e Alemanha, foram pagos auxílios emergenciais aos cidadãos para que eles permanecessem em casa.

Máscaras só em ambiente fechado

O uso de máscaras para barrar a transmissão da Covid-19 é questionado por Marcos: “Não acho que a pessoa precise usar máscara 24 horas, do jeito que é propagado pela mídia. Eu vejo pessoas no meio da rua, debaixo de um sol quente, usando máscara”.

A opinião é semelhante à do bacharel em Direito Tasso Kaíke Nascimento, que tem um blog de notícias no oeste baiano. “Eu discordo do uso de máscara em ambiente aberto. Ele é necessário em estabelecimentos comerciais, ambientes que tenham muitas pessoas”, disse.

Segundo autoridades de saúde, o uso de máscaras reduz a exposição ao coronavírus, á que a principal via de transmissão é pelo ar, inclusive em ambiente aberto.

Vacina ou cloroquina?

No início da pandemia, substâncias como ivermectina, hidroxicloroquina e azitromicina foram apontadas como possíveis tratamentos para a Covid-19, mas a hipótese foi refutada por pesquisas científicas realizadas nos meses seguintes. Ainda assim, os entrevistados defendem o “tratamento precoce”. “Muitos falam que não funciona, mas em Porto Seguro nós temos o exemplo de que a pandemia está sendo controlada com o uso das substâncias, apesar de terem politizado muito esses remédios”, diz Tasso Kaíke.

Quanto às vacinas contra a Covid-19, o clima é de desconfiança. “Eu fico um pouco desconfiado porque a CoronaVac tem 50% de eficácia, e eu jamais compraria um carro que tem 50% de eficácia no motor ou nos freios. Não se fala nada em relação à segurança. Eu acho muito estranho”, diz Marcos.

Negacionismo é apenas 'pensamento diferente'

O termo “negacionismo” passou a fazer parte do debate público para denominar condutas de pessoas que questionam a eficácia das vacinas e das medidas restritivas, ou até mesmo minimizam a gravidade da pandemia. Lideranças internacionais e autoridades de saúde consideram que o presidente Jair Bolsonaro conduz a crise sanitária de maneira negacionista, o que contribui para o aumento no número de casos e mortes no Brasil.

Marcos não se vê como um negacionista em relação à Covid-19. “Negacionista foi uma palavra criada para denegrir [sic] todos aqueles que têm um pensamento diferente. O verdadeiro negacionismo é deixar de falar todos os pontos das reações adversas sobre as vacinas”, pontua. A opinião é compartilhada por Kaíke. “Eu não nego a existência do vírus e dos tratamentos. Agora, esse termo é difundido pela mídia como a pessoa que não acredita que o vírus existe. Eu acredito. Os verdadeiros negacionistas são aqueles que não acreditam no tratamento precoce”, diz.

Misticismo, crenças e desinformação

Jornal da Metrópole tentou contato com outros indivíduos que têm posturas críticas ao combate à pandemia. Alguns têm presença ativa nas redes sociais, onde difundem mensagens a favor do uso de ivermectina e hidroxicloroquina e contra as medidas de isolamento social. Há, ainda, aqueles que recorrem à fé e ao misticismo para minimizar a gravidade do vírus, sob o discurso de “evitar o pânico”.

“Não se deixe aterrorizar, confie no Criador e a saúde está em ordem. Se quer usar máscaras use. (...) Nem todos terão essa ou outra doença porque cada ser humano tem o seu DNA e sua genética. As doenças não chegam para todos. (...) Se afaste dos medrosos e dos apavorados que se baseiam em títulos de reportagens ‘tendenciosas’”, diz mensagem de texto obtida pela reportagem. A autora da publicação, no entanto, não quis conceder entrevista.

Conduta reflete decisões do governo, diz psiquiatra

As questões ligadas ao negacionismo foram discutidas na edição de ontem (24) do Jornal da Metrópole no Ar, na Rádio Metrópole, com a participação da advogada Camila Vasconcelos e do psiquiatra Antônio Nery Filho. Na avaliação de Nery, a conduta das pessoas que negam a ciência é um espelho da “figura paterna” representada pelo governo do presidente Jair Bolsonaro. “Estamos vivendo uma situação na qual os mais altos dirigentes do país negam a morte de pessoas. Só temos uma alternativa, é buscar outra ‘figura paterna’”, pontuou.

Camila avalia que os posicionamentos devem ser questionados, mas sem gerar “polarizações”:“Todos nós devemos ter familiares e amigos que de alguma forma apoiam o negacionismo. A gente deixa de conversar com essas pessoas ou a gente então faz essa abertura? ”.

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