O SENHOR DO CAFÉ: Sangue, Poder e Pecado (Romance Dark / Hot / Suspense) 🔞 Classificação: +18 | OBRA COMPLETA
"Em uma terra onde o aroma do café se mistura ao cheiro do sangue, o poder tem um preço que poucos podem pagar. Marco Aurélio governa um império, mas está prestes a descobrir que o verdadeiro perigo não vem dos seus inimigos, e sim de quem divide a cama — e os segredos — com ele. Desejo, traição e uma teia de pecados da qual ninguém sai ileso."
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O SENHOR DO CAFÉ
Sangue, Poder e Pecado
Um golpe de sorte o tornou bilionário. Sua sede insaciável o tornará um alvo.
Marco Aurélio é um homem de apetites vastos. Magnata do café e escritor de romances aclamado, ele ergueu um império onde sua vontade é a única lei. Por trás da fachada de sucesso e do casamento com a doce Helena, esconde-se uma natureza indomável: um patriarca cuja virilidade não conhece limites e que vê em cada conquista um novo capítulo de poder.
Ele acredita ser o mestre do jogo, mas a verdadeira estratégia nasce nas sombras.
Rute, sua governanta e fiel guardiã de segredos, conhece cada um de seus pecados e sabe que o desejo é o tendão de Aquiles do patrão. Em um plano audacioso, ela traz para a mansão a jovem e magnética Sara. Entre o luxo dos escritórios e o calor dos quartos proibidos, inicia-se uma trama onde a sedução é usada como arma de guerra.
Rute não quer apenas servir; ela quer herdar. E usará a beleza da própria filha para enredar o homem que nunca aprendeu a dizer "não" à tentação.
Mergulhe em 75 capítulos de um suspense visceral e cenas de tirar o fôlego. No império de Marco Aurélio, o prazer tem um preço alto e o destino é escrito com suor, sangue e traição.
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Um thriller visceral sobre a impunidade, onde o amor é uma armadilha e o silêncio é a única garantia de sobrevivência.
SUMÁRIO: O SENHOR DO CAFÉ
PARTE I: O IMPÉRIO DE SEDA E SOMBRAS
Capítulo 1: O Castelo de Papel e Ouro
Capítulo 2: O Brilho do Novo
Capítulo 3: A Tensão sob o Verniz
Capítulo 4: O Labirinto de Espelhos
Capítulo 5: O Limiar do Abismo
Capítulo 6: A Fresta do Destino
Capítulo 7: A Arquiteta dos Silêncios
Capítulo 8: A Tinta do Pecado
Capítulo 9: O Jogo das Mãos Invisíveis
Capítulo 10: A Carne da Palavra
Capítulo 11: O Eco do Silêncio
Capítulo 12: O Convite e a Sentença
Capítulo 13: A Cortina de Vidro
Capítulo 14: O Retorno e as Sombras do Desejo
Capítulo 15: A Intrusiva e o Medo do Abismo
Capítulo 16: O Veneno da Dúvida
Capítulo 17: O Jantar das Máscaras Caídas
Capítulo 18: O Banquete das Sombras
Capítulo 19: O Brilho da Discórdia
Capítulo 20: Sob as Luzes de Paris
Capítulo 21: O Triângulo das Pedras Preciosas
Capítulo 22: A Semente da Discórdia
Capítulo 23: O Espelho d’Água
Capítulo 24: O Gosto Amargo do Arrependimento
Capítulo 25: O Sal da Terra
PARTE II: O AROMA DA TENTAÇÃO
Capítulo 26: O Abismo sob os Lençóis de Seda
Capítulo 27: Território em Chamas
Capítulo 28: A Fome do Lobo e a Semente do Destino
Capítulo 29: O Peso da Herança
Capítulo 30: Preparativos e Presságios
Capítulo 31: A Trégua de Natal e a Linha no Chão
Capítulo 32: O Brinde de Ouro e o Silêncio da Loba
Capítulo 33: Presentes de Grego e o Caminho do Destino
Capítulo 34: O Silêncio sob o Envelope Pardo
Capítulo 35: O Brinde das Sombras e a Dança das Camas
Capítulo 36: O Cálice de Cristal Partido
Capítulo 37: A Coreografia das Sombras
Capítulo 38: O Exílio de Ouro
Capítulo 39: O Jogo da Predação
Capítulo 40: A Sentinela e o Veneno
Capítulo 41: O Sangue no Café e o Choro na Capital
Capítulo 42: O Preço da Consciência
Capítulo 43: O Batismo das Sombras
Capítulo 44: O Triângulo de Ferro e a Intrusa
Capítulo 45: O Retorno da Herdeira
Capítulo 46: O Batom e o Abismo
Capítulo 47: O Mapa do Pecado
Capítulo 48: O Triângulo de Fogo e o Olhar Proibido
Capítulo 49: O Labirinto dos Desejos
Capítulo 50: O Pacto das Sombras
PARTE III: SANGUE, PODER E PECADO
Capítulo 51: A Queda da Esfinge
Capítulo 52: O Tabuleiro das Ausências
Capítulo 53: O Despertar da Serpente
Capítulo 54: Café com a Memória
Capítulo 55: Máscaras e Mergulhos
Capítulo 56: O Brilho nos Olhos do Patriarca
Capítulo 57: O Banquete das Máscaras
Capítulo 58: O Ritual do Desejo
Capítulo 59: O Eco das Montanhas
Capítulo 60: O Enigma da Devoção
Capítulo 61: O Cerco de Veludo
Capítulo 62: A Dona do Jogo
Capítulo 63: O Labirinto de Lençóis e Segredos
Capítulo 64: A Farsa Genética
Capítulo 65: O Triunfo dos Malditos
Capítulo 66: O Cativeiro de Cetim e Aço
Capítulo 67: Alianças e Venenos
Capítulo 68: O Refúgio de Vidro e Sangue
Capítulo 69: O Beijo da Serpente e o Mundo Paralelo
Capítulo 70: A Calmaria das Máscaras e o Fogo das Sombras
Capítulo 71: O Triunfo da Rainha e o Fel da Intrusa
Capítulo 72: A Queda da Intrusa
Capítulo 73: O Silêncio das Testemunhas
Capítulo 74: A Harmonia das Sombras
Capítulo 75: O Triunfo do Império (Final)
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Marcius Pirôpo - Direto da RedaçãoSobre o AutorMarcius Mateus dos Santos Pirôpo é um homem de múltiplas facetas, onde a disciplina do corpo encontra a liberdade da escrita. Natural de Salvador, Bahia, Marcius construiu uma carreira sólida na comunicação como repórter e fundador do site PIRÔPO NEWS BAHIA ( Sua trajetória é marcada pela superação e pelo foco. Como Sensei e atleta de Karatê, dedicou anos ao ensino e à competição, atingindo o ápice de sua carreira esportiva em 2019, quando conquistou o Título Mundial na Itália. Hoje, Marcius Pirôpo canaliza a sua intensidade e observação do comportamento humano para a literatura. O Senhor do Café - Sangue, Poder e Pecado marca a sua estreia como romancista, inaugurando uma nova fase dedicada ao género Romance Hot e Suspense. Com uma narrativa visceral e envolvente, ele combina o olhar atento do jornalista com a paixão de quem não tem medo de explorar os desejos mais profundos da alma humana. Conecte-se com o Autor:
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O Senhor do Café: Sangue, Poder e Pecado
Onde o aroma do café esconde o rastro do pecado.
Bem-vindo à Fazenda Império. Nas colinas majestosas desta terra multimilionária, a fortuna não é a única coisa que brilha. Por trás dos portões de ferro e das fachadas de seda, pulsa um mundo de desejos proibidos e manipulações impiedosas. Aqui, a moralidade é uma névoa que se dissipa ao amanhecer, revelando uma teia onde o prazer é a única lei.
O Triângulo de Ferro Marco Aurélio é o patriarca supremo: fazendeiro de sucesso e renomado escritor. Mestre em criar idílios para o público, ele esconde, na vida real, uma trama obscura e letal. Casado com a doce Helena, vive a fachada da família perfeita. Mas a verdadeira engrenagem da casa é Rute, a governanta que governa os instintos do patrão. Amante há décadas e estrategista implacável, ela conhece o homem por trás do mito.
Tudo muda com a chegada de Sara. Jovem, magnética e filha de Rute, ela entra na mansão para protagonizar um capítulo que Marco jamais ousaria publicar: uma tempestade que coloca mãe e filha em rota de colisão sob o mesmo teto.
O Encontro entre o Desejo e a Palavra Esta obra marca o início da jornada literária de Marcius Pirôpo. Mais do que uma narrativa de suspense e paixão devastadora, este livro é um convite ao mergulho na essência humana — onde o sexo é consolo e arma, e a traição é elevada à categoria de arte.
Escrita com a intensidade de quem busca decifrar os segredos da alma, esta saga foi concebida com profundo respeito a você, leitor. Que cada página desperte em seu íntimo a mesma paixão visceral com que cada palavra foi cravada no papel.
Prepare-se. O café está servido... e o preço para prová-lo pode ser a sua própria alma.
Por Marcius Pirôpo
Capítulo 1: O Castelo de Papel e Ouro
A vida de Marco Aurélio poderia ser resumida em dois grandes golpes de sorte: o dia em que os números da Mega-Sena transformaram sua conta bancária em um império, e a descoberta de sua verdadeira vocação como escritor de romances. Para ele, o dinheiro não servia para ostentação vazia, mas para comprar o tempo e a liberdade de viver as histórias que criava em sua mente. Ele era o pilar de uma família imensa; seus irmãos, irmãs, tios e uma legião de primos viviam sob o conforto que sua fortuna proporcionava, entre as mansões luxuosas, as piscinas de mármore e os jardins impecáveis.
Naquela manhã, o sol refletia nas águas cristalinas da piscina principal, onde Helena, sua esposa, coordenava o café da manhã. Helena era a perfeição em forma de mulher. Loira, elegante e de uma doçura inabalável, ela era o "amor da vida" de Marco. Ela mantinha a harmonia da família e era a luz que guiava o castelo de cristal que ele construíra.
— Você está muito imerso no seu escritório ultimamente, Marco — comentou Helena, aproximando-se com um sorriso acolhedor. — É um novo personagem que te roubou de mim?
— É uma trama complexa, querida — mentiu ele, sentindo o peso do segredo que carregava há quase um ano.
O segredo não era um personagem de ficção, mas uma mulher de carne e osso chamada Rute. Se Helena era o dia ensolarado e a paz, Rute era a noite de tempestade e a paixão carnal que o consumia. Uma relação clandestina que acontecia em quartos distantes e momentos roubados, onde Marco Aurélio deixava de ser o homem exemplar para ser escravo de seus instintos mais profundos.
Mas a narrativa da vida real estava prestes a sofrer uma reviravolta que nem mesmo o escritor Marco Aurélio poderia prever. Naquela tarde, em um encontro furtivo, Rute plantou a semente do novo conflito.
— Minha filha Sara está vindo da roça, Marco — disse Rute, com um olhar carregado de intenção. — Ela tem apenas vinte anos, uma beleza pura, mas com o mesmo fogo que você conhece em mim. Quero que você a empregue na mansão. Quero que ela tenha a chance que eu não tive.
Um calafrio percorreu a espinha de Marco Aurélio. Como autor, ele sabia que aquele era o ponto de não retorno. Sara era jovem demais, um erro que sua consciência já começava a apontar. Ele olhou para o luxo ao seu redor e para a serenidade de Helena ao longe. No fundo de sua mente, ele já planejava: "Vou ajudá-la. Vou pagar sua faculdade, encaminhá-la para um rapaz da idade dela. Vou salvá-la de mim."
Mas, enquanto Rute sorria, ele sentiu que o "Amor, a Traição e a Paixão" estavam prestes a colidir de uma forma que nenhuma fortuna poderia evitar.
Capítulo 2: O Brilho do Novo
A mansão de Marco Aurélio nunca pareceu tão vasta quanto naquela tarde. O mármore polido do hall de entrada refletia a luz do lustre de cristal, criando uma atmosfera de solenidade que costumava acalmar o escritor. Mas, enquanto ele aguardava a chegada da filha de Rute, o silêncio da casa parecia amplificar sua ansiedade.
Quando o carro parou diante da fachada imponente, Marco observou da sacada. Sara desceu com uma mala simples, contrastando drasticamente com a sofisticação dos carros estacionados na garagem. Ao entrar na mansão, os olhos da jovem percorreram cada detalhe com uma mistura de assombro e curiosidade.
Helena, sempre a anfitriã perfeita, foi a primeira a recebê-la com um sorriso generoso.
— Seja bem-vinda, Sara. Rute nos disse que você é uma moça muito dedicada. Espero que se sinta bem em nossa casa.
Marco Aurélio desceu as escadas lentamente. Quando seus olhos finalmente encontraram os de Sara, o plano de ser apenas um tutor distante começou a ruir. Ela tinha a mesma intensidade no olhar que Rute, mas envolta em uma aura de juventude que ele não estava preparado para enfrentar.
— Obrigado, Dona Helena. É a casa mais bonita que já vi na vida — disse Sara, com uma voz suave que fez Marco estacar no último degrau.
Naquele momento, ele percebeu que a mansão, com toda a sua segurança e muros altos, não seria capaz de protegê-lo do que estava por vir. Ele era um homem que dominava as palavras, mas, diante de Sara, o roteiro que ele havia escrito em sua mente parecia subitamente em branco.
Capítulo 3: A Tensão sob o Verniz
A presença de Sara na mansão agiu como uma nota dissonante em uma orquestra perfeita. Nos primeiros dias, ela movia-se como uma sombra silenciosa, aprendendo as engrenagens da casa sob a supervisão atenta de Helena. Marco Aurélio, por sua vez, tentava se refugiar em seu escritório, mas a concentração, antes sua maior aliada, o abandonara.
Através da porta entreaberta, ele ouvia o som dos passos de Sara pelo corredor. Não eram passos pesados, mas carregavam uma vivacidade que o mármore frio da casa parecia não conhecer.
Certa tarde, enquanto ele fingia revisar os originais de seu novo livro, Sara entrou para trazer o café. O aroma do grão fresco misturou-se ao perfume simples de sabonete de flores que emanava dela.
— O senhor trabalha demais, Seu Marco — disse ela, pousando a bandeja com uma delicadeza que contrastava com suas mãos marcadas pelo trabalho no campo.
— As histórias não se escrevem sozinhas, Sara — respondeu ele, sem conseguir desviar o olhar do papel por mais de um segundo. — Elas exigem que a gente se perca nelas.
— Deve ser bom poder inventar a vida — comentou a jovem, aproximando-se da estante de livros. — Na roça, a vida é o que é. Não tem muito como mudar o final.
Marco sentiu um aperto no peito. Ele olhou para Sara e viu nela não apenas a beleza que Rute descrevera, mas uma fome de mundo que o assustava. O plano de "salvá-la de si mesmo" parecia cada vez mais uma justificativa frágil para mantê-la por perto.
Enquanto isso, Helena, alheia ao turbilhão que crescia sob o teto de seu castelo, elogiava a nova ajudante durante o jantar.
— Sara é uma joia, Marco. Tem uma inteligência natural. Estive pensando... talvez pudéssemos realmente investir nos estudos dela, como você sugeriu. Ela tem potencial para muito mais do que o serviço doméstico.
As palavras de Helena, proferidas com tamanha bondade, soaram como sentenças de culpa nos ouvidos do escritor. Ele era o arquiteto daquela harmonia, mas também era quem escondia a dinamite nos alicerces.
Naquela noite, o sono não veio. Marco Aurélio caminhou até a varanda e olhou para a pequena dependência onde Sara dormia. O conflito entre o homem que ele deveria ser e o homem que seus instintos exigiam estava apenas começando. Ele percebeu, com um temor literário, que o vilão de sua própria história não era o destino, mas a sua incapacidade de dizer "não" ao desejo.
Capítulo 4: O Labirinto de Espelhos
A rotina na mansão tornou-se uma coreografia de olhares evitados. Marco Aurélio tentava se convencer de que sua obsessão era puramente literária — o interesse de um autor por uma "personagem" complexa. No entanto, a verdade era que cada encontro casual com Sara no corredor enviava ondas de choque através de sua fachada de patriarca benevolente.
Certa manhã, enquanto a casa ainda despertava, Marco encontrou Sara na biblioteca. Ela segurava um exemplar de O Primo Basílio, deslizando os dedos pela capa de couro com uma reverência quase religiosa.
— Gosta de ler, Sara? — perguntou ele, a voz soando mais rouca do que pretendia.
A jovem deu um pequeno salto, surpreendida.
— Gosto, sim, Seu Marco. Mas na roça os livros eram raros. Eu lia os jornais velhos que chegavam para embrulhar as coisas. Lia tudo, até os anúncios.
Marco aproximou-se. O perfume de sabonete de flores, agora familiar, parecia preencher o espaço entre as estantes de carvalho.
— A leitura é a única forma de viver muitas vidas em uma só — disse ele, entregando o livro a ela. — Fique com este. É sobre os perigos do desejo e as convenções da sociedade.
Os dedos de Sara tocaram os de Marco ao receber o volume. O contato foi breve, mas eletrizante. Ela sustentou o olhar dele por um segundo a mais do que a etiqueta permitia, e Marco viu ali o "fogo" que Rute mencionara — uma centelha de consciência sobre o poder que ela começava a exercer sobre o senhor daquela casa.
Enquanto isso, a tensão aumentava em outro front. Rute, sentindo-se deixada de lado pelos compromissos de Marco, apareceu sem aviso na cidade, exigindo um encontro em um hotel discreto.
— Você está distante, Marco — sibilou Rute, enquanto ele tentava manter a calma. — Está encantado com a novidade que eu coloquei na sua sala de estar? Lembre-se que Sara é meu sangue. Se você a magoar, ou se esquecer de quem te dá o verdadeiro prazer, o seu castelo de papel pode queimar bem rápido.
Marco saiu do encontro sentindo o peso da chantagem implícita. Ele estava preso em um labirinto de sua própria criação: de um lado, a pureza e a confiança de Helena; de outro, a paixão perigosa de Rute; e, no centro, a presença magnética de Sara, que representava tanto a sua redenção quanto a sua ruína total.
Ao retornar para casa, encontrou Helena no jardim. Ela colhia rosas brancas, a imagem perfeita da serenidade que ele jurara proteger. Ela sorriu para ele, mas Marco sentiu um aperto no peito ao perceber que sua mente já não pertencia inteiramente àquela paz.
Naquela noite, uma tempestade desabou sobre a região. Os trovões faziam os vidros da mansão vibrar. Marco estava em seu escritório quando a porta se abriu suavemente. Não era Helena, nem um fantasma de sua imaginação. Era Sara, vestindo apenas um robe leve, com os olhos arregalados pelo medo — ou por uma coragem recém-descoberta.
— Os trovões me dão medo, Seu Marco — sussurrou ela, fechando a porta atrás de si. — Posso ficar aqui até a chuva passar?
Marco Aurélio sentiu o roteiro de sua vida escapar definitivamente de suas mãos.
