domingo, 23 de agosto de 2020

Campeão de Karatê, ministro da Segurança de Buenos Aires vira 'xerife' de Cristina Kirchner


Campeão de caratê, ministro da Segurança de Buenos Aires vira 'xerife' de Cristina Kirchner
A longa quarentena determinada pelo governo da Argentina, especialmente na região metropolitana de Buenos Aires, tem aumentado o desemprego e a criminalidade.

Como toda crise gera uma oportunidade política, um personagem vem ganhando projeção: o médico, militar e campeão de caratê Sergio Berni, 58, ministro da Segurança da província de Buenos Aires e uma espécie de xerife da vice-presidente Cristina Kirchner.

Berni a acompanha há muito tempo. Foi ministro da Segurança em sua gestão à frente do país (2007-2015) e é um peronista de direita, com uma visão linha-dura em assuntos de defesa e segurança. Como Cristina, é conhecido pela boa retórica, pelo carisma e por causar a impressão de que "fala o que pensa". Além disso, sempre está em busca dos holofotes.

Em sua gestão atual, comanda pessoalmente --armado e pendurado em helicópteros-- operações contra o narcotráfico, usa botas de soldado mesmo em ocasiões formais e faz questão de chegar logo a eventos de grande impacto midiático.

Assim ocorreu na misteriosa morte de Alberto Nisman, em 18 de janeiro de 2015, um dia antes de o promotor apresentar ao Congresso uma denúncia contra Cristina.

Na ocasião, Berni subiu ao apartamento do promotor e mandou informações diretamente à então mandatária, atuando em paralelo ao trabalho da Justiça e da polícia. "Devo ter falado com ela mais de 17 vezes pelo celular naquela noite", conta.

Berni está aproveitando o momento de crise na região metropolitana de Buenos Aires para abrir um espaço político. Não está claro ainda quem será o candidato peronista à Presidência em 2023 --mas sabe-se que Alberto Fernández não tem a ambição de concorrer.

Outra opção, Alex Kicikkof, um dos principais afilhados políticos de Cristina, vem se desgastando no cargo de governador da província de Buenos Aires.

É nesse cenário que Berni tenta conquistar mais apoio --em resposta à demanda da população por mais segurança, enquanto o país registra aumento de assaltos e mais de 4.500 presos foram soltos por conta da lotação das cadeias durante a pandemia.

Com uma nova equipe de comunicação, o ministro tem realizado uma série de anúncios publicitários divulgando sua gestão. Neles, aparece prendendo suspeitos, descobrindo esconderijos de ladrões e encontrando carregamentos clandestinos de drogas. Além disso, pelo menos uma vez por semana, Berni vai a programas políticos, que são muitos nas TVs paga e aberta da Argentina.

No dia 14 de agosto, ele confirmou pelo Twitter que tinha recebido o diagnóstico de Covid-19 e que enfrentaria o desafio "com decisão e coragem". "Render-se não é opção para um soldado", escreveu o ministro, que cumpre quarentena.

Uma semana antes, tinha convidado um grupo de 12 correspondentes estrangeiros para uma entrevista. Falou por quase duas horas e levou os profissionais para ver onde dormia em tempos de crise.

"Não tenho tempo de ir para casa e creio que um ministro tem de estar onde o problema de sua gestão está." Mostrou, então, o "quarto" instalado num ônibus estacionado no centro policial de La Matanza --local mais afetado pela criminalidade na província.

Depois de apresentar sua metralhadora --com a qual também é comumente visto em público--, convidou os jornalistas para participarem de uma operação.

Sem que nenhum dos profissionais tenha sido avisado, ele divulgou horas depois um novo anúncio publicitário, mostrando a entrevista e contando que seu trabalho à frente do ministério vinha gerando grande curiosidade "no mundo".

Questionado pela reportagem se considerava sua trajetória militar e discurso duro contra o crime e a corrupção similares aos do presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, Berni disse: "Ele é um soldado, eu sou um soldado".

E não escondeu o desejo de se candidatar também à Presidência. "Como soldado, uma pessoa se prepara para conduzir, para ser o melhor general, e, como militante, para ser um melhor presidente."

O ministro nega uma definição ideológica de esquerda ou de direita, mas sua autodescrição é a de um peronista de direita. "Eu sou peronista. Venho do mesmo lugar do qual veio Perón, que é o Exército. Temos pensamento tático e estratégico e, acima de tudo isso, um pensamento nacionalista."

Dentro do governo, Berni gera divisões. A ala mais progressista do peronismo não vê com bons olhos sua aparição, armado, em controles de trânsito, ou suas declarações mais fortes contra a delinquência.

Uma das que batem de frente com ele é Sabina Frederic, a ministra da Segurança nacional --ela é antropóloga e tem um olhar mais pacifista para o enfrentamento dos problemas sociais.

"No governo atual da Argentina não governa só o peronismo, e sim uma coalizão onde há muitos progressistas", diz Berni, reforçando que isso é algo negativo. Quando questionado sobre quem chefia seu espaço político, não titubeia em dizer que é Cristina, e não o presidente.

Ou seja, Fernández e alguns de seus ministros, como Frederic, que são moderados, não entram em sua descrição do "peronismo real".

Além do peronismo, Berni diz que sua "filosofia" vem também da "cultura do samurai, a que valoriza muito a honra".

Seu discurso, suas ações, seus traslados midiáticos em helicóptero ou dirigindo uma moto são populares na região mais pobre da província de Buenos Aires, onde vivem 14 milhões de pessoas (sendo que mais de 40% estão na pobreza).

Embora o cenário político argentino pós-pandemia ainda não esteja claro, já há movimentos nos partidos para as eleições legislativas do ano que vem e para as pré-candidaturas presidenciais de 2023.

Berni, apesar de não assumir publicamente, já age como candidato --e seus vídeos de publicidade são vídeos de campanha.

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