domingo, 23 de maio de 2021

Para especialistas, pensar na pandemia em 'ondas' só atrapalha enfrentamento


Para especialistas, pensar na pandemia em 'ondas' só atrapalha enfrentamento

Enquanto o ministro da Saúde, Marcelo Querioga, fala em evitar uma terceira onda de Covid-19 por meio do avanço da vacinação, especialistas afirmam que pensar a pandemia em ondas é incorreto -segundo eles, nem teríamos saído da primeira delas.
 

Roberto Kraenkel, professor de física na Unesp e membro do Observatório Covid-19 BR, lembra que as ondas na vida real são bem caracterizadas e podem até ser previstas, o que não ocorre com a Covid. "Essas ondas não são naturais. Não são como ondas do mar, com cinco delas por minuto. Elas são fruto de política, de reação das pessoas e de mudança também do vírus."
 

Segundo Paulo Lotufo, epidemiologista e professor titular da Faculdade de Medicina da USP, para definir as ondas da doença é preciso zerar o contágio, o que nunca ocorreu no Brasil. "Por isso, nos últimos meses a gente tem preferido falar em repique ou arremetida da Covid, mas o fato de Queiroga se mostrar preocupado com o recrudescimento da pandemia, seja onda o termo correto ou não, já é um avanço frente à forma como o ex-ministro [Eduardo Pazuello] lidava com esse tema", diz.
 

Para ele, o problema é quando as autoridades invertem a lógica de uma doença respiratória transmissível e atribuem a culpa da alta de casos às novas variantes, e não ao comportamento ou às ações de prevenção do governo.
 

"Em fevereiro, os casos em São Paulo já estavam subindo antes do surgimento da variante P.1. A mesma coisa ocorreu em Manaus, onde ela se originou. O repique de casos de Srag [síndrome respiratória aguda grave] foi no final de novembro, em dezembro, mas a explosão da P.1 mesmo foi em janeiro", explica.
 

Para Maria Amélia Veras, epidemiologista e professora da Santa Casa de São Paulo, falar em ondas pode dar a ideia que a pandemia é cíclica e podemos relaxar. "Já foi demonstrado que essa é uma doença de transmissão respiratória, e uma maneira de contê-la é usar máscaras de maneira correta e consistente e praticar o distanciamento. Pensar em sazonalidade pode fazer com que as pessoas entendam que não há um perigo agora", diz.
 

Veras ressalta que um aumento do número de casos é seguido dias depois por um aumento no número de óbitos. "Se uma grande parte da população está vacinada, mesmo em um cenário de alta de casos podemos esperar que esses casos não vão se refletir em hospitalizações e mortes. Mas esse cenário não está assegurado no Brasil porque não temos uma alta proporção de vacinados e temos um aumento em casos de Srag já identificados", diz.
 

Neste momento, apenas cerca de 12% da população adulta do país já recebeu as duas doses da vacina contra Covid-19.
 

O último boletim Infogripe, publicado pela Fiocruz nesta sexta-feira (21), alerta para o aumento de casos de Srag e reversão da situação de estabilidade para tendência de aumento em 8 das 27 unidades federativas: Amazonas, Distrito Federal, Maranhão, Mato Grosso do Sul, Paraíba, Paraná, Rio de Janeiro e Tocantins.
 

Desses, seis (AM, MA, MS, PB, PR e TO) apresentam sinal de crescimento a longo prazo (seis semanas) e dois (RJ e DF) no curto prazo (três semanas).
 

Ainda de acordo com os dados, dez estados (Bahia, Espírito Santos, Mato Grosso, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Sergipe e São Paulo) apontam para interrupção na tendência de queda no curto e longo prazo.
 

Os dados de Srag foram registrados até a última segunda-feira (17) e são coletados a partir das notificações no sistema Sivep-Gripe, do Ministério da Saúde.
 

Lotufo ressalta que uma tendência de aumento na situação em que estamos hoje no Brasil, com a vacinação muito lenta, é preocupante porque indica um crescimento já a partir de um patamar elevado. "A diferença com as outras 'ondas', se for assim dizer, é que já estamos com ocupação de UTIs na faixa dos 80%, então deixa muito pouco espaço para crescer. É muito provável que ocorra um crescimento, mas o problema é que vamos voltar a ter picos de casos e mortes já de um platô muito elevado", diz.
 

A combinação de alta de casos com a presença de uma variante mais transmissível e capacidade de escapar dos anticorpos pôde ser observada em outros lugares do mundo. Foi o que ocorreu em Nova York, em fevereiro, na Índia, em abril, e, mais recentemente, na Argentina.
 

Para Lotufo, porém, atribuir uma possível nova onda ocasionada à variante indiana, primeiro detectada no país no estado do Maranhão na última quinta-feira (20) é equivocada. Em geral, os ingredientes para o caos são uma alta prevalência de casos e expectativa de atingir uma imunidade coletiva natural em uma população, o relaxamento de medidas e a alta circulação de pessoas, o que cria um ambiente favorável ao aparecimento de mutações e o estabelecimento da nova variante com maior potencial transmissor.
 

Veras e Kraenkel reforçam a dificuldade, até hoje, de implementar medidas eficazes de contenção do vírus tanto local quanto regionalmente. "Nunca houve estratégia de contenção, quiçá estratégia de reabertura", diz Veras. "Vemos algumas ações que funcionaram em escala muito menor, comunitária, de adoção de medidas que foram efetivas, mas a extrapolação a nível estadual ou federal não existiu."
 

Por essa razão, as estratégias possíveis de serem usadas são cada vez mais escassas, pondera Kraenkel. "Como nunca foi montado um programa de testagem em larga escala, com rastreamento de contatos, e agora avançamos pouco na questão do uso de máscaras, não sobram muitas estratégias. Se houver um aumento agora vamos ter que pensar novamente em lockdowns ou restrição de atividades", afirma.
 

O período de quarentena em 2020 era um momento de realocação de recursos federais para os entes estaduais e municipais para implementar reformas e medidas que pudessem melhorar a retomada das atividades, avalia Veras. "Se tivesse ocorrido um investimento na reforma de escolas, para aumentar a ventilação das salas, por exemplo, poderíamos discutir agora a retomada das aulas presenciais com mais segurança. Não foi o que foi feito", diz.
 

Além da ventilação, outro ponto crucial para diminuir a circulação do vírus é a adoção de máscaras apropriadas, que deveria também ter sido exigida por parte dos governantes para a reabertura, afirma Kraenkel. "Mas mesmo nos estabelecimentos vemos que não há uma exigência por parte dos empresários de incentivar o uso de máscaras melhores pelos seus funcionários, e isso era algo totalmente possível. Se não fosse por incentivo do governo, que fosse por iniciativa dos empresários", diz.


por Ana Bottallo | Folhapress   foto Bruno Kelly/Amazonia Real

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