Capítulo 5: O Limiar do Abismo
O silêncio que se seguiu ao estalo do trovão era denso, preenchido apenas pela respiração descompassada de Marco Aurélio. A luz dos relâmpagos, filtrada pelas cortinas de seda, iluminava o rosto de Sara em flashes rápidos, revelando uma expressão que oscilava entre a vulnerabilidade da menina que temia a tempestade e a audácia da mulher que sabia exatamente onde estava.
— Você não deveria estar aqui, Sara — disse Marco, a voz saindo em um sussurro que traía sua própria convicção. Ele se levantou da poltrona de couro, mantendo a mesa de carvalho como uma barreira física entre eles.
— O senhor disse que as histórias exigem que a gente se perca nelas — respondeu ela, dando um passo à frente. O robe leve acompanhava o movimento de seu corpo com uma fluidez que desafiava o autocontrole do escritor. — Eu cansei de ler a vida dos outros. Quero saber como é a minha.
Marco sentiu o mundo ao redor desvanecer. Naquele momento, não havia Helena no quarto ao lado, não havia a ameaça de Rute, nem a responsabilidade de ser o pilar da família. Havia apenas o magnetismo de Sara, que parecia personificar todos os parágrafos proibidos que ele jamais se atrevera a publicar.
Ele caminhou em direção a ela, movido por uma força que sua lógica não conseguia mais conter. Quando suas mãos encontraram os ombros de Sara, o calor da pele dela queimou através do tecido fino. Ele a puxou para perto, e o beijo que se seguiu foi o ponto final de sua antiga vida e o prólogo de uma jornada perigosa. Era um desejo faminto, alimentado por meses de repressão, uma entrega mútua onde as barreiras de patrão e empregada foram incineradas pela intensidade do momento.
Ali, no refúgio do escritório, cercados por livros que falavam de moral e tragédia, eles se perderam um no outro. Marco descobriu que a juventude de Sara não era apenas beleza, mas uma força da natureza que o envolvia em carícias urgentes e olhares que prometiam um tipo de liberdade que ele nunca conhecera. Cada toque era um risco, cada suspiro um segredo compartilhado que agora os unia de forma irremediável.
A manhã seguinte nasceu cinzenta, lavada pela chuva da noite anterior. Marco Aurélio acordou cedo, sentindo o peso do "dia seguinte" antes mesmo de abrir os olhos. Ao descer para o café, encontrou Helena sentada à cabeceira, folheando um catálogo de decoração.
— Dormiu bem, querido? — perguntou ela, sem desviar os olhos das páginas. — A tempestade foi forte, achei que os trovões fossem te atrapalhar na escrita.
— Eu... trabalhei até tarde — respondeu Marco, sentindo que cada palavra era uma nota falsa.
Sara entrou na sala para servir o café. Seus olhos encontraram os de Marco por um breve segundo — um olhar carregado de cumplicidade e um novo brilho de poder. Ela agia com a mesma modéstia de antes, mas havia algo na inclinação de sua cabeça, na forma como ela posicionava a xícara diante dele, que gritava a verdade para quem soubesse ler as entrelinhas.
O clima de normalidade era a parte mais difícil daquela nova ficção. Marco percebeu que agora vivia em uma narrativa de espionagem dentro de sua própria casa. Ele olhou para Helena, a mulher que ele sinceramente amava, e para Sara, a paixão que o revigorava, e sentiu a primeira rachadura real no seu império.
A situação complicou-se ainda mais quando, ao verificar seu celular, encontrou uma mensagem de Rute, enviada durante a madrugada:
"Espero que a tempestade tenha sido proveitosa para todos nós, Marco. Vou passar na mansão hoje para ver como minha filha está se adaptando. Quero ver se você está cuidando bem dela... de todas as formas."
O autor de romances sentiu o suor frio. O triângulo que ele desenhara estava se tornando um círculo vicioso. Ele não estava mais escrevendo a história; ele estava sendo escrito por ela.
CAPÍTULO 6
A Fresta do Destino
A noite na fazenda não trazia descanso, apenas segredos. O som da chuva fustigando as telhas de barro criava uma cortina sonora que isolava os cômodos, mas não era suficiente para abafar o tumulto que crescia no peito de Sara. Ela atravessou o corredor sombrio, seus pés descalços mal tocando o tapete puído. Uma força magnética a empurrava em direção ao quarto do final do corredor, onde a luz da lamparina desenhava formas fantasmagóricas sob a porta.
Sara deteve-se. O metal frio do trinco reluzia, convidativo e perigoso. Com o coração martelando contra as costelas, ela se inclinou. O que viu através da pequena abertura não foi apenas uma cena de amor, mas uma revelação de poder e entrega que a deixou sem fôlego.
Lá dentro, o mundo de Marco Aurélio e Helena era feito de sombras e fogo. Marco, sempre tão contido e autoritário em suas ordens diurnas, revelava-se um homem de uma intensidade voraz. Suas mãos, as mesmas que assinavam contratos e apontavam falhas, agora exploravam o corpo de Helena com uma urgência febril. Ele a envolvia com uma sede que parecia querer consumir não apenas a pele, mas a própria essência da esposa.
Sara sentiu um calor súbito subir por seu pescoço. Era um prazer estranho e proibido observar a forma como os corpos se buscavam, a sinfonia de suspiros que escapava entre os beijos longos e profundos. A pele de Helena brilhava sob a luz âmbar, e a maneira como ela se entregava ao toque de Marco, com uma confiança absoluta e um desejo manifesto, causava em Sara uma vertigem desconhecida.
Porém, junto ao fascínio, veio o golpe. O ciúme, como uma lâmina fina e gelada, atravessou a curiosidade de Sara. Ver a devoção nos olhos de Marco enquanto ele percorria o ombro de Helena com os lábios, sentir a atmosfera de uma conexão que ela jamais experimentara, transformou sua admiração em uma posse silenciosa e amarga. Ela queria estar naquele lugar. Ela queria ser o motivo daquele fôlego curto e daquele olhar perdido de Marco Aurélio.
Ela permaneceu ali, estática, prisioneira daquela fresta. O prazer da visão misturava-se à dor da exclusão. Cada toque que Marco dedicava à esposa era gravado na memória de Sara como uma lição e um desafio. Ela já não era mais a jovem ingênua da roça; naquela noite, observando a intimidade dos patrões, ela compreendeu que o desejo era a arma mais poderosa daquela casa.
Quando o silêncio finalmente retornou ao quarto, restando apenas o eco da chuva, Sara recuou para a escuridão do corredor. Seus olhos, antes claros de inocência, agora carregavam o brilho sombrio de quem conhece as fraquezas de um gigante. O castelo de papel e ouro de Marco Aurélio ainda estava de pé, mas Sara acabara de descobrir onde ficavam os alicerces.
Capítulo 7: A Arquiteta dos Silêncios
Para os olhos de Dona Helena, Rute era a eficiência em pessoa. Ela era o braço direito de Marco Aurélio, a mulher que vinha da roça e conhecia cada palmo das terras que a família possuía no interior. Oficialmente, Rute atuava como sua assistente e administradora. Enquanto Marco Aurélio se isolava em seu escritório na mansão, mergulhado em seus manuscritos e no universo abstrato de seus livros, era Rute quem lidava com a burocracia, com os rendimentos das propriedades e com as questões práticas que o escritor tanto detestava.
Para a matriarca, Rute era uma peça indispensável. Helena a via como a guardiã da tranquilidade do filho, alguém que garantia que nada interrompesse o fluxo criativo do grande autor. Ninguém na mansão desconfiava que, sob a capa de administradora zelosa, Rute escondia o papel de sua amante silenciosa. Era um acordo tácito: ela oferecia a Marco o suporte para sua vida material e o refúgio para seus desejos, enquanto ele, em troca, oferecia a proteção que ela buscava.
Mas o que Marco Aurélio, em sua vaidade de escritor, não percebia, era que Rute não estava ali por submissão. Sua verdadeira missão era proteger a filha, que trabalhava na mansão. Rute aceitara o papel de amante e de administradora como um escudo. Ao tornar-se essencial para a organização da vida dele, ela garantia que sua filha jamais fosse desamparada.
Foi Rute quem, com a sutileza de quem conhece a mente de um criador, convenceu Marco Aurélio de que Sara seria a companhia ideal para Dona Helena. Ela soube usar as palavras certas, quase como se ditasse um parágrafo de um dos livros dele, para que ele acreditasse que trazer Sara para a mansão era uma ideia sua. Rute queria Sara por perto. Queria ter, sob o mesmo teto, a filha que precisava de cuidado e a mulher que despertava nela uma paixão avassaladora.
Naquela tarde, enquanto Rute cruzava os corredores da mansão, ela sentia o peso e o poder de sua posição. Ela era a secretária para o mundo, a amante para o escritor, a proteção para a filha e o desejo para Sara. Marco Aurélio escrevia ficção em seus papéis, mas era Rute quem escrevia a realidade daquela casa, movendo as peças com a precisão de quem sabe que o verdadeiro poder reside em quem controla os bastidores.
Capítulo 8: A Tinta do Pecado
O final da tarde trazia uma luz alaranjada que filtrava pelas cortinas pesadas do escritório de Marco Aurélio. No entanto, ele não estava sozinho. Rute, a administradora de seus bens e de seus segredos, estava encostada na porta de carvalho, observando-o com o olhar de quem possui não apenas os livros contábeis, mas a alma do escritor.
Ela se aproximou sem ruído. Não precisavam de palavras; o contrato entre eles era assinado com o toque. Marco a puxou para si com uma urgência que misturava gratidão e posse. Sobre a mesa onde repousavam seus manuscritos, o desejo se manifestou de forma avassaladora. Rute entregava-se com a experiência de quem conhecia cada ponto de vulnerabilidade dele, guiando-o por um labirinto de sensações que o faziam esquecer temporariamente de sua moralidade. Foi uma entrega mútua, intensa e ruidosa, onde os corpos se comunicavam em uma linguagem que Helena jamais entenderia. Ali, Marco era apenas um homem rendido à força da natureza que Rute representava.
Minutos depois, enquanto Marco ainda tentava recuperar o fôlego e Rute ajeitava o vestido com a calma de quem acaba de realizar uma tarefa rotineira, ela sussurrou ao pé de seu ouvido:
— Não se esqueça de quem realmente cuida de você, Marco. — E saiu, deixando no ar o rastro de seu perfume forte.
Marco mal teve tempo de se recompor quando uma batida suave soou à porta. Era Sara. Ela trazia a bandeja de prata com o café, exatamente como na cena que o assombrava. Ao entrar, os olhos da jovem percorreram o ambiente; ela notou o leve desalinho do patrão e o cheiro de Rute que ainda pairava no ar. Um sorriso enigmático surgiu em seus lábios.
— O senhor parece exausto, Seu Marco — disse ela, pousando o café.
O escritor sentiu a adrenalina do encontro anterior ser substituída por uma excitação nova e proibida. A presença de Sara era um convite ao abismo. Ele a segurou pelo pulso quando ela fez menção de sair. O contraste entre a força madura de Rute e a juventude magnética de Sara era o combustível que faltava para sua completa ruína.
Naquele mesmo escritório, o ciclo se repetiu, mas com uma cadência diferente. Com Sara, a relação era uma descoberta faminta, um jogo de sedução onde ele tentava recuperar uma vitalidade perdida. Ela se entregava com uma audácia que o surpreendia, explorando a intimidade com uma curiosidade que o levava ao limite. Marco Aurélio, o milionário e pensador, via-se agora como um escravo de duas linhagens: a mãe, que detinha o controle, e a filha, que detinha o fogo.
Ao final, enquanto Sara saía discretamente, Marco sentou-se em sua poltrona. Ele percebeu que a mansão não era apenas sua casa; era um palco de espelhos. Ele amava Helena, mas era mantido vivo pela dualidade das duas mulheres que dividiam o mesmo sangue e, agora, o mesmo segredo.
Capítulo 9 — O Jogo das Mãos Invisíveis
A mansão parecia respirar de forma diferente naquela manhã. Não era o silêncio habitual, confortável e previsível, mas um silêncio atento, como se as paredes escutassem. Marco Aurélio percebeu isso ao atravessar o corredor principal: cada passo seu ecoava como um erro possível.
Rute já estava ali.
Sentada na sala menor, próxima à biblioteca, ela folheava uma pasta de documentos com a calma de quem tinha todo o tempo do mundo. Ao vê-lo, ergueu os olhos devagar, analisando-o não como amante, mas como estrategista avalia uma peça fora do lugar.
— Você anda distraído, Marco — disse ela, sem acusação direta. — Distração custa caro.
Ele se sentou à frente dela, cruzando as mãos.
— Está tudo sob controle.
Rute sorriu. Um sorriso curto, afiado.
— Não está. E você sabe.
Ela fechou a pasta e inclinou-se levemente para a frente.
— Minha filha não é ingênua. Nunca foi. E você… nunca foi forte quando desejado.
O golpe não estava nas palavras, mas na serenidade com que foram ditas. Marco sentiu o estômago contrair.
— Rute, eu não…
— Não termine frases comigo — interrompeu. — Eu não estou aqui para disputar amor. Amor é luxo. Eu disputo segurança.
Do outro lado da casa, Sara ajudava Helena a escolher tecidos para a reforma de um dos quartos de hóspedes. A jovem ouvia atenta, mas sua mente estava distante. Cada gesto gentil de Dona Helena era como um peso adicional sobre sua consciência — e, ao mesmo tempo, um combustível silencioso.
— Você é como uma filha para mim, Sara — disse Helena, tocando-lhe a mão com afeto. — Quero que se sinta protegida aqui.
Sara sorriu. Um sorriso educado, controlado. Por dentro, algo se fechava.
Ela agora conhecia demais os bastidores daquela proteção.
Quando Sara saiu da sala, encontrou Rute no corredor. O encontro não foi casual. Nunca era.
As duas se encararam por um instante longo demais para ser apenas mãe e filha.
— Você está aprendendo rápido — disse Rute, em tom baixo. — Só não confunda vantagem com vitória.
— Eu não quero vencer ninguém — respondeu Sara. — Só não quero ser invisível.
Rute aproximou-se um pouco mais.
— Invisível é quem não sabe usar o silêncio. Observe. Espere. Homens como Marco se entregam sozinhos.
Sara sustentou o olhar da mãe. Não havia mais submissão ali — havia escolha.
Naquela noite, Marco tentou escrever. As palavras não vinham. Pela primeira vez, ele compreendia que não estava diante de uma paixão, mas de uma engrenagem que girava sem que ele controlasse mais nada.
Rute controlava a estrutura.
Sara controlava o desejo.
Helena, sem saber, sustentava o equilíbrio.
E ele?
Ele era apenas o ponto fraco que unia todas elas.
Do lado de fora, a mansão permanecia imponente. Por dentro, o castelo de papel começava a ranger — não com estrondo, mas com a sutileza perigosa das coisas que cedem devagar.
Marco Aurélio fechou o caderno.
Pela primeira vez, entendeu que não havia mais escolha sem consequência.
E a história, agora, exigia um preço.
Capítulo 10 — A Carne da Palavra
A noite caiu sobre a mansão como um véu cúmplice. As luzes externas iluminavam os jardins com uma serenidade quase artificial, enquanto, por dentro, a casa pulsava com tensões que nenhum projeto arquitetônico poderia conter.
Marco Aurélio fechou a porta do escritório com cuidado excessivo. O clique suave da fechadura soou como um pacto renovado. Ele não estava ali como escritor, nem como marido, nem como patriarca. Estava ali como um homem que já não distinguia desejo de necessidade.
Sara o aguardava.
Sentada na poltrona próxima à estante, as pernas cruzadas com naturalidade estudada, ela não demonstrava ansiedade. Aprendera rápido: o silêncio era a sua arma mais eficaz. Quando Marco se aproximou, ela ergueu o olhar devagar, oferecendo não submissão, mas convite.
— Você demora quando pensa demais — disse ela, em tom baixo.
Marco sentiu o impacto da frase como um toque invisível. Sentou-se diante dela, permitindo que o espaço entre os corpos se tornasse uma pergunta sem resposta imediata. O perfume leve de Sara misturava-se ao cheiro antigo dos livros, criando uma combinação que o desarmava.
Quando ele tocou sua mão, o gesto não foi urgente. Foi consciente. O prazer ali não nascia da pressa, mas do risco. Sara respondeu aproximando-se, deixando que o contato se aprofundasse em movimentos lentos, carregados de intenção. Seus corpos se reconheciam como quem reencontra um segredo mal guardado.
O beijo que trocaram não teve inocência. Foi profundo, denso, construído sobre tudo o que não podia existir à luz do dia. Marco sentiu-se tomado por uma vitalidade que não vinha apenas da juventude de Sara, mas do espelho que ela lhe oferecia: ali ele ainda era desejado, ainda era centro, ainda era chama.
Ela o conduziu sem pressa, como quem conhece primeiro o terreno emocional. Cada aproximação vinha acompanhada de um olhar firme, consciente do efeito que produzia. O prazer que se erguia entre eles não era apenas carnal — era transgressão elevada à cumplicidade, era entrega carregada de volúpia e descoberta.
Quando, enfim, o tempo perdeu forma e a respiração voltou ao ritmo possível, Sara se afastou devagar. Ajustou a roupa com calma, como quem sabe que não precisa se esconder.
— Você escreve melhor quando sofre — disse ela, antes de sair. — Não desperdice isso.
A porta se fechou.
Marco permaneceu imóvel por longos minutos. O corpo ainda vibrava, mas a mente já buscava abrigo. Sentia-se pleno e, ao mesmo tempo, perigosamente exposto.
Foi então que percebeu que não estava sozinho.
Rute encostava-se ao batente da porta, os braços cruzados, observando o escritório com um olhar atento demais para ser casual. Não havia provocação em sua postura — havia cálculo.
— Você anda mexendo demais nas engrenagens — disse ela, sem elevar a voz. — E engrenagens não rangem à toa.
Marco sentiu o golpe sem que houvesse toque algum.
— Não ultrapassei limites — respondeu, mais para si do que para ela.
Rute aproximou-se apenas o suficiente para que sua presença fosse incontornável. Não o tocou. Não precisou.
— Ultrapassou o momento certo — corrigiu. — Desejo sem controle vira prova. E provas… sempre encontram testemunhas.
Ela passou os dedos pela mesa, tocando de leve os manuscritos, como se marcasse território.
— Não confunda o fogo da juventude com liberdade, Marco. Sara aprende rápido. E mulheres que aprendem rápido… não permanecem no lugar que você imagina.
O silêncio que se seguiu foi mais pesado do que qualquer carícia.
Rute se afastou, abrindo a porta.
— Durma com isso — disse, antes de sair. — Se conseguir.
Sozinho novamente, Marco caminhou até a janela. A mansão dormia. Helena também.
O prazer ainda pulsava em seu corpo, mas agora vinha acompanhado de algo novo, incômodo e definitivo: o medo.
Não de perder Rute.
Não de ser descoberto por Helena.
Mas de já não saber quem, naquela casa, conduzia a história.
Ele abriu o caderno e escreveu apenas uma frase:
“O pecado não começa no toque, mas no momento em que paramos de resistir.”
Fechou o caderno.
O castelo de papel e ouro permanecia de pé.
Mas agora, Marco Aurélio sabia:
era sustentado pelo fogo.
