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Facções ocupam pontos de encontro de bairros no Carnaval de Salvador

Facções ocupam pontos de encontro de bairros no Carnaval de Salvador

Perguntei a meu amigo Bruno, do Horto Florestal: “Onde a galera do seu bairro se encontra no Carnaval?” Sabe de nada. Ao meu amigo André, da Graça, mesma pergunta, mesma falta de resposta. Ok, outro amigo: Eduardo, da Sussuarana. “A turma da Velha se reúne até hoje na antiga Insinuante da Carlos Gomes, do lado da galera da (Sussuarana) Nova.” Ao meu amigo Paulo, de São Caetano: “Eu sempre brinquei com o povo da Formiga ali no Clube de Engenharia”. Quem não é de Salvador, ou não tem muita intimidade com a cidade, certamente desconhece que Horto e Graça são bairros nobres; Sussuarana e São Caetano, lugares predominantemente pobres. Mas por que só os bairros populares têm esses locais demarcados no circuito? O cientista social Leonardo Nascimento, professor da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), ensaia uma resposta. “As elites lidam com o espaço público de uma maneira diferente (do restante da população), em Salvador. Elas têm medo do espaço público, e não ocupam, porque o local delas é o privado”, inicia ele.Para Nascimento, isso é uma característica local. “É uma coisa muito marcante e característica de Salvador. Note que no Rio as elites ocupam os espaços da rua. O morador de Laranjeiras (Rio), por exemplo, desce e frequenta as ruas do bairro - anda na rua, faz compras, vai aos bares, aos eventos no bairro. É diferente do morador da Graça, que tipicamente não vai em nenhum tipo de evento na rua. Se bem que nem tem eventos desse tipo, e se tivesse ele não compareceria. A rua, em Salvador, é o espaço do povo, não é das elites. As elites se protegem através de muros, visíveis e invisíveis, inclusive no Carnaval", complementa. Mas, para além dessa análise causal do fenômeno, há um componente criminal que é relativamente novo: as facções criminosas estão estendendo seus domínios locais para esses pontos de encontro - historicamente demarcados -, ainda que a grande maioria das pessoas que os frequenta hoje não tenha nenhuma relação com a criminalidade. A explicação é de policiais militares que há muito trabalham no Carnaval, e que garantem que a corporação tem consciência de quais locais cada facção ocupa. À Secretaria da Segurança Pública (SSP) perguntamos se a inteligência da polícia tinha ciência da existência desses pontos de encontro, e se a informação poderia ser divulgada (onde fica cada bairro), mas a assessoria informou que são informações mantidas em sigilo e usadas de forma estratégica. Ou seja, sim, a polícia monitora esses locais.
Áreas dominadas: Um dos PMs, de cabeça, listou alguns dos espaços que os bandos dominam. O Comando da Paz (CP), por exemplo, domina parte da região próxima ao Relógio de São Pedro. Já o Bonde do Maluco (BDM) está presente no São Bento, na Rua Escravo Miguel, em Ondina, também conhecida como Beco da Ribeira (por ser um ponto de encontro histórico de moradores da Cidade Baixa), e na Avenida Oceânica, nas imediações do praticável do SBT - neste caso, a maior parte. Ramificação do BDM, o Bonde do Ajeita está na área próxima ao Beco Maria Paz, entre a Carlos Gomes e a Avenida Sete. Já a Katiara marca território na região das Mercês. Em outros pontos também há a presença da Caveira. Mas devo explicar que foi por acaso, e de última hora, que esse texto transgrediu para o lado baixo astral da festa. Começou quando percebi que, ao perguntar na fanpage do CORREIO “em que ponto do circuito a galera do seu bairro costuma se reunir no Carnaval?”, boa parte das respostas vieram sugerindo que estávamos falando em gangues, bandos, quadrilhas. Mas, enfim, já que deram a dica, tentemos entender um pouco mais a situação. Perguntei a outros PMs como é a convivência entre os bandos: há pacto de não agressão, já que em muitos casos as quadrilhas parasitam em territórios vizinhos? Para um, sim, há uma espécie de armistício natural: é uma guerra que não interessa a nenhum dos lados. Isso até explica um pouco a redução das brigas entre bairros, na opinião dele. De acordo com outro, não há acordo algum e "se uma passa pelo território da outra, o pau quebra feio". "Não tem essa", reforça.
Sobre rixas entre bairros, são situações mais antigas. “Sussuarana Velha e Nova tinham rixa com o pessoal da Saramandaia e Pernambués, mas também tinham brigas entre si. Então era assim: tinha confusão entre as Sussuaranas, mas quando vinha a galera de outro bairro, eles se uniam. Mesma coisa Pernambués e Saramandaia. Mas isso era antes dessa história de facção”, comenta um dos PMs. Há também, segundo outro policial, pontos em que gangues menos organizadas - não necessariamente ligadas a facções - se concentram. “No posto de gasolina em frente ao Othon Palace tem uma concentração de lanceiros (pessoas que cometem furtos) da Cidade Baixa”, exemplifica.
fonte.vozdabahia
Marcius Pirôpo Campeão Mundial

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