Capítulo 11 — O Eco do Silêncio
A manhã seguinte à tempestade emocional no escritório não trouxe o sol esperado. Uma névoa baixa e úmida abraçava os jardins da mansão, filtrando a luz e dando a tudo um aspecto de sonho — ou de pesadelo mal acabado. Marco Aurélio acordou com o peso de mil palavras não ditas.
Na mesa do café, o cenário era de uma perfeição insuportável. Helena, impecável em seu robe de seda pérola, servia-se de frutas com uma delicadeza que, naquela manhã, irritava os nervos de Marco.
— Você está pálido, querido — observou Helena, sem erguer os olhos. — Ouvi você andando pelo escritório de madrugada. O livro está cobrando um preço muito alto?
Marco hesitou, a xícara de porcelana paralisada a meio caminho da boca. — Os personagens decidiram seguir caminhos que eu não previ, Helena. É difícil convencê-los a voltar para casa.
Nesse momento, Sara entrou na sala com uma jarra de suco fresco. O silêncio que se instalou foi tão denso que Marco jurou ouvir o próprio batimento cardíaco. Sara não olhou para ele; seu foco estava em Helena. Ela se inclinou para servir a patroa, e Marco notou, com um sobressalto, que Sara usava um par de brincos pequenos, de pérola — um detalhe discreto, mas que ele sabia não pertencer ao enxoval simples que ela trouxera da roça.
— Obrigada, Sara — disse Helena, desta vez olhando diretamente para a jovem. — Que brincos bonitos. Foi presente da sua mãe?
O olhar de Sara encontrou o de Helena por um segundo a mais do que o necessário. — Foi um presente de alguém que valoriza o meu silêncio, Dona Helena.
Marco sentiu um calafrio. A frase de Sara era uma flecha direcionada a ele, mas disparada na frente de sua esposa. A audácia da jovem estava crescendo, alimentada pelo poder que o encontro da noite anterior lhe conferira.
A Visita Inesperada
A tensão foi interrompida pelo som de saltos no mármore do hall. Rute entrou na sala de jantar sem pedir licença, carregando uma pasta de couro. Ela emanava uma energia de urgência administrativa que, Marco sabia, era apenas um disfarce para sua vigilância constante.
— Bom dia, Helena. Marco, precisamos revisar os contratos da safra de café da fazenda — disse Rute, a voz firme, ocupando o espaço com a autoridade de quem é dona dos segredos daquela fundação.
Helena sorriu, mas havia algo diferente em seu sorriso — uma sombra de dúvida que Marco nunca vira antes. — Você sempre tão dedicada, Rute. Às vezes me pergunto se você cuida mais dos negócios do meu marido do que ele próprio.
— Eu cuido do que é valioso, Helena — respondeu Rute, fixando os olhos em Marco. — E o que é valioso não pode ficar sem supervisão.
O Círculo se Fecha
Após o café, Marco refugiou-se na biblioteca, mas a paz era uma ilusão. Ele sentia-se vigiado pelas três mulheres. Rute representava o passado e a estrutura; Sara, o presente e o desejo perigoso; Helena, o futuro que ele estava destruindo.
Ele pegou a caneta, mas não escreveu ficção. Escreveu nomes. Helena. Rute. Sara. Três pontas de um triângulo que se fechava sobre ele.
A porta da biblioteca abriu-se fresta por fresta. Não era Sara com o café, nem Rute com papéis. Era Helena. Ela entrou e fechou a porta com o trinco — o mesmo som que Marco usara na noite anterior para se isolar com Sara.
— Marco — disse ela, a voz baixa e perigosamente calma. — Eu vivi anos ao seu lado aceitando suas ausências em nome da arte. Aceitei Rute em nossa vida porque ela era útil. Mas há algo nesta casa que não é trabalho, nem é arte.
Ela caminhou até a mesa e tocou o caderno onde ele escrevera os três nomes. — Você é um mestre em criar tramas, meu amor. Mas não se esqueça de uma coisa: eu leio todos os seus livros. E eu sei identificar quando um autor está tentando esconder o vilão no meio dos espelhos.
Helena deu as costas e saiu, deixando Marco sozinho com o eco de suas palavras. O castelo de papel e ouro não estava apenas sendo queimado pelo fogo de Sara ou controlado pelas mãos de Rute. Ele estava sendo lido, página por página, pela mulher que ele acreditava estar no escuro.
Capítulo 12 — O Convite e a Sentença
A manhã trouxe uma oportunidade que, em outros tempos, seria o ápice da carreira de Marco Aurélio. Um convite formal para um congresso de três dias na capital, reunindo os maiores barões do café e editores influentes. Era o encontro perfeito entre o seu império financeiro e o seu prestígio literário. No escritório, Marco apresentou o convite a Helena, esperando que a viagem servisse como um escape da pressão sufocante que se instalara na mansão.
— Seria bom mudarmos de ares, Helena. O que acha de irmos juntos?
Helena, que organizava uma lista de inventário da prataria, sequer parou o que estava fazendo. O brilho calmo em seus olhos era mais inquietante do que qualquer grito.
— Eu adoraria, Marco. Mas a mansão exige muito de mim nestes próximos dias. E Sara ainda precisa de orientação constante. Ela é dedicada, mas precisa entender como esta casa funciona sob minha tutela. Leve a Rute. Ela conhece os números do café e pode agendar suas reuniões. Ela é sua administradora, afinal. O braço direito que garante sua tranquilidade.
Marco hesitou. Helena aproximou-se e ajeitou a gola da camisa dele. O toque era possessivo.
— Mas escute bem, Marco. No hotel, trate de negócios apenas em público. Jamais entre no quarto de Rute, e não permita que ela ponha os pés no seu. Quero que a linha entre o profissional e o pessoal seja uma muralha. Eu confio em você, meu marido. Não me prove que estou errada.
A frase final foi uma sentença: Helena estava dando a corda, e Marco sentia que qualquer movimento em falso apertaria o nó em seu pescoço.
O Escudo de Rute
Enquanto a viagem era organizada, Sara observava o movimento de malas com os olhos nublados de tristeza. Ao saber que ficaria para trás enquanto a mãe acompanharia o homem que ela desejava, sentiu um aperto no peito. Rute a encontrou no quarto de serviço e, vendo o desalento da filha, fechou a porta com cuidado.
Rute olhava para Sara com uma mistura de amor e dor. Ela sabia exatamente o que acontecia entre Marco e a filha nos cantos escuros da mansão — e sabia o que acontecia entre ela mesma e Marco no escritório. Mas Sara não podia sonhar com isso. Para a jovem, a mãe era apenas a funcionária exemplar e austera.
— Não fique com esse rosto, minha filha — disse Rute, segurando as mãos de Sara com firmeza. — Eu vou com ele porque é o meu trabalho. Alguém precisa cuidar para que aquele homem não jogue fora tudo o que construímos.
— É que eu sinto que ele vai se esquecer de mim lá, mãe — sussurrou Sara, a voz embargada. — Ele é tão... importante. E eu sou só a menina da roça aqui dentro.
Rute sentiu uma pontada no coração. Ela conhecia a natureza predatória de Marco melhor do que ninguém. — Ele não vai esquecer. Eu estarei lá para garantir isso. Mas escute: use esses três dias para ser a sombra de Helena. Seja doce, seja prestativa. Ganhe o coração dela. Enquanto eu cuido dos "negócios" dele na capital, você garante o seu lugar nesta casa.
Rute abraçou a filha, escondendo o próprio conflito. "Se você soubesse, Sara...", pensava ela, "que eu aceito o toque dele apenas para que ele nunca desampare você". — Eu vou vigiá-lo, Sara. Prometo que ele voltará para você exatamente como saiu.
A Partida
Na hora da saída, o carro preto aguardava. Marco despediu-se de Helena com um beijo ensaiado. Sara estava ao fundo, os olhos fixos nele, implorando por um sinal. Ele, porém, evitava o olhar da jovem, aterrorizado pelas condições impostas por Helena.
Ao entrar no carro, Marco sentiu o perfume de Rute. O motorista deu partida. Pelo retrovisor, viu Helena acenando devagar, e Sara, um pouco mais atrás, como uma sombra desolada.
A viagem começara. Marco Aurélio estava entre a esposa que lhe impunha regras e a administradora que conhecia cada um de seus podres — e que o desprezava secretamente por cada um deles. No bolso do paletó, o celular vibrou. Era uma mensagem de Sara: "Três dias é muito tempo longe de mim. Cuidado com o frio do hotel, Marco. Eu vou estar no seu pensamento em cada minuto de silêncio."
Rute notou o brilho do celular e o desvio de olhar de Marco. Ela sabia de quem era a mensagem. Olhou para a paisagem pela janela, sentindo o peso do segredo que carregava: o de ser a amante do homem que também desejava sua filha, enquanto fingia para o mundo que era apenas uma secretária de confiança.
Capítulo 13 — A Cortina de Vidro
A capital recebeu Marco Aurélio e Rute com a impessoalidade luxuosa de um hotel cinco estrelas. O ambiente, carregado de veludo e luzes âmbar, parecia o cenário ideal para um homem que vivia de criar ficções. As reuniões com os barões do café e os donos de livrarias foram rápidas e cirúrgicas. Rute, com sua precisão matemática, apresentava os relatórios enquanto Marco usava seu charme literário para selar os acordos. Em poucas horas, os contratos estavam assinados, deixando o resto do dia livre de obrigações profissionais.
Marco, no entanto, jogava em dois tabuleiros. Ele mantinha Helena presente em cada passo.
— Já terminamos a primeira rodada, querida. Rute foi impecável nos números — dizia ele ao celular, caminhando pelo lobby do hotel sob o olhar atento da administradora. — Agora vou subir. O dia foi exaustivo e a viagem me deixou moído. Preciso dormir bastante para me recuperar e estar pronto para o jantar de negócios amanhã. Não me ligue a menos que seja urgente, quero apenas apagar.
Do outro lado, Helena sorria, satisfeita com a transparência do marido. — Descanse, meu amor. Você merece. Estarei aqui cuidando de tudo.
O Refúgio Proibido
Assim que o "boa noite" foi selado com a esposa, a máscara de cansaço de Marco caiu. Ele não foi para o seu quarto dormir. No instante em que as portas do elevador se fecharam, ele buscou a mão de Rute. O hotel, com seus corredores silenciosos e luzes baixas, tornou-se o labirinto onde eles finalmente poderiam ser o que a mansão não permitia.
Diferente dos encontros rápidos e tensos no escritório, ali eles tinham o luxo do tempo. Foram horas de um namoro profundo, uma entrega que misturava a paixão carnal com uma intimidade que apenas anos de segredos compartilhados poderiam construir. Entre carícias lentas e conversas sussurradas sob lençóis de algodão egípcio, Marco não era o grande autor, mas um homem rendido.
Rute, por sua vez, entregava-se com uma intensidade que a surpreendia. Ela conhecia cada linha do corpo dele, cada hesitação e cada desejo. Mas foi naquele quarto, longe da sombra de Helena e da presença magnética de Sara, que uma verdade amarga floresceu em seu peito.
O Ponto Fraco
Enquanto Marco, agora realmente exausto, caía em um sono profundo e tranquilo, Rute permaneceu acordada, observando as luzes da cidade através da vidraça da suíte. Ela sempre se orgulhara de sua frieza, de ser a mulher que movia as peças para garantir o futuro da filha. Mas, ao sentir o calor do corpo de Marco ao seu lado, ela percebeu o perigo.
Marco Aurélio era o ponto fraco de sua vida.
Ela descobriu que, apesar de toda a sua estratégia, ela o amava. Não era um amor romântico e pueril como o de Sara, mas um amor possessivo e enraizado na cumplicidade do pecado. Ela percebeu que dependia dele não apenas pelo dinheiro ou pelo emprego, mas pela forma como ele a fazia sentir-se a verdadeira dona do império, mesmo que nos bastidores.
"Eu sou o pilar que sustenta este homem", pensou ela, sentindo um aperto no coração. "Mas se esse pilar rachar, eu serei a primeira a ser esmagada". O medo de perdê-lo — não para Helena, mas para a própria rede de mentiras que eles criaram — tornou-se real e palpável.
A Espera na Mansão
Enquanto isso, na mansão, o silêncio era absoluto. Sara, desolada, tentava ocupar a mente ajudando Helena com os arranjos de flores. Helena, sentada na varanda, olhava para o horizonte com uma paz genuína. Ela acreditava na exaustão de Marco. Acreditava na fidelidade às suas regras.
— Ele deve estar dormindo como um anjo agora — comentou Helena para Sara, sem imaginar que, naquele exato momento, o marido estava nos braços da mãe da jovem.
Sara forçou um sorriso, o peito ardendo de ciúmes. Ela imaginava Marco sozinho, sentindo sua falta, sem saber que o "descanso" dele era, na verdade, uma celebração nos braços da mulher que prometera vigiá-lo por ela.
O castelo de papel e ouro permanecia firme, mas suas fundações, na capital, estavam sendo moldadas por um namoro que agora tinha o peso de uma descoberta definitiva para Rute: ela já não conseguia mais imaginar a vida sem o homem que era a ruína de sua moralidade.
Capítulo 14 — O Retorno e as Sombras do Desejo
O carro preto cruzou os portões da mansão quando a noite já ia alta. O cansaço da viagem era o álibi perfeito para o silêncio de Marco e Rute durante o trajeto. Rute, agora mais do que nunca, vestia sua máscara de administradora impecável. A descoberta no hotel a deixara alerta: ela não podia permitir que uma fresta sequer aparecesse naquela estrutura. Se Helena descobrisse a verdade, o perdão poderia até vir para o marido, mas para ela, a amante e cúmplice, restaria apenas o exílio e a miséria.
Ao entrarem no hall, Helena os aguardava com um sorriso sereno. — Bem-vindos de volta. Como foi tudo?
— Produtivo e exaustivo, como eu te disse nas ligações, querida — Marco respondeu, entregando-lhe uma caixa aveludada com um colar de safiras. — Um pequeno gesto para agradecer por ter cuidado de tudo na minha ausência.
Rute apenas assentiu com um cumprimento profissional. — Com licença, Helena. Vou aproveitar que o motorista ainda está aqui para ir até a roça ver meus pais. Passo o restante da noite lá e volto amanhã cedo para as contas.
Ao sair, os olhos de Rute cruzaram com os de Marco por um segundo — um aviso silencioso para que ele não cometesse erros. Ela partiu para o refúgio dos pais, tentando processar o peso de saber que aquele homem era, agora, seu ponto de equilíbrio e sua maior fraqueza.
O Reencontro na Suíte Master
Sozinhos no quarto, Helena parecia querer recuperar cada minuto da ausência do marido. — Senti sua falta, Marco. A casa fica silenciosa demais sem você.
Marco, impulsionado por uma mistura de culpa e pela energia que a viagem com Rute lhe despertara, entregou-se à esposa. Fizeram amor a noite toda, uma maratona de carícias que convenceu Helena de que sua "regra de ouro" no hotel fora respeitada. Para ela, aquele vigor era a prova da fidelidade e da saudade dele.
O Despertar Proibido
A manhã nasceu preguiçosa. Helena, exausta pela noite de entrega, mergulhou em um sono profundo e pesado. Marco, porém, estava em alerta. Ele levantou-se silenciosamente, vestiu o robe e buscou no bolso da mala uma pequena caixa que escondia de todos: um anel de diamante e ouro branco.
Ele desceu as escadas como um fantasma. Sara ainda não sabia de sua chegada; ela estava em seu quarto na ala de serviço, preparando-se para começar as tarefas. Quando a porta do quarto dela se abriu bruscamente, a jovem deu um salto, mas seu susto transformou-se em um brilho de puro êxtase ao ver Marco.
— Você voltou... — sussurrou ela, jogando-se nos braços dele.
— Voltei. E não parei de pensar em você um segundo — mentiu ele, selando a promessa com o presente. — Pegue. É para você. Mas escute bem: não use agora. Espere receber seu salário no final do mês. Diga a todos, inclusive à sua mãe e à Helena, que você economizou cada centavo e se deu esse presente. Entendeu?
Sara olhou para a joia, deslumbrada. O perigo daquela mentira era o tempero que ela precisava. — Eu farei o que você quiser, Marco.
O que se seguiu foi uma hora de uma paixão desenfreada e faminta. No pequeno quarto de serviço, longe do luxo da suíte master mas cercado por uma urgência que o mármore não conhecia, Marco e Sara se perderam um no outro. Era o contraste absoluto: a noite inteira com a esposa e, agora, o amanhecer roubado com a amante jovem.
Marco olhou para o relógio. Uma hora exata. Ele precisava voltar para o quarto antes que Helena despertasse. Ele beijou Sara uma última vez, sentindo-se o mestre absoluto daquela narrativa, sem perceber que, ao tentar satisfazer a todas, ele estava apenas aumentando a carga de pólvora sob os alicerces do próprio castelo.
Rute estaria de volta em breve. Helena acordaria feliz. E Sara agora tinha um diamante escondido sob o travesseiro. O jogo nunca fora tão perigoso.
Capítulo 15 — A Intrusiva e o Medo do Abismo
Marco Aurélio não era de ferro. O corpo, exausto pela maratona de luxúria que começou no hotel com Rute, seguiu pela noite inteira com Helena e culminou na hora roubada com Sara ao amanhecer, finalmente cobrou o preço. Ele desabou em um sono tão profundo que o mundo ao redor deixou de existir. Só despertou quando o sol de meio-dia de segunda-feira já invadia a suíte master por entre as frestas da cortina.
Ele desceu as escadas ainda meio atordoado, encontrando a mesa do almoço já posta. Rute ainda não havia retornado da casa dos pais, então a mesa estava ocupada apenas por ele e Helena, sob os cuidados de uma Sara visivelmente inquieta e de olhos inchados.
— Finalmente o grande autor despertou! — brincou Helena, servindo o vinho. — Você devia estar realmente esgotado da viagem, Marco. Dormiu como um anjo.
— O corpo às vezes pede trégua, querida — murmurou Marco, sentindo o olhar de Sara queimando sua nuca a cada vez que ela se aproximava.
A Emboscada de Helena
Entre uma garfada e outra, Helena lançou a proposta que mudaria o clima da casa. — Estive refletindo sobre a nossa conversa de ontem à noite. Você é um homem ocupado, Marco. Entre as fazendas de café e seus livros, o tempo é o seu bem mais precioso. Pensei que seria o momento ideal para trazermos a minha prima, Cassandra. Ela tem 25 anos, é formada em administração e quer sair do interior. Seria perfeito para nos ajudar e para me fazer companhia.
O talher de Marco bateu no prato com um som seco. Sara, que servia o prato principal, parou o movimento no ar. Cassandra não era apenas uma funcionária; era uma ameaça jovem, instruída e com o mesmo sangue de Helena.
— Não sei se é uma boa ideia, Helena — Marco tentou desviar, buscando palavras. — Nossa rotina é muito específica. Eu prezo muito pela minha privacidade aqui dentro para escrever, e a Rute já domina todos os processos das fazendas. Uma pessoa nova, mesmo sendo sua prima, pode quebrar esse equilíbrio.
— Ora, Marco, ela é família! — insistiu Helena. — E você sempre diz que precisamos de renovação.
O Ultimato da Juventude
Assim que Helena se retirou para o jardim, Sara não aguentou. Ela interceptou Marco no corredor da biblioteca, com o fogo da paixão ferida nos olhos.
— Se aquela mulher vier, eu vou embora, Marco! — disse ela, as lágrimas de raiva correndo pelo rosto. — Eu não vou ficar aqui assistindo você olhar para outra moça. Se essa Cassandra for contratada, eu volto para a roça hoje mesmo, mas antes eu conto para a Dona Helena o que você me deu hoje de manhã e o que fizemos naquele quarto!
— Sara, acalme-se... eu vou resolver isso — Marco tentou segurá-la, mas a jovem se desvencilhou, tomada pelo ciúme.
O Alerta na Roça
Sentindo que seu mundo estava prestes a ruir, Sara pediu licença a Helena alegando que precisava levar um remédio para a avó na roça. Ela cavalgou rápido até a pequena propriedade onde Rute estava.
Ao chegar, Sara encontrou a mãe na varanda. Sem rodeios, despejou a notícia que sabia que abalaria Rute: — Mãe, a Dona Helena quer contratar a prima dela, a tal Cassandra. Ela tem 25 anos e vem para morar na mansão, trabalhar nos negócios e "fazer companhia".
Rute, que estava relaxada, sentou-se ereta imediatamente. O instinto de proteção — e o ciúme possessivo que ela descobrira sentir no hotel — disparou como um alarme. Ela conhecia a fraqueza de Marco por rostos novos e o perigo de uma mulher com o mesmo status social de Helena circulando pela casa.
— Vinte e cinco anos e da família? — repetiu Rute, os olhos escurecendo em uma fúria fria. — Helena está jogando uma partida perigosa sem saber.
— Eu disse a ele que vou embora se ela vier — confessou Sara, soluçando. — Eu não aguento ver ele com outra, mãe.
Rute abraçou a filha, mas seu olhar estava fixo no horizonte, em direção à mansão. — Não chore, Sara. Seque esse rosto. Se essa Cassandra pensa que vai entrar naquela casa para desfrutar do que nós garantimos com tanto esforço, ela está muito enganada. Eu volto para a mansão agora mesmo. Marco Aurélio vai aprender que existem limites que nem a fortuna dele pode comprar.
Rute levantou-se com uma determinação gélida. O jogo agora não era mais sobre dinheiro ou status, era sobre a posse do homem que se tornara o ponto fraco de todas elas.
Capítulo 16 — O Veneno da Dúvida
Rute não esperou o dia seguinte. Voltou da roça no final daquela tarde, com os pensamentos tão afiados quanto o salto de seus sapatos no mármore do hall. Ao entrar, deu de cara com Helena, que folheava revistas de decoração na sala de estar.
— Helena, soube por Sara da sua ideia sobre Cassandra — começou Rute, mantendo a voz profissional, mas injetando nela uma dose sutil de veneno.
— Ah, sim, Rute! Ela deve chegar ainda hoje para uma visita. Não é maravilhoso?
Rute aproximou-se, sentando-se à frente de Helena com a confiança de quem conhece os bastidores daquela casa. — É uma caridade admirável da sua parte, Helena. Mas me diga... você realmente conhece a Cassandra? Digo, a mulher que ela se tornou? 25 anos é uma idade perigosa. Jovens bonitas e ambiciosas costumam ver em homens como o Marco algo mais do que apenas um "primo bem-sucedido".
Helena franziu a testa, por um momento a dúvida atravessou seu rosto. — Ela é família, Rute.
— O sangue não impede o desejo, Helena. Apenas o torna mais discreto — Rute disparou o golpe final. — Só espero que você não esteja colocando o lobo para cuidar do rebanho. Marco é um homem íntegro, mas até o mármore racha se a pressão for no lugar certo.
A Chegada do Furacão
Antes que Helena pudesse responder, o som de um carro parando na entrada interrompeu a conversa. Marco desceu as escadas, atraído pelo barulho, encontrando as duas mulheres em silêncio absoluto.
A porta se abriu e Cassandra entrou. Ela era deslumbrante. Tinha cabelos escuros e volumosos, uma pele bronzeada e olhos que pareciam sorrir para tudo ao redor. Mas o que chocou a todos foi o seu traje: um short jeans curtíssimo e uma blusa leve que deixava pouco para a imaginação. Era uma beleza tão vibrante e crua quanto a de Sara, mas com a sofisticação de quem sabia o poder que exercia.
— Oi, prima! — exclamou Cassandra, abraçando Helena e logo em seguida estendendo a mão para Marco com um olhar prolongado. — Prazer, Marco. Finalmente conheço o gênio da família.
Marco apertou a mão dela, sentindo o choque térmico da situação. Pelo canto do olho, ele viu Sara parada na entrada da cozinha, branca como papel, apertando um pano de prato com tanta força que os nós dos dedos estavam lívidos. Rute, ao seu lado, cruzou os braços, os olhos fixos na intrusa.
O Cerco Feminino
Mais tarde, no escritório, o clima pesou. Rute entrou sem bater, encontrando Marco ainda atônito com a presença da prima na sala de jantar.
— Eu avisei, Marco — disse Rute, fechando a porta com um clique seco. — Você viu como ela olhou para você? Viu aquele short? Helena é cega, mas eu não. Eu aceito dividir você com a esposa, porque é o seu dever. Mas se você tocar em um fio de cabelo daquela garota, eu juro que o seu império de papel e ouro vai queimar comigo dentro, se for preciso.
Marco mal teve tempo de processar o ultimato de Rute quando, minutos depois de ela sair, Sara entrou. Ela não disse nada a princípio. Apenas parou na frente dele, tremendo.
— Ela é linda, não é? — perguntou Sara, a voz falhando. — Ela tem tudo o que eu tenho, mas tem o nome da Dona Helena. Se você der a ela o que me dá, Marco... se você olhar para ela do jeito que olhou na sala, eu não vou embora apenas. Eu vou destruir tudo antes de sair.
Marco Aurélio sentou-se na poltrona, sentindo-se, pela primeira vez, uma presa. Ele não tinha a menor intenção de ter nada com Cassandra; o que ele já tinha com Helena, Rute e Sara era mais do que um homem podia suportar. Mas a beleza de Cassandra agira como um catalisador, revelando que Rute e Sara não estavam apenas apaixonadas; elas estavam loucas, obcecadas por manter o homem que as tornara rainhas de um reino secreto.
O autor de romances percebeu que a trama agora tinha uma nova personagem que ele não podia controlar, não porque ela fosse uma amante, mas porque a simples existência dela era o rastilho de pólvora que faltava para a explosão final.
Capítulo 17 — O Jantar das Máscaras Caídas
O primeiro jantar com Cassandra à mesa não foi uma refeição, foi um exercício de sobrevivência. Helena, tentando reafirmar o papel de anfitriã e mentora, colocou Cassandra ao lado de Marco, enquanto Sara servia os pratos com uma rigidez cadavérica. Rute, sentada na outra extremidade, observava cada movimento com o olhar de um falcão.
— Então, Cassandra — começou Helena, quebrando o silêncio de talheres sobre a porcelana —, o que achou da biblioteca do Marco? Ele passa a maior parte do tempo lá.
Cassandra tomou um gole de vinho, deixando a marca de seu batom forte na taça. — Achei fascinante, prima. Mas sinto que o Marco escreve sobre coisas que ele ainda não viveu plenamente. Falta um pouco de... perigo na escrita dele.
Marco engasgou levemente com o vinho. — O perigo é uma questão de perspectiva, Cassandra — respondeu ele, tentando manter a voz neutra. — Às vezes, o maior perigo está no que não é escrito.
Sara, ao retirar o prato de Cassandra, deixou uma colher cair propositalmente sobre o colo da convidada. O molho manchou o tecido leve da blusa de Cassandra. — Ai! — exclamou a jovem. — Mil perdões, senhorita — disse Sara, sem um pingo de arrependimento na voz. — Minhas mãos estão trêmulas hoje.
— Preste atenção, Sara! — repreendeu Helena, mas o olhar que Cassandra lançou para a empregada não foi de raiva, mas de diversão. Ela havia percebido o ciúme.
A Aliança das Sombras
Após o jantar, o clima na cozinha era de guerra. Rute encontrou Sara limpando a bancada com uma fúria silenciosa.
— Aquele molho no colo dela foi um erro de amadora — sussurrou Rute, fechando a porta. — Você deu a ela a munição para se fazer de vítima.
— Eu não aguento, mãe! — explodiu Sara em tom baixo. — Você viu como ela toca no braço dele? Ela nem chegou direito e já age como se fosse a dona do escritório.
Rute segurou o rosto da filha. — Escute bem. Cassandra é sangue de Helena. Se você ou eu tentarmos expulsá-la agora, nós perdemos. Temos que deixá-la se enforcar com a própria petulância. Mas, até lá, você vai ser a sombra dela. Se ela entrar no escritório, você entra com o café. Se ela sair para o jardim com ele, você vai pendurar roupas no varal. Não os deixe sozinhos um segundo.
O Convite na Madrugada
No andar de cima, Marco tentava ler, mas as palavras dançavam em sua mente. Ele ouviu uma batida leve na porta do seu quarto de estudos. Ao abrir, encontrou Cassandra. Ela havia trocado de roupa: usava uma camisola de seda que Helena lhe emprestara, mas que nela parecia ter um propósito totalmente diferente.
— Não consigo dormir, Marco — disse ela, encostando-se ao batente. — Esta casa tem muitos ruídos. Parece que as paredes estão sempre cochichando.
— É uma casa velha, Cassandra. Madeira estala — respondeu ele, mantendo a distância.
— Não é a madeira. São as pessoas. — Ela deu um passo à frente, diminuindo o espaço entre eles. — Sabe, Marco... Helena me disse que você é um homem fiel às suas rotinas. Mas eu vejo nos seus olhos que você gosta de uma boa reviravolta na trama.
Antes que Marco pudesse responder, a luz do corredor se acendeu. Helena apareceu na ponta do corredor, usando seu robe pérola. O silêncio que se seguiu foi cortante.
— Cassandra? Algum problema? — perguntou Helena, a voz fria como gelo, os olhos alternando entre a prima seminua e o marido paralisado.
— Apenas sede, prima. Perdi-me no caminho da cozinha e o Marco estava me dando direções — mentiu Cassandra, com uma naturalidade que assustou Marco.
Helena não sorriu. Ela caminhou até eles, colocou a mão no ombro de Marco e olhou para a prima. — A cozinha fica para o outro lado. Vou acompanhá-la. Marco tem muito o que escrever amanhã e precisa descansar.
Naquela noite, Marco Aurélio entendeu que a "regra de ouro" de Helena não era apenas para Rute. Helena estava começando a enxergar a teia. E o autor, que sempre acreditou estar escrevendo a história, percebeu que agora era apenas um personagem sendo empurrado para o clímax.
Capítulo 18 — O Banquete das Sombras
A mansão não era apenas uma construção de pedra e cal; para Marco Aurélio, era o seu playground particular. Milionário, vibrante e transbordando um apetite pela vida que o dinheiro não conseguia saciar, ele se sentia o senhor de um harém invisível. Amava Helena pela paz e pelo prestígio que ela lhe dava, mas era na perversidade da situação com Rute e Sara que seu sangue realmente fervia.
A Estrategista de Sangue Frio
Rute observava o movimento da casa com a satisfação de quem desenhou cada armadilha. Ela era a amante de anos, a mulher que conhecia os segredos mais obscuros de Marco. Foi ela quem orquestrou a vinda de Sara. Sabia que Marco não resistiria à juventude da filha, e preferia que ele "se perdesse" em casa, sob seus olhos, do que nas ruas. Para poupar Sara de um sofrimento precoce — ou talvez para manter o controle absoluto — Rute escondia da filha que ela própria ainda dividia a cama com o patrão. Para Sara, a mãe era apenas a mentora austera; para Marco, Rute era a cúmplice de uma vida de prazeres proibidos.
O Plano de Afastamento
Naquela manhã, Marco sentia a tensão entre as quatro mulheres atingir o ápice. Precisava de espaço. — Rute, os negócios em Santos exigem sua firmeza. Vá e resolva. Confio apenas em você para lidar com esses valores — disse Marco, entregando-lhe as pastas. Rute aceitou, sabendo que aquele "exílio" temporário era o preço para manter a engrenagem girando. Ela partiu, deixando a mansão com um aviso silencioso no olhar: “Não se esqueça de quem montou este palco, Marco”.
Enquanto isso, Helena, a imagem da elegância e da dedicação, convidou Cassandra para as lavouras. — Vamos, Cassandra. Quero que veja a força desta terra. Marco precisa de silêncio para criar, e nós precisamos entender o que sustenta este nome. Helena, em sua bondade quase trágica, fazia tudo pelo marido, sem imaginar que a "paz" que ela buscava para ele era apenas o cenário que ele precisava para a traição.
O Deslumbre e a Carne
Assim que a caminhonete de Helena sumiu na poeira da estrada, a mansão tornou-se pequena demais para o desejo de Marco e Sara. Sara, a menina que até os 20 anos só conhecia o chão de terra batida da casa dos avós, ainda se sentia em um sonho. O luxo da mansão a fascinava tanto quanto o toque de Marco. Ela não via o perigo; via o ouro, os tecidos caros e o homem poderoso que a tratava como uma deusa.
Ela subiu para a suíte master, o lugar que simbolizava tudo o que ela queria tirar de Helena. — Elas se foram, Marco... — sussurrou ela, deixando o avental de serviço cair no tapete persa.
O encontro foi selvagem. Sara se entregava com a força de quem queria fincar bandeira naquele território. Cada beijo era uma afirmação de que ela, e só ela, bastava. O ciúme que sentia de Cassandra e a sombra constante da mãe a faziam ser mais audaciosa, mais faminta. — Olhe para mim, Marco! — ela exigia, enquanto se perdiam nos lençóis de seda que pertenciam a Helena. — Eu sou a única que te faz sentir vivo, não é? Aquela menina da roça que você transformou em mulher... eu sou o seu maior prêmio.
A Calmaria Antes da Tempestade
Marco Aurélio, mergulhado no êxtase daquela juventude, sentia-se invencível. Tinha a esposa perfeita na lavoura, a amante cúmplice na estrada e a paixão avassaladora em seus braços. Ele não percebia que, ao alimentar o deslumbre de Sara, estava criando uma obsessão que nenhuma joia ou luxo conseguiria conter.
No final da tarde, o silêncio da casa seria quebrado pelo retorno das outras. Rute voltaria com os documentos, Helena com seu sorriso dedicado e Cassandra com seus olhos de observadora. E Marco, no centro de tudo, continuaria escrevendo sua história com tinta de traição, sem saber que o capítulo final já estava sendo escrito pelas mãos de quem ele menos esperava.
Capítulo 19 — O Brilho da Discórdia
A segunda-feira amanheceu com um clima de inquisição na mansão. Sara, seguindo as instruções de Marco Aurélio, esperou o anúncio do pagamento dos funcionários para deslizar o anel de ouro branco e diamante no dedo anelar. Ela caminhava pela casa com uma postura nova, o queixo mais erguido, sentindo que aquela joia era sua aliança de posse sobre o patrão.
O primeiro embate aconteceu na cozinha, durante o café da manhã. Enquanto Sara servia a mesa, o brilho da pedra capturou a luz do sol e, inevitavelmente, os olhos de Helena.
— Que anel magnífico, Sara — comentou Helena, segurando gentilmente a mão da jovem para observar a peça de perto. O silêncio na mesa foi imediato. — É uma peça muito fina. Onde você a conseguiu?
— Eu... eu juntei cada centavo do meu salário e da economia que meus avós fizeram, Dona Helena — mentiu Sara, com a voz levemente trêmula, mas sustentando o olhar. — Quis me dar um presente. Um símbolo da minha nova vida aqui.
Rute, que acabara de retornar da viagem a Santos e ainda sentia o cansaço do trajeto, estreitou os olhos. Ela conhecia joias. Sabia que o salário de Sara, mesmo somado às economias de uma vida inteira na roça, jamais compraria aquela pureza de diamante.
A Sombra da Suspeita
— Um presente caro demais para quem mal começou a carreira, não acha, minha filha? — disparou Rute, a voz carregada de um gelo que só Marco entendeu. — Nem eu, com anos de casa, me daria ao luxo de ostentar algo assim.
Cassandra, que observava tudo com um sorriso irônico, não perdeu a oportunidade de alfinetar: — Talvez a Sara tenha um namorado generoso na cidade... ou talvez as pratas da casa estejam desaparecendo para financiar esses luxos. O que você acha, Marco?
Marco Aurélio sentiu o suor frio descer pela nuca. Ele continuou focado em seu jornal, tentando manter a máscara de indiferença. — O que a Sara faz com o dinheiro dela é assunto dela, desde que o trabalho seja bem feito — respondeu ele, embora suas mãos tremessem levemente sob a mesa.
O Confronto nas Sombras
Após o café, a tensão explodiu nos bastidores. Rute arrastou Sara para o quarto de serviço e fechou a porta com violência.
— Você ficou louca? — sibilou Rute. — Aquele anel vale mais do que a casa dos seus avós! Helena pode ser dedicada, mas não é burra. Ela já está se perguntando se você está roubando a prataria ou se está se vendendo para algum figurão da cidade.
— Ninguém está roubando nada, mãe! — rebateu Sara, o deslumbre falando mais alto que o medo. — Eu mereço coisas bonitas. Se eles estão desconfiados, é porque não aceitam que uma menina da roça possa ter brilho próprio.
Rute sentiu uma pontada de pânico. Ela sabia exatamente de onde vinha aquele anel. Sabia que Marco estava começando a quebrar as regras de hierarquia que ela mesma havia estabelecido. Marco nunca dera a ela, Rute, um diamante daquela magnitude. O ciúme da mãe começou a competir com o instinto de proteção da cúmplice.
O Veneno de Cassandra
Enquanto isso, no jardim, Cassandra caminhava ao lado de Helena. — Prima, você é bondosa demais. Uma joia daquelas não cai do céu. Se eu fosse você, daria uma olhada no inventário das suas joias pessoais. Às vezes o inimigo não vem de fora, ele dorme debaixo do nosso teto e come na nossa mesa.
Helena parou de caminhar e olhou para a mansão. Pela primeira vez, a fidelidade cega de esposa começou a dar lugar à intuição de mulher traída. Ela não suspeitava de Marco ainda — sua mente não permitia tal heresia — mas via em Sara uma ameaça que precisava ser neutralizada.
O anel, que deveria ser um segredo, tornou-se o centro de um furacão. Marco Aurélio, o mestre das palavras, percebeu que o silêncio de Sara era agora a sua mercadoria mais cara e mais instável.
Capítulo 20 — Sob as Luzes de Paris
O ar frio da capital francesa era o cenário perfeito para Marco Aurélio exercer seu papel mais refinado: o de marido perfeito. Para apagar o rastro de desconfiança que o anel de Sara deixara na mansão, ele não poupou esforços. Levou Helena para um final de semana inesquecível, longe das sombras da fazenda e dos olhares vigilantes de Rute e Sara.
Em Paris, o tempo parecia ter outra textura. Entre taças de champanhe Cristal e jantares à luz de velas com vista para a Torre Eiffel, Marco dedicou cada segundo à esposa. Helena, envolvida pelo charme e pelo vigor renovado do marido, sentia-se novamente a única mulher do mundo. Eles fizeram amor como se estivessem no início do casamento, uma entrega que, para Helena, selava a certeza de que seu marido era um homem íntegro e apaixonado.
O Selo da Confiança
Na última noite, em um restaurante exclusivo na Place Vendôme, Marco tirou do bolso uma pequena caixa de veludo azul. Dentro, um anel de safira cercado por diamantes de uma pureza rara, uma joia que faria qualquer outra parecer um brinquedo.
— Para a mulher que sustenta o meu mundo — disse ele, deslizando a joia no dedo dela. — Que este brilho apague qualquer sombra de dúvida que tenha passado pela sua mente, meu amor. Você é a rainha da minha vida.
Helena chorou de emoção. Aquele gesto era o xeque-mate de Marco. Para ela, era impossível que um homem capaz de tamanha generosidade e carinho estivesse escondendo algo tão sórdido quanto o que Cassandra sugerira. A confiança fora plenamente restaurada.
O Suborno do Silêncio
No entanto, enquanto Helena dormia o sono dos justos, Marco Aurélio retornou à joalheria na manhã seguinte, antes do voo de volta. O cinismo do escritor falava mais alto que o romantismo do marido.
Ele comprou um segundo anel. Era quase idêntico ao de Helena, com a mesma estrutura de ouro, mas com uma esmeralda no lugar da safira. Marco sabia que Rute voltara de Santos ferida e desconfiada. Ela vira o diamante de Sara e percebera a preferência de Marco pela juventude da filha. A esmeralda não era um presente de amor; era um pagamento. Era a garantia de que Rute continuaria sendo sua cúmplice e sua administradora, mantendo a estrutura da mansão de pé enquanto ele se perdia nos braços de Sara.
O Retorno ao Brasil
Ao pisarem no solo brasileiro, o contraste foi imediato. Helena exibia o brilho das safiras e a pele renovada pelo descanso, caminhando com a segurança de quem venceu uma batalha invisível.
Marco levava na mala o segredo de esmeralda. Ele sabia que precisava entregar o presente a Rute antes que ela e Sara tivessem tempo de trocar mais venenos. O jogo de Marco agora era equilibrar três anéis: a safira da esposa, o diamante da paixão e a esmeralda da cumplicidade.
Ao chegarem à mansão, Rute os aguardava no hall, com a expressão gélida de sempre. Marco apenas trocou um olhar rápido com ela, um sinal de que "as contas seriam ajustadas" em breve. Sara, ao fundo, observava o colar e o anel novos de Helena com um ódio que nem o luxo de Paris conseguiria aplacar.
O banquete estava servido, mas o gosto do champanhe começava a se misturar ao amargor da traição iminente.
Capítulo 21 — O Triângulo das Pedras Preciosas
A mansão ainda ecoava os relatos de Paris quando Marco Aurélio decidiu mover a próxima peça. Ele era um homem que não deixava frestas: se Helena tinha a segurança e Sara tinha o desejo, Rute precisava ter a garantia de que ainda era a sua maior aliada.
O Abraço da Traição
Antes de partir, Marco encontrou Sara no corredor escuro que levava à biblioteca. Ela estava com o olhar nublado de ciúme, pronta para explodir por causa da viagem dele com a esposa. Sem dar tempo para discussões, Marco puxou-a contra o peito num abraço possessivo, sentindo a resistência da jovem desmoronar contra seu corpo.
— Senti sua falta em cada segundo daquela viagem, Sara — sussurrou ele, aspirando o perfume da juventude dela. — Paris é apenas um cenário morto. Você é o que me faz querer voltar.
Ele deixou-a ali, deslumbrada e convencida de que era a verdadeira dona do seu coração, enquanto subia para dar o xeque-mate em Helena.
A Estratégia do Cansaço
Na sala de estar, Marco encenou sua fadiga com a perfeição de um ator premiado. — Helena, querida, surgiu uma urgência bancária na capital. Gostaria muito que viesse comigo, mas sei como Paris a deixou exausta. A viagem foi longa... seria um sacrifício levá-la para enfrentar reuniões chatas.
Helena, tocando a nova safira no dedo e sentindo-se a mulher mais amada do mundo, sorriu com ternura. — Você tem razão, Marco. Vá você, meu amor. Resolva tudo com calma.
— Sendo assim — continuou ele —, levo a Rute. Ela conhece os contratos de trás para a frente.
O Suborno de Esmeralda
Já na estrada, o silêncio no carro era cortante. Rute olhava para a paisagem com a frieza de quem sabia que estava sendo usada como um escudo. Sem desviar os olhos do caminho, Marco entregou-lhe a caixa com a esmeralda.
— Este é para a mulher que realmente sustenta este império — disse ele.
Rute deslizou o anel para o dedo, sentindo o peso do metal. — Você está comprando meu silêncio ou pagando pela minha paciência, Marco? — perguntou ela, com a voz desprovida de emoção.
— Estou garantindo que o nosso pacto continue inabalável — respondeu ele.
A Carne da Memória: No Hotel
Ao chegarem ao hotel de luxo na capital, a atmosfera profissional que sustentaram durante a viagem dissolveu-se assim que a porta da suíte se fechou. Não havia mais papéis, fazendas ou nomes de família entre eles.
Rute retirou o casaco com a elegância de quem domina o ambiente, e Marco a observou pelo espelho. Havia algo na maturidade de Rute, na forma como ela conhecia cada fraqueza dele, que a tornava insubstituível. Ele se aproximou, e o toque inicial não foi de urgência, mas de reconhecimento.
O que se seguiu foi um encontro denso, quase ritualístico. Como um escritor que esculpe frases perfeitas, Marco explorou a familiaridade do corpo de Rute, enquanto ela se entregava com uma entrega que misturava poder e rendição. O sexo entre eles era como arte: construído com ritmos que apenas anos de cumplicidade poderiam ditar. Não havia a pressa desesperada que ele tinha com Sara, mas uma profundidade quase devocional.
Em cada movimento, eles reafirmavam o pacto que os unia. Era uma paixão que se alimentava do perigo e do segredo compartilhado. Naquela suíte, Marco não era o patrão e ela não era a funcionária; eram dois cúmplices que celebravam a própria sobrevivência através do prazer. Rute, com a esmeralda brilhando em sua mão enquanto tocava o rosto de Marco, sentia que, apesar de tudo, ela era o alicerce que impedia aquele homem de desmoronar.
Ao final, deitados sob os lençóis caros, o silêncio era preenchido apenas pela respiração pesada. Marco olhou para o teto, sabendo que tinha agora três mulheres marcadas por suas joias e seus toques. O jogo nunca fora tão prazeroso, nem tão perigoso.
Capítulo 22 — A Semente da Discórdia
Enquanto na capital Marco e Rute celebravam sua cumplicidade entre lençóis e esmeraldas, na mansão o silêncio era interrompido apenas pelo som rítmico da chuva nas vidraças. Helena tentava se concentrar em seu bordado, mas a joia de safira em seu dedo parecia pesar mais do que o normal naquela noite.
Cassandra, instalada em uma poltrona próxima com um livro que mal lia, observava a prima com um olhar felino. Ela sabia que a segurança de Helena era uma fachada frágil, construída sobre anos de negação e uma lealdade que beirava a cegueira.
O Veneno em Doses Homeopáticas
— Você não acha curioso, prima? — começou Cassandra, quebrando o silêncio com uma voz aveludada e carregada de segundas intenções. — Como a Rute é sempre a "única" capaz de resolver esses problemas na capital? Uma mulher tão eficiente... e tão indispensável para o seu marido.
Helena não ergueu os olhos do trabalho, mas suas mãos hesitaram por um milésimo de segundo. — Rute está conosco há muitos anos, Cassandra. Ela é o braço direito do Marco nos negócios. É uma relação de extrema confiança técnica.
— Confiança é uma palavra perigosa, Helena — Cassandra levantou-se e caminhou até a janela, observando o jardim encharcado. — Na cidade, dizemos que quando um homem não consegue respirar sem o auxílio de uma mulher que não é a sua esposa, ele já não pertence totalmente à casa. Você viu como eles saíram? Havia uma pressa... uma sintonia entre eles que não parecia apenas profissional.
Helena sentiu uma pontada no peito, mas manteve a voz firme, quase mecânica. — Marco me ama. Paris foi a prova viva disso. Veja este anel.
— Paris foi uma vitrine, querida. Lindas joias, belas promessas. Mas a vida real acontece nos bastidores, onde não há luzes artificiais. — Cassandra aproximou-se e tocou o ombro de Helena, baixando o tom de voz. — Já reparou que Rute nunca se casou? Nunca teve outro interesse que não fosse esta fazenda... e o dono dela?
O Teste do Telefone
As palavras de Cassandra ficaram flutuando no ar, corroendo a paz de Helena. Mais tarde, no final da noite, a dúvida tornou-se uma brasa insuportável. Helena decidiu ligar para o celular de Marco. Ela queria apenas ouvir sua voz, mas, no fundo, queria confirmar o ambiente onde ele estava.
O celular chamou três, quatro vezes, até cair na caixa postal. O coração de Helena começou a acelerar. Ela então tentou o ramal da suíte do hotel. Quem atendeu não foi o marido.
— Alô? — a voz de Rute soou do outro lado, calma, mas com uma leve respiração ofegante que o ouvido atento de Helena captou como um golpe.
O mundo de Helena pareceu girar. — Rute? O que faz no quarto do meu marido a esta hora? São quase onze da noite.
Houve um segundo de silêncio absoluto do outro lado — o tempo exato para Rute recompor sua máscara de ferro. — Helena? O Marco está no banho agora. Estávamos revisando os últimos contratos de exportação antes de descansar, para ganharmos tempo na reunião de amanhã cedo. Você sabe como ele é exigente com os detalhes técnicos. Quer que eu peça para ele retornar assim que sair?
O Despertar da Suspeita
Helena desligou sem responder. Suas mãos tremiam tanto que ela quase derrubou o aparelho. "Revisando contratos no quarto?". A explicação de Rute era logicamente impecável para uma administradora, mas emocionalmente devastadora para uma esposa.
Ao sair do quarto, Helena encontrou Sara no corredor. A jovem parecia perdida em seus próprios pensamentos, mas ao ver a patroa, tentou esconder a mão — a mão onde brilhava o anel de diamante que ela insistia em dizer que fora fruto de suas economias.
Helena olhou para Sara e, pela primeira vez, não viu apenas uma funcionária dedicada. Viu um espelho de Rute. Viu a mesma beleza crua, a mesma audácia nos olhos.
Cassandra, observando a cena da penumbra da escada, sorriu para si mesma. A semente da discórdia não fora apenas plantada; ela já estava rompendo a terra. Helena agora olhava para aquelas mulheres e começava a perceber que a mansão estava cheia de segredos que o ouro de Marco Aurélio já não conseguia mais esconder.
Capítulo 23 — O Espelho d’Água
Após chegar de viagem na madrugada Marco Aurélio estava desperto, sentado à escrivaninha do escritório, com um copo de uísque esquecido ao lado de páginas em branco. Pela primeira vez em muito tempo, as palavras se recusavam a obedecer. Não era bloqueio criativo — era algo mais incômodo.
Ele pensava.
Pensava demais.
O reflexo no vidro escuro da janela devolvia-lhe um homem que ele conhecia bem, mas nunca questionara de verdade. Bem-sucedido. Desejado. Dono de tudo e de todos. Mas, naquela noite silenciosa, a pergunta veio como um sussurro corrosivo:
— Será que eu sou um narcisista?
A palavra o incomodava. Não por desconhecimento, mas porque tocava em algo verdadeiro demais. Ele não amava mulheres — amava o que elas refletiam dele. A devoção de Helena. A admiração crua de Sara. A cumplicidade estratégica de Rute. Até o olhar vigilante de Cassandra alimentava seu ego.
Seu desejo nunca fora apenas carnal. Era poder.
Com um gesto brusco, fechou o caderno e decidiu sair. Precisava de ar. Precisava fugir de si mesmo.
O Conselho do Silêncio
No pátio lateral, encontrou o senhor Alberto encostado no carro, como se sempre soubesse quando seria necessário estar ali. O motorista, homem de poucas palavras e olhar honesto, tirou o boné em sinal de respeito.
— Não consegue dormir, doutor Marco?
Marco hesitou. Nunca falara da própria vida com funcionários. Mas Alberto não era “apenas” um funcionário. Era um homem inteiro. Casado com Mabel há décadas. Leal. Simples. Imune aos jogos da mansão.
— Alberto… — Marco respirou fundo. — O senhor já sentiu que tem tudo… e mesmo assim está sempre com fome?
O motorista pensou antes de responder. Como sempre.
— Doutor… fome não é o problema. O problema é confundir fome com vazio.
Marco sentiu o golpe.
— E quando a gente machuca quem não merece?
Alberto baixou os olhos. — A gente se acostuma a pedir desculpa em pensamento… e nunca muda o caminho.
O silêncio entre eles foi mais eloquente que qualquer sermão.
— Vá descansar, doutor — concluiu Alberto. — Algumas decisões não gostam de ser tomadas à noite.
Marco assentiu, agradecido. Mas o descanso não veio.
A Água como Confissão
O calor da noite o empurrou até a piscina. Tirou a camisa, depois o resto das roupas, e entrou na água como quem busca absolvição. Nadava devagar, sentindo o corpo cansado e a mente inquieta.
Foi então que ouviu passos.
Sara surgiu à beira da piscina como uma aparição. Não usava nada além da própria ousadia. A lua desenhava curvas sobre sua pele jovem, e o sorriso que ela trazia não era de pedido — era de posse.
— Ela não vai acordar — disse, com naturalidade venenosa. — Dei algo leve. Maracujá, ervas… coisa de vó. A patroa precisava descansar.
Marco franziu o cenho. — O que você fez, Sara?
— Cuidei dela… como cuido de você.
Antes que ele pudesse responder, ela entrou na água. Nua. Lenta. Segura. A piscina, que até então fora refúgio, transformou-se em palco.
Ela se aproximou, tocou-lhe o peito. — Eu pensei que você estaria no escritório… mas te encontrei aqui. Melhor ainda.
Marco sabia que deveria sair. Sabia que algo estava errado. Mas o espelho d’água devolvia-lhe uma imagem poderosa demais para ser recusada.
A culpa perdeu para o desejo.
Os corpos se encontraram em silêncio, interrompido apenas pelo som da água. Não havia pressa, apenas a sensação perigosa de inevitabilidade. Sara o envolvia como quem reivindica território. Marco, por sua vez, deixava-se levar, anestesiando a consciência com pele e calor.
O Olhar que Tudo Vê
No quarto de hóspedes, Cassandra não dormia.
A janela aberta lhe ofereceu o espetáculo inteiro. O brilho da piscina. Os corpos entrelaçados. A traição escancarada sob a lua.
Seu corpo reagiu antes da mente.
Ela observava sem piscar, sentindo um prazer torto, quase cruel, crescer em silêncio. Não era desejo por Marco — era satisfação por testemunhar a ruína. Cada movimento na água confirmava suas suspeitas, alimentava sua estratégia.
Com a respiração contida, Cassandra se tocava, não pela cena em si, mas pelo poder que ela agora possuía.
— Eu vi, pensou.
— E quem vê… governa.
O Eco da Culpa
Quando tudo terminou, Marco permaneceu na piscina, sozinho. Sara saiu sem dizer palavra, certa de sua vitória momentânea.
A água já não purificava.
A pergunta retornou, mais alta:
— Narcisista… ou covarde?
Dentro da mansão, Helena dormia sob um sono que não escolhera. Rute acreditava controlar o jogo. Sara se sentia rainha. Cassandra, espectadora silenciosa, tornava-se a juíza.
E Marco Aurélio, cercado por todos, começava finalmente a entender:
o maior inimigo daquele império não era uma mulher.
Era ele mesmo.
Capítulo 24 — O Gosto Amargo do Arrependimento
A manhã na fazenda nasceu com um sol pálido, insuficiente para dissipar a névoa que pairava sobre os cafezais. Dentro da mansão, o aroma era irresistível: Dona Mabel, com sua maestria habitual, havia preparado um banquete para o desjejum. Havia bolos de fubá fumegantes, pães de queijo crocantes e geleias artesanais feitas com as frutas do pomar. No centro da mesa, o café colhido na própria terra exalava um perfume que, em dias normais, seria o orgulho de Marco Aurélio.
Mas o paladar de Helena estava anestesiado.
A Explicação de Vidro
Marco Aurélio desceu as escadas exibindo uma tranquilidade que beirava o cinismo. Helena o esperava na cabeceira, a safira no dedo refletindo a luz da manhã de forma fria.
— Marco, precisamos terminar a conversa de ontem. — A voz dela estava embargada pelo resto de sonolência do chá de Sara. — Rute atendeu seu telefone no quarto do hotel. Às onze da noite.
Marco serviu-se de uma xícara de café, sem tremer as mãos. Deu um gole lento antes de olhar nos olhos da esposa.
— Meu amor, eu lamento que aquele mal-entendido tenha tirado seu sono — disse ele, com uma suavidade paternal. — Eu estava saindo do banho e precisava usar o banheiro novamente, uma indisposição leve da viagem. Rute bateu à porta para me entregar os relatórios finais que precisavam de assinatura urgente. Como eu não podia atender naquele exato segundo, pedi que ela entrasse e aguardasse na poltrona da sala de estar da suíte. O telefone tocou ao lado dela. Ela apenas foi solícita.
Helena o observou, buscando uma falha. — No quarto, Marco?
— Foi uma questão de segundos, Helena. A Rute é como uma extensão da minha mesa de escritório. Não há gênero ali, apenas números. Você realmente acha que, depois de tudo o que vivemos em Paris, eu teria olhos para relatórios... ou para qualquer outra coisa que não fosse você?
A explicação era frágil como vidro, mas Helena, desesperada por paz, escolheu acreditar. Ela forçou um sorriso e aceitou o pedaço de bolo de Mabel, embora o gosto parecesse cinza em sua boca.
O Confronto no Escritório
Após o café, Marco retirou-se para o escritório. Ele precisava de silêncio para organizar o caos que sua vida se tornara. No entanto, a porta se abriu sem bater. Cassandra entrou, fechando-a com um clique seco e virando a chave.
Ela não trazia papéis para a edição do novo livro, nem relatórios sobre a lavoura de café onde começara a trabalhar. Trazia no rosto o sorriso de quem tem o mundo nas mãos.
— A lavoura está indo bem, Marco. Mas a vida noturna desta fazenda... ah, essa é muito mais produtiva — começou ela, sentando-se na borda da mesa dele, invadindo seu espaço pessoal.
— O que você quer, Cassandra? Tenho muito trabalho.
— Eu vi você, Marco. Ontem à noite. Na piscina. — O olhar dela brilhou com uma malícia cortante. — Vi a "pequena Sara" se oferecendo como um sacrifício no altar do seu ego. E vi você aceitando com muito gosto.
O rosto de Marco empalideceu por um instante, antes de se transformar em uma máscara de fúria contida. — Você está delirando.
— Não tente usar comigo o truque que usou com a Helena no café da manhã. Eu não sou sua esposa apaixonada. Eu sou sua editora, sua funcionária... e agora, sua sócia no silêncio. — Ela inclinou-se para frente. — Quero um aumento substancial no meu salário. Afinal, cuidar dos seus negócios e dos seus segredos exige muito mais esforço.
Marco apertou o braço da cadeira. — Isso é chantagem.
— Chame do que quiser. Eu chamo de "reajuste de mercado". E tem mais: na próxima viagem à capital, Rute fica. Eu vou com você. Quero conhecer os restaurantes de que Helena tanto fala. E quero presentes, Marco. Pedras tão bonitas quanto as que você distribui por aí. Caso contrário... Helena descobrirá que o "maracujá" da noite passada tinha um gosto bem mais amargo do que ela imagina.
O Xeque-Mate
Marco Aurélio olhou para a prima da esposa e percebeu que, em sua busca por domínio, ele atraíra uma tubarão para o seu aquário. Cassandra não queria amor, nem lealdade; ela queria o espólio.
— Você é mais perigosa do que eu imaginei — murmurou ele.
— Eu sou apenas uma boa aluna do seu próprio livro, Marco — respondeu ela, levantando-se e caminhando até a porta. — Prepare o contrato do aumento. E escolha bem a cor da minha pedra. Eu prefiro rubis. Combinam com o sangue que vai correr se você me desapontar.
Ela saiu, deixando-o sozinho com o silêncio ensurdecedor de seu império de papel.
Capítulo 25 — O Sal da Terra
Enquanto o sol começava a baixar, tingindo os cafezais de um laranja profundo, a pequena casa no limite do jardim principal exalava um conforto que a mansão desconhecia. Era a casa de Dona Mabel e Senhor Alberto. Ali, as paredes não guardavam segredos sórdidos, apenas o cheiro de manjericão fresco e o som do rádio de pilha tocando uma música antiga.
Mabel estava sentada à mesa, descascando legumes com uma agilidade que só décadas de prática conferem. Alberto, que acabara de engraxar os sapatos de Marco Aurélio para o dia seguinte, sentou-se à sua frente, soltando um suspiro cansado que parecia vir da alma.
O Peso do Silêncio
— O café de hoje de manhã estava com gosto de tempestade, Mabel — disse Alberto, aceitando a caneca de café que a esposa lhe estendeu.
Mabel parou a faca por um segundo, olhando para o vazio. — Eu senti, velho. A Dona Helena nem tocou no meu bolo de milho. Ela estava com aquele olhar de quem vê assombração em plena luz do dia. E a tal da prima... aquela Cassandra... tem veneno no sorriso.
Alberto balançou a cabeça negativamente. — O patrão está perdendo o freio. Ontem à noite, no pátio, ele me perguntou coisas... parecia um homem perdido no próprio labirinto. Mas hoje cedo, no escritório, a cara já era outra. Uma máscara de ferro.
A Filosofia de Quem Serve
Mabel suspirou, voltando ao trabalho. Eles amavam trabalhar ali; Marco Aurélio sempre foi um patrão generoso financeiramente, e Helena era a doçura em pessoa. Mas o ambiente estava ficando pesado, carregado de uma eletricidade que precedia o raio.
— A gente faz o que sabe fazer, Alberto — murmurou Mabel. — Eu cozinho, ponho o sal no ponto, o açúcar na medida. Você dirige, mantém os carros brilhando e o motor regulado. A gente vê o brilho daquelas joias novas passando pela cozinha e sabe que cada pedra daquelas é um cala-boca.
— O diamante da menina Sara, a safira da patroa, agora a esmeralda da Rute... — Alberto contou nos dedos. — É pedra demais para pouco telhado, Mabel.
— E a gente? — perguntou ela, com um sorriso triste. — A gente finge que não viu a Sara saindo da piscina de madrugada. Finge que não ouviu o choro da patroa no corredor. O segredo de uma vida boa aqui é saber o que esquecer.
A Lealdade Dividida
Alberto olhou para as mãos calejadas. Ele sentia uma lealdade profunda por Marco, mas seu coração doía por Helena.
— O problema, Mabel, é que o Sr. Marco Aurélio acha que o mundo é um livro que ele escreve e apaga quando quer. Mas a vida não tem borracha. E essa moça, a Cassandra... ela não é como a Sara, que quer o homem. Ela quer o império. Eu vi o jeito que ela olhou para o escritório hoje. Ela não quer limpar a mesa, ela quer sentar na cadeira.
Mabel limpou as mãos no avental e segurou a mão do marido. — Que Deus proteja a Dona Helena. Porque, quando esse castelo de cartas cair, vai sobrar poeira para todo lado. E a nossa parte é garantir que, pelo menos, a comida continue quente e o carro com o tanque cheio para quando alguém precisar fugir.
Naquela noite, na casinha simples, o sono de Alberto e Mabel foi tranquilo, ao contrário do sono inquieto que habitava as camas de carvalho da mansão. Eles eram o sal da terra: simples, essenciais e, acima de tudo, conscientes de que o silêncio é o escudo dos sábios.
Capítulo 26 — O Abismo sob os Lençóis de Seda
A viagem de Marco Aurélio à capital, sob o pretexto de negócios, levava consigo um passageiro inesperado: a traição familiar. Helena, em sua cegueira bondosa, acreditava que enviar sua prima Cassandra seria a garantia de que Marco se manteria nos trilhos. Mal sabia ela que estava entregando o lobo à alcateia.
A Inversão de Poder na Suíte
No hotel de luxo, a atmosfera era de uma tensão elétrica. Assim que as portas da suíte se fecharam, o verniz de "primos" desapareceu. Cassandra não esperou por convites. Enquanto Marco tentava se concentrar em documentos, ela o cercou.
O embate começou com um beijo agressivo, carregado de um domínio que Marco não estava acostumado a enfrentar. Cassandra o empurrou contra a parede de carvalho. Suas mãos desceram rápidas, desfazendo o cinto dele. Com uma audácia predatória, ela se ajoelhou e, usando os dentes, prendeu o tecido da camisa de Marco, puxando-a para fora das calças com força, expondo a pele dele ao ar frio do ar-condicionado.
— Hoje você não dita as regras, Marco — sussurrou ela, antes de forçá-lo a tirar o restante da roupa.
O que se seguiu foi uma cena de entrega absoluta e selvagem. Cassandra o dominou na cama, explorando o corpo do escritor com uma intensidade que beirava a crueldade. Marco, o homem que sempre teve o controle de três mulheres, viu-se reduzido a um objeto de prazer nas mãos da prima da esposa. O sexo foi uma batalha de fôlegos curtos e unhas marcando as costas, um prazer proibido que deixou Marco em um estado de colapso mental: ele agora carregava o peso de trair Helena, a confiança de Rute e o desejo de Sara, tudo em uma única noite de luxúria com Cassandra.
O Retorno à Mansão: Máscaras e Mentiras
Ao voltarem para a fazenda, Marco Aurélio reassumiu sua máscara de mármore. Cassandra desceu do carro com um colar novo e o olhar de quem agora era a dona do jogo. Helena os recebeu com abraços, agradecendo à prima por "cuidar" de seu marido.
O Conflito com a Cúmplice: A Volta de Rute
No final da tarde, Rute retornou da casa de seus pais. Ao pisar na mansão, o faro da administradora de 45 anos detectou o cheiro da mudança. Ela encontrou Marco no escritório, os olhos gélidos.
— Você viajou com ela — disse Rute, a voz baixa e perigosa. — Eu saio por alguns dias e você coloca uma estranha na nossa cama de negócios? Eu sou o seu alicerce, Marco. Eu sou quem limpa o seu rastro há anos.
Marco se aproximou, sentindo a fúria da mulher que o conhecia como ninguém. Ele a envolveu pela cintura, apertando-a contra si, e usou a arma definitiva: — Rute... você sabe que Cassandra foi apenas uma peça no tabuleiro para enganar a Helena. Mas você... — ele sussurrou no ouvido dela, fazendo-a estremecer. — Eu nunca disse isso, mas eu amo você. Você é a única que realmente possui a minha alma.
Rute, a mulher de ferro, derreteu-se. O "eu amo você" de Marco foi o suborno que ela esperou a vida inteira para ouvir.
A Paixão de Sara: O Brilho nos Olhos da Juventude
Mais tarde, foi a vez de Sara. A jovem copeira de 20 anos entrou no escritório para recolher as xícaras de café. Assim que a porta se fechou, ela largou a bandeja e se jogou nos braços do patrão.
— Eu morri de ciúmes, Marco! — disse ela, beijando-o com a urgência de quem não conhece limites. — Eu limpo esta casa, eu sirvo a sua comida, mas é no seu corpo que eu quero estar. Por que levou aquela mulher e não a mim?
Marco a pegou no colo, sentando-a na mesa de carvalho entre os livros. — Sara, minha menina... Cassandra é apenas um mal necessário. Nenhuma mulher nesta casa tem o seu fogo, a sua juventude. Você é o meu segredo mais doce.
Ele a possuiu ali mesmo, sobre a mesa de trabalho, em uma cena de paixão desenfreada que calou as dúvidas da jovem. Sara entregou-se com a devoção de quem acredita ser a única, sem saber que o "eu amo você" que Marco dissera à sua mãe, Rute, ainda ecoava nas paredes da biblioteca.
Marco Aurélio estava no centro de um furacão. Ele agora equilibrava quatro mulheres sob o mesmo teto, cada uma alimentada por uma mentira diferente, enquanto o título do romance — Amor, Traição e Paixão — escrevia-se sozinho no suor e no sangue daqueles encontros.
Capítulo 27 — Território em Chamas
A manhã na mansão começou com um tilintar de cristais mais seco que o habitual. Sara, com seu uniforme impecável de copeira, servia o café com uma agilidade nervosa. Seus olhos de 20 anos, antes brilhantes pela noite de paixão na mesa do escritório, agora buscavam respostas no rosto da mãe.
O Embate das Rainhas
O conflito estourou na sala de jantar. Rute estava com os livros de contabilidade abertos, sua postura de 45 anos emanando uma autoridade que o tempo esculpira. Cassandra, porém, desceu as escadas usando um vestido de linho caro e segurando uma pasta de couro.
— Rute, querida, Marco me pediu para revisar os contratos de exportação desta safra — disse Cassandra, com um sorriso que não chegava aos olhos. — Ele acha que sua visão "tradicional" pode estar deixando passar alguns lucros na capital.
Rute não levantou a cabeça imediatamente. Ela terminou de anotar um número, fechou a caneta-tinteiro e só então olhou para a prima de Helena.
— Esta fazenda não é a capital, Cassandra. Aqui, o lucro nasce da terra, não de conversas em hotéis de luxo. Marco confia em mim há duas décadas porque eu sei onde cada semente é plantada. Você é apenas uma visita que se demorou demais.
— Uma visita que agora tem as chaves do escritório... e outras chaves que você nem imagina — retrucou Cassandra, aproximando-se da mesa e apoiando as mãos sobre os livros de Rute.
O silêncio que se seguiu foi cortante. Rute sentiu o golpe. Ela sabia que Marco a "amava", mas ver Cassandra tentando usurpar seu lugar de administradora era uma declaração de guerra.
A Desconfiança de Sara
No canto da sala, fingindo limpar o aparador de prata, Sara observava a mãe. O modo como Rute defendia aquele território não parecia apenas o de uma funcionária zelosa. Sara notou o olhar que Rute lançou para a porta do escritório de Marco — um olhar de posse, de dor, de quem compartilha um segredo muito mais profundo do que balanços financeiros.
"Por que ela olha para ele assim?", pensou Sara, sentindo uma pontada de frio no estômago. "Minha mãe sempre disse que Marco era apenas o patrão... mas ela o defende como se ele fosse o seu mundo. Será que o amor que ele me prometeu ontem à noite é o mesmo que ele usa para manter minha mãe fiel a ele?"
Na Cozinha: O Veredito de Mabel e Alberto
Enquanto isso, na cozinha, o clima era de velório. Dona Mabel batia uma massa de pão com mais força do que o necessário, enquanto Alberto bebia um café forte, encostado no batente da porta.
— Você viu a cara da Rute hoje, Alberto? — sussurrou Mabel. — Ela está com os olhos de uma loba que viu outra chegar perto do filhote.
— O problema não é a loba, Mabel. É o rastro que o patrão está deixando. — Alberto balançou a cabeça. — A Sara está no meio disso tudo, servindo café e colhendo espinhos. Aquela menina é nova demais para entender que está pisando em areia movediça. A Rute acha que manda na fazenda, a Cassandra acha que manda no patrão, e a Sara... a Sara acha que manda no coração dele.
— E no final, ninguém manda em nada — concluiu Mabel, colocando a massa no forno. — Quando o segredo daquela viagem à capital feder mais do que ovo podre, não vai ter perfume francês que dê jeito nesta casa.
O Xeque-Mate de Rute
De volta à sala, Rute levantou-se lentamente. Ela se aproximou de Cassandra, ficando a poucos centímetros do rosto da rival.
— Você pode ter o ouvido dele na capital, Cassandra. Mas eu tenho a vida dele nas minhas mãos aqui. Experimente cruzar a linha da minha administração novamente e eu farei questão de mostrar à Helena exatamente o que você foi fazer naquele hotel.
Cassandra empalideceu por um segundo, mas logo recuperou a compostura. O jogo de poder acabara de subir de nível. E Marco Aurélio, escondido atrás da porta do escritório, ouvia tudo com um sorriso doentio, deliciando-se com o caos que sua luxúria criara.
Capítulo 28 — A Fome do Lobo e a Semente do Destino
A noite na mansão era um palco onde Marco Aurélio dirigia sua peça mais perversa. Ele não era apenas um homem; era uma força da natureza movida por uma fome que o luxo não saciava e que o perigo apenas instigava.
O Altar de Helena
Tudo começou no santuário de Helena. Aos 46 anos, ela emanava uma aura de elegância e uma beleza madura que nenhuma joia de Paris poderia ofuscar. Marco, o mestre da dissimulação, dedicou-se a ela com uma entrega voraz. Ele a explorou com beijos lentos e precisos, levando-a ao êxtase através de um sexo oral profundo e dedicado, focado apenas em sugar cada gota do prazer dela.
Enquanto Helena se recuperava, ainda ofegante e com os olhos semicerrados pelo torpor do gozo, Marco sussurrou em seu ouvido, a voz carregada de uma falsa ternura: — Meu amor, descanse. Eu preciso sair para uma montaria logo cedo, antes do sol nascer, para verificar as cercas novas nos arredores. Não quero te acordar com o barulho, então já vou me organizar para sair daqui a pouco.
Helena, completamente exausta e flutuando em uma nuvem de endorfina, apenas assentiu, mergulhando em um sono pesado e restaurador. Para ela, o tempo e o espaço deixaram de existir. O álibi estava selado.
O Corredor dos Pecados: A Entrega de Rute
Marco cobriu a esposa com o lençol de seda e, como um fantasma, deixou o quarto. Sua noite estava longe de terminar.
No segundo andar, em uma das salas de serviço silenciosas, ele encontrou Rute. Ela parecia estar à espera, como se o instinto da mulher de 45 anos soubesse que ele passaria por ali. Sem trocar uma única palavra, ele a prensou contra a mesa de passar, erguendo sua saia com uma urgência técnica. Foi uma "rapidinha" brutal, carregada de uma história de décadas de silêncios compartilhados. Rute recebia aquele vigor como a reafirmação de que, apesar de tudo, ela ainda era o seu porto seguro. Marco a possuiu com a força de quem marca território, deixando-a trêmula e ofegante antes de desaparecer novamente nas sombras do corredor.
Ele evitou o andar de Cassandra. A prima de Helena era um problema que ele pretendia ignorar por aquela noite; a agressividade dela no hotel ainda ecoava em sua mente como um aviso de perigo.
O Refúgio de Sara: A Semente da Discórdia
A última parada foi o quarto de Sara. A jovem de 20 anos despertou com o calor de Marco invadindo seus lençóis. Sara era o seu frescor, o seu descanso, mas também a sua paixão mais inconsequente.
— Marco? — sussurrou ela, abraçando-o com a devoção de quem acredita em cada mentira.
O encontro foi intenso, movido pela adrenalina das outras mulheres e pelo desejo cru que Sara despertava. Naquele momento, entre carícias fervorosas e a entrega total da jovem, Marco Aurélio foi negligente. Pela primeira vez em anos de controle absoluto, ele deixou a guarda baixar. No ápice daquela relação apaixonada, sem proteção ou cautela, a semente foi plantada. Sara concebeu ali, no silêncio da madrugada, o herdeiro que Marco nunca planejara e que mudaria para sempre a hierarquia daquela mansão.
Exausto, mas ainda sob o efeito da conquista, Marco não saiu para a montaria imediatamente. Ele buscou conforto no corpo da moça. Deitou a cabeça entre os seios fartos e firmes de Sara, sentindo o batimento rítmico da juventude dela contra seu rosto. Ali, abraçado à amante que agora carregava o seu futuro no ventre, o lobo finalmente fechou os olhos.
Ele dormia o sono dos vitoriosos, sem remorso, enquanto em quartos diferentes, três mulheres sonhavam com o mesmo homem, sem saber que a vida de todas acabara de ser irremediavelmente transformada.
Capítulo 29 — O Peso da Herança
O sol começou a despontar sobre os cafezais, trazendo uma luz dourada que denunciava cada rastro da noite anterior. Marco Aurélio acordou com um solavanco nos braços de Sara. O calor do corpo da jovem de 20 anos e o conforto de seus seios eram tentadores, mas o relógio era seu inimigo mais implacável.
A Fuga do Predador
Sem despertar a moça, ele se vestiu às pressas. O cansaço físico era uma lousa pesada em seus ombros; passar por três camas em uma única noite exigira mais do que seu vigor de escritor podia suportar. Ele saiu do quarto de Sara como uma sombra, cruzando o pátio em direção aos estábulos.
Lá, encontrou Alberto preparando os cavalos. O motorista e fiel escudeiro olhou para o patrão com uma sobrancelha erguida. Ele notou as olheiras profundas de Marco e o jeito que ele evitava o olhar direto. — O senhor parece que não descansou, Doutor Marco — comentou Alberto, ajustando a sela. — A montaria de hoje vai ser longa? — Apenas o necessário, Alberto. Preciso de ar puro — respondeu Marco, montando com dificuldade, sentindo cada músculo protestar.
O Café da Manhã e a Chegada de Arthur
Horas depois, a mesa do café da manhã estava posta com o capricho de Dona Mabel. Helena desceu radiante, a pele ainda viçosa pelo prazer que Marco lhe proporcionara. Ela se sentou ao lado de Cassandra, que mantinha um silêncio cortante, observando a entrada de Marco, que chegava da "montaria" suado e exausto.
— Querido, você se esforça demais — disse Helena, servindo-lhe o café. — Mas tenho uma notícia que vai te dar energias novas. Acabei de falar com Arthur.
O nome do filho fez Marco empertigar-se na cadeira. Arthur era o seu orgulho, mas também o seu espelho. Morando na capital com a namorada, Carine, o rapaz levava a vida de liberdade que Marco sempre financiou, mantendo-o longe o suficiente para não interferir em seus jogos.
— Ele vem para o Natal, Marco! — continuou Helena, os olhos brilhando. — E disse que Carine vem junto. Já mandei Mabel preparar o quarto da ala leste para eles. Faz tanto tempo que não vemos nosso menino... sinto que este Natal será diferente.
O Mal-estar no Ar
Do outro lado da mesa, Sara servia as frutas com as mãos levemente trêmulas. Ao ouvir o nome de Arthur, ela sentiu uma pontada estranha no ventre. Não era fome, nem medo. Era uma náusea súbita que a fez empalidecer.
Rute, que observava tudo da ponta da mesa, notou o gesto da filha de levar a mão à boca e a rapidez com que Sara se retirou para a cozinha. O instinto de mãe e cúmplice de Rute disparou um alerta vermelho. Ela olhou para Marco, que evitava qualquer contato visual, concentrado demais em seu prato.
A Ameaça de Cassandra
Cassandra, percebendo que Marco a ignorara durante toda a noite e manhã, inclinou-se na direção dele enquanto Helena se distraía com os planos para a ceia. — Arthur vem aí, Marco? Que adorável. Espero que o seu filho não tenha herdado o seu hábito de... cavalgar por terras proibidas durante a madrugada. Seria uma pena se o clima festivo fosse estragado por certas revelações.
Marco apertou o talher com força. A rede estava se fechando. Com o filho e a nora a caminho, a presença agressiva de Cassandra, o silêncio de Rute e, agora, a palidez estranha de Sara, o império de Marco Aurélio começava a tremer sob o peso de seus próprios segredos.
Capítulo 30 — Preparativos e Presságios
O mês de dezembro trouxe consigo o calor úmido das chuvas de verão e a agitação dos preparativos para o Natal. Na mansão, a árvore de cinco metros já dominava o hall de entrada, decorada com cristais e laços de veludo. Mas, por trás da fachada festiva, a semente da discórdia começava a brotar.
A Ordem de Helena
Helena estava em êxtase. A chegada de seu único filho, Arthur, era o evento que ela esperava para selar a paz na família. Naquela manhã, ela encontrou Sara terminando de polir as pratas da sala de jantar.
— Sara, querida, deixe isso por um momento — disse Helena, com um sorriso radiante. — Arthur e Carine chegam em dois dias. Quero que você pessoalmente prepare o quarto da ala leste. Use os lençóis de linho egípcio que vieram de Paris e coloque flores frescas de lavanda. Quero que meu filho sinta o perfume de casa assim que entrar.
Sara sentiu um aperto no peito. Cada palavra de Helena sobre "família" e "casa" soava como uma adaga. — Sim, dona Helena. Vou deixar tudo impecável — respondeu a jovem, baixando os olhos para esconder o brilho de uma náusea que insistia em retornar.
O Mal-estar no Quarto de Arthur
Enquanto preparava a cama de Arthur, Sara foi atingida por uma tontura avassaladora. O cheiro do amaciante nos lençóis pareceu subitamente insuportável. Ela se sentou na beira da cama, pálida, com a mão espalmada sobre o ventre ainda liso, mas que já abrigava o segredo mais perigoso da fazenda.
Rute entrou no quarto em silêncio, fechando a porta atrás de si. Ela observou a filha por um longo tempo. O olhar da governanta de 45 anos era clínico; ela conhecia os sinais do corpo de uma mulher melhor do que ninguém.
— Você está pálida, Sara. E tem evitado o café da manhã de Mabel — disse Rute, a voz baixa e cortante. — O que está acontecendo?
— É apenas o calor, mãe. E o cansaço dos preparativos — mentiu Sara, tentando se levantar.
Rute caminhou até a filha e segurou seu pulso com firmeza. — Não minta para mim. Eu sei o que acontece quando o Doutor Marco olha para uma mulher. E sei o que acontece quando ele não tem cuidado. Sara... há quanto tempo sua regra não vem?
O silêncio de Sara foi a confirmação. Rute sentiu um calafrio. O império que ela ajudara a construir estava prestes a implodir. Se Marco Aurélio era o lobo, ela agora percebia que sua própria filha era a armadilha que o destruiria.
O Aviso de Marco
No escritório, Marco Aurélio olhava o calendário. O Natal, que deveria ser um momento de descanso, parecia uma contagem regressiva para o caos. Arthur estava vindo, e com ele, Carine — uma jovem que Marco sabia ser ambiciosa e de olhos atentos.
Cassandra entrou sem ser chamada, como de costume. Ela se sentou à frente de Marco e cruzou as pernas, exibindo a joia que ganhara na capital. — O herdeiro está chegando, Marco. Como você vai explicar para o Arthur que a prima de sua mãe agora dita as regras por aqui? Ou melhor... como vai explicar para a Carine o jeito que a pequena copeira te olha?
Capítulo 31 — A Trégua de Natal e a Linha no Chão
A viagem à capital foi o respiro que Marco Aurélio precisava. No banco de trás do carro, Helena segurava sua mão com uma serenidade que o desarmava. Longe das paredes carregadas da mansão, ele podia, por algumas horas, fingir que era apenas o marido exemplar e o pai orgulhoso que o mundo via de fora.
O Ritual da Generosidade
Em uma das joalherias mais exclusivas da cidade, Marco observava Helena escolher os mimos para a família. Mas, na hora de decidir os presentes da equipe, ele assumiu o controle, agindo com a precisão de quem conhece cada engrenagem de seu império.
— Para Alberto, o melhor relógio de pulso suíço. Ele conta o tempo da minha vida há anos — determinou Marco. — Para Mabel, aquele conjunto de panelas de cobre profissional.
Ao chegar na escolha para Rute, Marco parou diante de um broche de ouro maciço em formato de folha de café com pequenos diamantes. Era um presente de peso, condizente com a mulher que não era apenas sua governanta, mas sua assessora executiva e confidente administrativa. — Este é para a Rute. Ela mantém este lugar de pé tanto quanto eu. E para a Sara, algo delicado... este colar de pérolas.
Helena sorriu, orgulhosa. — Você valoriza quem nos serve com lealdade, Marco. É por isso que todos o respeitam tanto.
O Porto Seguro de Arthur
Naquela mesma tarde, o encontro com o filho e a nora aconteceu em um restaurante requintado. Quando Arthur entrou, Marco sentiu o peito estufar. O rapaz era o seu orgulho, a parte de sua vida que não estava corrompida. Ao lado dele, Carine irradiava uma beleza moderna e sofisticada.
Ao abraçar a nora, Marco Aurélio foi o retrato do cavalheirismo. Diferente do olhar predatório que lançava a Cassandra ou da luxúria que dedicava a Sara, seus olhos para Carine eram repletos de um pudor paternal absoluto. Para Marco, Carine não era uma mulher a ser conquistada, mas a futura mãe de seus netos, uma extensão sagrada de seu filho.
— Seja bem-vinda, Carine — disse ele, com uma voz firme e respeitosa. — Arthur tem muita sorte, e você terá em mim um pai. O que for meu, será de vocês.
Carine sentiu-se acolhida pela integridade que ele emanava. Ali, diante do filho, Marco não era o lobo; era o patriarca protetor.
O Retorno e a Vigilância de Rute
A volta para a fazenda foi marcada por um porta-malas cheio de presentes. Ao chegarem, a recepção foi organizada por Rute. Mesmo em clima de festa, ela mantinha sua postura impecável de assessora executiva, com o tablet na mão conferindo a agenda de final de ano, enquanto coordenava os criados para descarregar o carro.
Sara aproximou-se para ajudar com as sacolas. Ao cruzar com Marco no corredor, a jovem tentou buscar o olhar do patrão, uma fagulha da paixão da noite anterior. Mas Marco a tratou com uma distância profissional gélida. Ele estava focado em Arthur e Carine, e a presença deles criava uma barreira de decência que ele não ousaria quebrar.
Rute, cujos olhos treinados de assessora não deixavam passar nenhum detalhe, notou a tensão. Ela viu o presente de luxo que Marco lhe trouxera, mas seu foco mudou quando percebeu Sara segurar o próprio estômago ao sentir o cheiro forte das flores que decoravam o hall.
O Jantar dos Presságios
À mesa, Marco Aurélio brindava à chegada de Arthur, ostentando sua postura de homem íntegro e realizado. Ele se sentia no topo do mundo, ignorando que o perigo agora morava no silêncio daquelas que o conheciam melhor.
Enquanto servia o vinho para Carine, Sara sentiu o mundo girar. O aroma da ceia tornou-se subitamente insuportável.
— Você está bem, Sara? — perguntou Carine, com doçura, notando a palidez da moça. — Sim, dona Carine... apenas o calor — respondeu Sara, retirando-se para a copa.
Ali, no refúgio das sombras, Rute a interceptou. A governanta e assessora não disse uma palavra, apenas cruzou os braços, observando a filha lutar contra uma náusea evidente. Marco continuava na sala, rindo com o filho e tratando Carine com o maior respeito do mundo, sem suspeitar que, por trás da porta da cozinha, o olhar analítico de Rute acabara de detectar a primeira fissura no seu império de mármore.
Capítulo 32 — O Brinde de Ouro e o Silêncio da Loba
O sol de Natal iluminava o vasto cafezal que cercava a mansão — um mar verde que Marco Aurélio comprara não por necessidade, mas por ego. Após ganhar o prêmio da Mega-Sena e consolidar sua carreira como escritor de romances best-sellers, ele transformara aquele antigo desejo em realidade. O café ali era colhido com o luxo que o dinheiro da sorte e da literatura proporcionara, um capricho de quem podia comprar o próprio destino.
O Cuidado Velado
Na cozinha, o banquete natalino estava no auge. Rute, com sua postura impecável de assessora executiva e governanta, coordenava o serviço com a precisão de um relógio suíço. Mas seus olhos de mãe não perdiam Sara de vista por um segundo. Ao notar a filha empalidecer e se esquivar do aroma do peru assado, Rute agiu com discrição absoluta.
Ela conduziu a jovem para a despensa climatizada, fechando a porta para garantir a privacidade. Não havia acusação, apenas um cuidado profundo. — Sara, olhe para mim — disse Rute, segurando as mãos trêmulas da filha. — Eu conheço cada traço do seu rosto e cada mudança no seu corpo. Você não está bem. Amanhã cedo, nós vamos à capital. Vou inventar que temos uma reunião urgente sobre os novos contratos do café.
Sara tentou desviar o olhar. — É só cansaço, mãe... — Não é cansaço. Quero que você faça um exame de sangue completo, incluindo um teste de gravidez — interrompeu Rute, a voz baixa e firme, sem mencionar o nome de Marco, embora o peso do segredo estivesse entre elas. — Não vamos falar sobre isso agora. Vamos apenas ter certeza. Eu amo você e estou aqui para te proteger. Guarde isso no silêncio até o resultado chegar.
A Santidade do Pai
No terraço, o café da manhã era uma cena de comercial de luxo. Marco Aurélio, o homem que dominava as palavras, brindava com suco de uva em taças de cristal. Ao se dirigir a Carine, sua expressão era de um pudor absoluto.
Ele via na nora a pureza que ele mesmo já havia perdido. Para Marco, a esposa de Arthur era território sagrado. Ele a tratava com uma cortesia quase cavalheiresca, ouvindo seus planos com um sorriso de pai orgulhoso e protetor. Ali, diante do filho, ele não era o sedutor; era o patriarca que respeitava a linhagem e a família acima de tudo.
O Escritório: Onde a Máscara Cai
Contudo, a aura de retidão de Marco irritava profundamente Cassandra. Ela não suportava o tratamento diferenciado que ele dava à nora enquanto a tratava como um segredo proibido. Assim que Marco se retirou para o escritório, Cassandra entrou logo atrás, trancando a porta.
— Que belo papel de sogro respeitável, Marco — debochou ela, encostando-se na mesa de madeira nobre. — Chega a ser ridículo o jeito que você baixa a voz e muda o olhar para falar com a Carine. Onde está o homem que me devorou na capital?
Marco cravou os olhos nela, sério e gélido. — Meça suas palavras, Cassandra. O que eu tenho com meu filho e com a Carine é sagrado. Eu sou pai, tenho pudor e respeito absoluto por ela. Carine é como uma filha para mim, e você nunca entenderia o que é ter uma parte da alma limpa para alguém.
Cassandra riu, uma risada gutural, e começou a desabotoar o vestido de seda, tomada por um desejo vingativo e avassalador. — Ótimo. Já que ela é a santa, eu serei o seu pecado. Eu não sou sua filha, nem sua nora... sou apenas a prima da sua mulher, e não te devo respeito algum.
Ela avançou com uma paixão feroz, jogando os manuscritos e relatórios da mesa para o chão com um gesto violento. Marco, provocado em sua dualidade, cedeu à luxúria. Em cima da mesa onde gerenciava sua fortuna, o pudor deu lugar à selvageria. Enquanto na sala ao lado a família celebrava o Natal, no escritório, a traição escrevia mais um capítulo escuro, sem que Marco suspeitasse que, do outro lado da porta, Rute já preparava o caminho para a maior revelação de sua vida.
Capítulo 33 — Presentes de Grego e o Caminho do Destino
A manhã pós-Natal na mansão tinha um brilho enganador. No espelho azul da piscina, a imagem da "família perfeita" refletia-se sob o sol forte. Marco Aurélio, usando óculos escuros de marca e um sorriso de anfitrião impecável, parecia o retrato da felicidade.
O Refúgio da Capital
Enquanto a risada de Helena ecoava na área de lazer, Rute e Sara cruzavam os portões da fazenda no SUV da administração. Para todos, era uma viagem de negócios: Rute precisava de assinar documentos bancários da safra e levaria Sara para ajudar com a organização dos arquivos.
Dentro do carro, o silêncio era denso. Rute conduzia com uma firmeza quase militar, mas de vez em quando esticava a mão para apertar o joelho da filha. — Calma, Sara. O laboratório é discreto e o resultado sai rápido — disse Rute, mantendo os olhos na estrada. — Independentemente do que aquele papel disser, lembra-te: tu és o meu tesouro. Nada de mal te vai acontecer enquanto eu for a assessora deste império.
Sara olhava pela janela, a náusea agora misturada com uma ansiedade que lhe apertava o peito. Ela não sabia se desejava que o exame fosse positivo para prender Marco, ou negativo para fugir daquela teia de mentiras.
A Generosidade Calculada
Na piscina, Marco Aurélio observava Arthur e Carine nadarem. Ele sentia um orgulho genuíno ao ver o filho feliz. Helena, deitada numa espreguiçadeira, sorria para o marido. Foi então que Marco chamou Alberto e Dona Mabel.
O casal de funcionários aproximou-se, Alberto com o chapéu na mão e Mabel limpando as mãos no avental. — Alberto, Mabel... vocês cuidam desta família como se fosse a vossa — começou Marco, levantando-se e entregando-lhes um envelope dourado. — Eu e a Helena decidimos que vocês merecem mais do que um bónus. Aqui estão passagens aéreas e a reserva de um hotel de luxo em Copacabana. Vocês vão para o Rio de Janeiro hoje e só voltam depois do Réveillon. Tudo pago por mim.
Mabel levou as mãos à boca, emocionada. — Mas Doutor Marco... e o serviço da casa? E as refeições da Dona Helena? — Não se preocupem com nada. A Rute e a Sara resolvem o básico e nós vamos jantar fora alguns dias — interrompeu Marco com uma gentileza que não aceitava recusas. — Divirtam-se. É uma ordem.
Helena abraçou o marido, comovida com o gesto. Alberto, embora grato, sentiu um estranho calafrio. Ele conhecia o patrão; sabia que a generosidade de Marco era muitas vezes uma forma de comprar o silêncio ou limpar o terreno. Mas o sonho de ver o mar falou mais alto, e o casal retirou-se para fazer as malas, deixando a mansão mais "vazia" de olhos atentos.
A Harmonia do Patriarca
Com a nora, Carine, Marco manteve o seu pudor inabalável. Quando ela saiu da água, ele foi o primeiro a estender-lhe uma toalha, com um olhar respeitoso de pai para filha. — Carine, espero que estejas a gostar da nossa hospitalidade. Esta fazenda será o teu refúgio sempre que precisares — disse ele, com uma voz suave e acolhedora.
Carine sorriu, sentindo-se parte de uma família sólida e moral. Arthur apertou a mão do pai, agradecido pela forma como ele recebia a sua futura esposa. Marco Aurélio sentia-se um deus: afastava os empregados curiosos com "bondade", mantinha a nora sob o manto do respeito e a esposa sob o manto da ilusão.
O Veredito
Enquanto Marco brindava na piscina, a quilómetros dali, num consultório frio na capital, o braço de Sara era picado por uma agulha. Rute observava o sangue da filha preencher o tubo de ensaio. Aquele líquido carmesim continha a verdade que destruiria a paz da piscina e transformaria o Natal da mansão num campo de batalha.
Rute pegou no comprovante do exame e guardou-o na mala de couro como se fosse uma arma carregada. O jogo de Marco Aurélio estava prestes a sofrer uma reviravolta que nem o melhor dos seus romances poderia prever.
Capítulo 34 — O Silêncio sob o Envelope Pardo
Entre os dias 28 e 30 de dezembro, a mansão mergulhou em uma rotina de opulência e tranquilidade forjada. Com a partida de Alberto e Mabel para o Rio de Janeiro, o casarão parecia maior, mais vazio e, para Marco Aurélio, mais fácil de manejar.
O Veredito de Sangue
Na tarde do dia 28, na capital, o envelope pardo foi entregue nas mãos de Rute. Ela não o abriu na frente de Sara. No carro, a caminho de volta para a fazenda, a jovem copeira olhava para a bolsa da mãe com os olhos carregados de súplica.
— Mãe... por favor, o que deu? — perguntou Sara, com a voz embargada.
Rute manteve os olhos fixos na estrada, a expressão de assessora executiva blindando qualquer emoção. — O resultado é para meus olhos primeiro, Sara. Eu não quero que você se desestabilize antes da festa de Ano Novo. O que quer que esteja escrito aqui, será tratado no momento certo. Agora, você vai se comportar como a funcionária exemplar que sempre foi. Esqueça o que aconteceu naquele laboratório até eu decidir que é hora de lembrar.
Rute guardou o exame no fundo do cofre de seu escritório particular, atrás de pilhas de contratos de exportação de café. Nem Marco, nem Helena, nem a própria Sara teriam acesso àquela verdade antes que o calendário virasse.
A Partida de Cassandra
No dia 29, Cassandra anunciou que passaria o Réveillon na casa de sua mãe — a tia de Helena. Após o "incidente" no escritório na manhã de Natal, o clima entre ela e Marco estava carregado de uma eletricidade perigosa.
— Vou deixar você com sua "família perfeita", Marco — sussurrou ela no corredor, antes de entrar no carro. — Aproveite o pudor e a santidade. Mas não se esqueça do gosto do pecado que deixamos na sua mesa de trabalho.
Marco apenas assentiu com um aceno polido, sentindo um alívio secreto por ver a prima da esposa partir. Com ela longe, ele poderia focar inteiramente em manter a imagem de patriarca diante de Arthur e Carine.
A Calmaria Antes do Tsunami
O dia 30 foi dedicado aos prazeres simples da riqueza. Marco Aurélio levou Arthur para vistoriar os novos lotes de café, agindo como o mentor que o filho admirava. À tarde, sentou-se na varanda com Carine para discutir literatura, mantendo sempre o tom de pai protetor e respeitoso, nunca deixando que seus olhos descessem para onde não deviam. Ele se sentia orgulhoso de sua "limpeza" moral diante da nora.
Enquanto isso, Helena planejava a ceia de Réveillon. Rute auxiliava com uma eficiência assustadora, organizando o buffet e os vinhos, enquanto Sara servia os refrescos com uma palidez que ela tentava disfarçar sob camadas de pó compacto.
A Noite de 30 de Dezembro
Na última noite antes da grande festa, Rute entrou no quarto de Sara. A jovem estava sentada na cama, abraçada aos joelhos. — Amanhã será uma noite longa, minha filha — disse Rute, sentando-se ao lado dela e acariciando seus cabelos com uma ternura sombria. — O Doutor Marco acha que controla este império porque ganhou na loteria e escreve livros. Ele não sabe que o verdadeiro poder não está no dinheiro, mas na informação.
Rute não revelou o conteúdo do exame, mas o sorriso enigmático que deu antes de apagar a luz deixou Sara em um estado de vigília constante. O segredo estava trancado no cofre, e o pavio da bomba que destruiria a paz de Marco Aurélio já estava aceso, esperando apenas o brinde da meia-noite.
Capítulo 35 — O Brinde das Sombras e a Dança das Camas
A noite de 31 de dezembro transformou o terraço da mansão em um mirante de puro luxo. Marco Aurélio não poupara despesas: a queima de fogos particular, comprada com os milhões de sua sorte e de seus livros, explodiu sobre o cafezal em cascatas de ouro e prata. Lá de cima, Arthur e Carine brindavam à juventude sob o céu iluminado, enquanto, lá embaixo, a piscina azul reluzia como um convite ao pecado.
O Altar de Helena e o Recuo de Sara
Após o brinde da meia-noite, Marco cumpriu seus rituais. Primeiro, no quarto principal, namorou Helena com a perícia de um escritor que conhece cada clímax. Foi uma entrega suave, que deixou a esposa em um sono profundo e satisfeito, embalada pelo champanhe e pela ilusão de um casamento perfeito.
Em seguida, ele deslizou até o quarto de Sara. Buscou a pele jovem da copeira, mas encontrou um corpo tenso e esquivo. Sara, lutando contra um mal-estar que nem ela entendia, recusou o toque do amante com um sussurro febril. Marco, embora frustrado, deu-lhe um beijo casto na testa e saiu, deixando a jovem entregue aos seus próprios fantasmas.
O Porto Seguro: A Entrega de Rute
A adrenalina da noite, porém, exigia um escape. Marco cruzou o corredor silencioso e entrou no quarto de Rute. A assessora executiva o esperava na penumbra, vestindo apenas um robe de seda preta que mal escondia as curvas da mulher de 45 anos que conhecia cada fraqueza dele.
Assim que a porta se fechou, o verniz de civilidade desapareceu. Marco a prensou contra a porta de madeira maciça, suas mãos grandes subindo pelas coxas de Rute, desfazendo o nó da seda com uma urgência técnica e faminta. Rute não era passiva como Helena, nem insegura como Sara; ela era o seu espelho. Ela cravou as unhas nas costas dele, puxando-o para si com um desejo que misturava lealdade e posse.
— Você demorou, Marco... — sussurrou ela contra os lábios dele, a voz carregada de uma provocação rouca.
O encontro foi intenso e cru. Marco a possuiu ali mesmo, entre a porta e a penteadeira, em uma dança de corpos que conheciam os ritmos um do outro há décadas. Foi um sexo maduro, onde o prazer era amplificado pelo perigo e pela cumplicidade. Rute arqueava o corpo, recebendo cada investida de Marco com gemidos abafados que preenchiam o quarto, enquanto ele se perdia no perfume de sândalo e na força daquela mulher que era, ao mesmo tempo, sua subordinada e sua rainha das sombras. Eles se amaram com uma ferocidade que só os cúmplices possuem, uma união erótica que parecia selar, na carne, o destino de tudo o que haviam construído juntos.
O Amanhecer e o Segredo Trancado
Após o clímax avassalador, Marco deitou a cabeça no colo de Rute. Ela acariciou os cabelos do patrão com uma calma predatória, enquanto ele recuperava o fôlego. Naquele momento de vulnerabilidade pós-coito, ele se sentia o dono do mundo.
Lá fora, no terraço, o som da música de Arthur e Carine ainda ecoava baixinho, celebrando um novo ano de esperança. Marco não imaginava que, enquanto ele descansava nos braços de Rute, a mente da assessora já voava para o cofre do escritório.
O sol de 1º de janeiro começou a despontar, tingindo o cafezal de laranja. Marco voltou para o seu quarto principal antes que Helena acordasse, sentindo-se vitorioso. Ele acreditava ter saciado todos os seus desejos, sem suspeitar que Rute, agora sozinha e recomposta, olhava para o horizonte com um único pensamento: o prazer daquela noite fora apenas o último tributo antes da revelação que mudaria as vidas de todos para sempre.
Capítulo 36 — O Cálice de Cristal Partido
A manhã de 1º de janeiro ardia em um calor sufocante. À beira da piscina, a família celebrava o início do ano com champanhe e iguarias. Marco Aurélio ostentava sua máscara de patriarca exemplar, conversando com Arthur sobre as safras futuras, enquanto Helena e Carine riam, aproveitando o sol.
O Incidente
Sara atravessou o pátio carregando uma bandeja de prata com camarões graúdos ao alho e óleo. O aroma, que antes seria uma tentação, atingiu seu olfato como um golpe. O mundo girou. Diante dos olhos de todos, a jovem vacilou. A bandeja inclinou-se, e o som do metal batendo no piso de pedra foi seguido pelo barulho seco de Sara sufocando um soluço de náusea.
Ela não conseguiu chegar ao banheiro. O vômito veio ali mesmo, no canto do deck, sob o olhar chocado de Helena e a preocupação imediata de Carine.
— Meu Deus, Sara! — exclamou Helena, levantando-se. — O que foi isso?
Rute, que observava tudo com a vigilância de uma loba, surgiu das sombras da varanda antes que qualquer um pudesse se aproximar. — É o calor, Dona Helena. E a exaustão das festas — disse Rute, a voz firme e profissional, embora seus olhos estivessem em brasas. Ela segurou Sara pelo braço com uma força protetora. — Vou levá-la para o quarto. Ela precisa de repouso absoluto.
O Veredito no Escritório
Após deixar Sara mergulhada em um sono pesado e febril, Rute não foi descansar. Ela foi até o cofre, retirou o envelope pardo e caminhou até o escritório. Marco Aurélio estava lá, tentando se concentrar em um manuscrito para fugir da imagem de Sara passando mal na frente de sua nora "sagrada".
Rute entrou e trancou a porta. O silêncio entre os dois, que horas antes era preenchido por gemidos de luxúria, agora era denso como chumbo. Sem dizer uma palavra, ela colocou o envelope sobre a mesa de carvalho — a mesma mesa que fora palco de suas traições.
Ela rasgou o papel na frente dele. — Leia, Marco. Leia o que o destino escreveu enquanto você brincava de Deus — disse ela, a voz baixa e perigosa.
Marco pegou o papel. Seus olhos percorreram os termos técnicos até pararem no resultado: POSITIVO. O escritor de romances perdeu as palavras. O multimilionário sentiu-se pobre.
— Eu... eu não planejei isso, Rute — gaguejou ele, a mão tremendo levemente.
Rute inclinou-se sobre a mesa, os olhos fixos nos dele. — Eu amo a minha filha, Marco. Mais do que amo a mim mesma, e certamente mais do que amo a nossa cumplicidade. Você jamais abandonará a Sara. Nós vamos sentar e traçar cada passo deste futuro, porque em poucos meses a barriga vai crescer e o seu "pudor" diante do Arthur e da Carine será posto à prova. O herdeiro está aqui, e ele é tanto meu quanto seu.
Rute saiu, deixando Marco sozinho com o peso do papel. Ele olhou pela janela para a piscina, onde o filho ria com a nora, e sentiu o abismo abrir-se sob seus pés. O que seria da sua vida? Como manter a farsa com uma criança clamando pelo seu nome dentro da própria mansão?
A Promessa de um Império
Rute voltou ao quarto de Sara. A jovem despertava agora, com os olhos inchados. A mãe sentou-se na beira da cama e, com uma ternura que raramente mostrava ao mundo, acariciou o ventre da filha.
— Está confirmado, minha menina. Você está grávida — sussurrou Rute.
Sara, em vez de medo, sentiu uma onda de triunfo percorrer seu corpo. Um sorriso lento e vitorioso surgiu em seus lábios de 20 anos. — Um herdeiro, mãe... Eu carrego o filho do Marco Aurélio.
— Sim — respondeu Rute, os olhos brilhando com uma ambição compartilhada. — E agora, Sara, nós não somos mais apenas as mulheres que servem. Nós somos as mulheres que possuem o futuro desta fazenda.
Capítulo 37 — A Coreografia das Sombras
Janeiro avançava com o vigor das colheitas futuras, e a mansão de Marco Aurélio parecia ter recuperado sua ordem natural. O silêncio da partida de Arthur e Carine deixara um vazio que Marco preenchia com trabalho, mas a calmaria era apenas a superfície de um lago profundo e perigoso.
O Retorno da Rotina
Alberto e Mabel voltaram do Rio de Janeiro com a pele bronzeada e a alma grata. O presente de Marco — o luxo de Copacabana — selara de vez a lealdade do casal de funcionários. — O senhor não imagina como aquele mar renova a gente, Doutor Marco — dizia Alberto, enquanto polia o carro com um zelo quase religioso. Mabel, de volta à cozinha, retomou seu posto com alegria, sem desconfiar que a palidez de Sara, que agora se escondia sob o pretexto de uma "virose persistente", era o prenúncio de uma tempestade.
A Barriga Invisível e o Recuo de Sara
A gravidez de Sara completava o seu segundo mês, mas o corpo jovem e esguio da copeira ainda guardava o segredo com eficácia. Sob o uniforme engomado e o avental largo, o ventre permanecia liso, uma camuflagem perfeita para a vida que florescia ali dentro.
No entanto, a náusea tornara-se sua sombra. O cheiro do café torrado, que antes era o perfume de sua fortuna, agora a fazia correr para o banheiro da área de serviço. Na calada da noite, quando Marco tentava entrar em seu quarto buscando o calor da juventude, Sara o repelia. — Não, Marco... por favor. Eu me sinto mal, meu corpo dói — sussurrava ela, a voz fria, os olhos fixos na parede. Ela já não sentia o desejo de ser a "preferida". Agora, Sara sentia o poder de ser a mãe do herdeiro. A luxúria de Marco começava a irritá-la; ela agora via o patrão não como um amante, mas como um devedor.
A Dualidade de Rute e Marco
Frustrado pela recusa de Sara e pelo peso do segredo, Marco encontrava em Rute o seu porto seguro e o seu campo de batalha. A relação entre os dois atingira um nível de complexidade assustador.
Durante o dia, no escritório, eram a eficiência em pessoa. — Os contratos do porto de Santos precisam de revisão, Marco — dizia Rute, colocando os papéis sobre a mesa com uma frieza profissional. Mas, assim que a porta se trancava, a tensão administrativa transformava-se em uma urgência carnal. Rute, ciente do trunfo que tinha no ventre da filha, possuía Marco com uma intensidade que beirava o domínio. O sexo entre eles era um pacto de sangue: ele despejava nela sua ansiedade e medo; ela recebia tudo com a certeza de quem agora segurava as rédeas do império.
"Eles se amavam entre as planilhas e o cheiro de couro do escritório, uma união onde o prazer era temperado pelo sabor da chantagem implícita."
A Fé Cega de Helena
Helena, no centro de tudo, vivia em uma redoma de cristal. Para ela, o marido era um santo. Ela observava Marco trabalhar até tarde com Rute e sentia orgulho da dedicação dele aos negócios da família. — Você trabalha demais, meu amor — dizia ela, ao encontrá-lo no corredor após ele ter saído do quarto de Rute. — Graças a Deus você tem a Rute para te ajudar. Não sei o que seria de nós sem a lealdade dessa mulher. Marco beijava a testa da esposa com uma ternura oca, sentindo o peso da própria hipocrisia. A fidelidade dele, aos olhos de Helena, era inquestionável — uma ficção que Marco, como escritor, criava e mantinha com maestria.
O Presságio
Enquanto isso, na cozinha, Sara observava a mãe e o patrão de longe. Ela via as trocas de olhares entre os dois e sentia uma pontada de ciúme, não do homem, mas do poder. Rute passou por ela e, com um gesto discreto, tocou o ombro da filha. — Aguenta firme, Sara. Janeiro está acabando. Logo a máscara de Marco será pequena demais para esconder a verdade que está crescendo em você.
O império de mármore continuava de pé, mas os alicerces já estavam corroídos pelo segredo que pulsava no ventre da jovem que servia o café.
Capítulo 38 — O Exílio de Ouro
O mês de março trouxe o outono e, com ele, a impossibilidade de esconder o que a biologia insistia em revelar. O uniforme de Sara, antes folgado, agora marcava a curva suave, mas inegável, de sua cintura. A mansão, que antes era um refúgio de segredos, tornou-se uma vitrine perigosa.
O Veneno de Cassandra
O retorno de Cassandra à fazenda agiu como um catalisador. Com seus olhos de lince e uma amargura alimentada pelo desprezo de Marco, ela não demorou a notar as mudanças. Em uma tarde no terraço, enquanto Sara servia o chá com as mãos trêmulas, Cassandra disparou seu veneno em direção a Helena.
— Nossa, Helena... você não acha que a pequena Sara está... "encorpada"? — perguntou Cassandra, com um sorriso de lado. — Esse brilho nos olhos, essa palidez matinal. Se eu não soubesse que ela vive trancada aqui, diria que temos um herdeiro a caminho.
Helena riu, mas o som foi nervoso. — Bobagem, Cassandra. Sara é quase uma criança.
— Uma criança que convive apenas com o seu marido, com o seu filho e com o velho Alberto — rebateu Cassandra, inclinando-se para frente. — Arthur veio aqui com a Carine, não desgrudam. Alberto mal consegue subir escadas. Quem teria plantado essa semente, Helena? Ou será que foi o Espírito Santo?
O Xeque-mate de Rute
A semente da dúvida foi plantada. Helena começou a observar Sara com um olhar clínico que nunca tivera. Percebendo que o cerco estava se fechando, Rute agiu com a frieza de uma enxadrista. Naquela noite, ela não procurou Marco para sexo, mas para uma execução administrativa.
— A Cassandra já sabe. E a Helena está começando a ver — disse Rute, trancando a porta do escritório de Marco. — Se a Sara perder esse bebê pelo estresse de ser descoberta aqui, eu juro que destruo você, Marco.
Marco empalideceu. — O que você quer, Rute?
— Segurança. E luxo. Você vai comprar uma casa na capital. Um imóvel de alto padrão, em um bairro onde ninguém da sua laia circule. Quero enfermeiras 24 horas, empregada e segurança. E o mais importante: a escritura será no nome de Sara.
Marco tentou protestar sobre o valor e o risco legal, mas Rute o calou com um olhar. — É o preço do seu silêncio e do seu "pudor" diante do filho. Ou você tira ela daqui amanhã, ou eu mesma conto para a Helena quem é o pai enquanto ela toma o café da manhã.
A Partida sob Disfarce
Marco cedeu. Em menos de uma semana, a operação foi montada. O argumento usado com Helena foi o de que Sara precisava de um tratamento médico especializado na capital para uma "anemia grave e contagiosa", e que Rute, como mãe zelosa e assessora de confiança, precisava de uma base na cidade para coordenar os negócios e cuidar da filha.
A despedida foi tensa. Marco observou de longe, do alto da varanda, Sara entrar no carro. Ele sentia um misto de alívio e terror: a amante estava longe, mas o laço que o prendia a ela agora tinha paredes, escritura e um custo altíssimo.
O Palácio de Cristal de Sara
A casa na capital era um triplex moderno, com janelas do chão ao teto. Sara, que passara a vida servindo em quartos de empregada, agora caminhava sobre tapetes persas.
Rute instalou uma equipe de confiança, paga com o dinheiro da Mega-Sena de Marco. Uma enfermeira obstétrica e uma cozinheira particular cuidavam de cada caloria que Sara ingeria. — Agora você é a rainha, minha filha — disse Rute, olhando a vista da cidade através da varanda. — Deixe a Helena com as ilusões da fazenda e a Cassandra com o veneno dela. Aqui, você é a dona de tudo. E esse bebê é a sua coroa.
Na fazenda, o silêncio após a partida de Sara era ensurdecedor. Marco voltou ao quarto de Helena, fingindo que a vida voltara ao normal, mas a "pulga" atrás da orelha de Helena, colocada por Cassandra, continuava a coçar. A esposa de Marco agora passava horas no quarto que fora de Sara, buscando um fio de cabelo, um cheiro, qualquer prova de que a "fidelidade" de seu marido não passava de uma obra de ficção bem escrita.
Capítulo 39 — O Jogo da Predação
A ausência de Sara e as constantes viagens de Rute para a capital criaram um vácuo de poder na fazenda. Mas, para Marco Aurélio, o vazio mais perigoso era o da carne. Com Sara recusando suas visitas e alegando que a gestação lhe trazia um "asco" de sua presença, a fome do lobo precisava de um novo alvo.
A Ascensão de Cassandra: A Vilã Infiltrada
Cassandra percebeu que tinha Marco nas mãos. A desconfiança que ela plantara em Helena era a sua arma de chantagem. Ela não queria apenas o corpo de Marco; ela queria o controle.
— Ou você me dá o aumento que eu pedi nos meus dividendos da administração, ou eu levo a Helena pessoalmente para visitar a "anêmica" Sara na capital — sussurrou ela, empurrando Marco contra a estante de livros do escritório.
Marco, acuado pela chantagem, mas instigado pelo desafio, cedeu à sua natureza predatória. Cassandra tornou-se sua rotina. Eles se entregavam a encontros ferozes em todos os cantos da casa, movidos por um misto de ódio e luxúria. Cassandra traía a prima Helena sem remorso, enquanto limpava o terreno para Marco. Após conseguir o que queria, ela mudou o discurso para a prima:
— Sabe, Helena, eu andei observando o Marco... Eu fui injusta. Ele está sofrendo com a ausência da Rute na administração e se dedica apenas a você. Você deveria levá-lo para jantar na capital, dar uma renovada nesse casamento.
O Jantar dos Dois Mundos
Enganada pela falsa redenção de Cassandra, Helena marcou um jantar no restaurante mais badalado da capital. Marco aceitou, sem saber que o destino havia armado uma armadilha.
Naquela mesma noite, em uma mesa reservada no canto oposto do salão, Rute e Sara comemoravam os cinco meses de gestação. Sara usava um vestido de seda ajustado que deixava sua barriga perfeitamente arredondada e evidente. Ela exalava uma beleza madura, mas seus olhos eram frios.
— Eu não quero vê-lo, mãe — disse Sara, afastando o vinho sem álcool. — O cheiro dele me dá náuseas. Sinto que este bebê o rejeita tanto quanto eu. É a gestação, eu sei, mas não suporto a ideia de ser tocada por ele.
O Quase Flagrante e a Audácia de Rute
Enquanto Sara falava, Helena e Marco entravam no restaurante. No momento em que Helena ia virar o rosto em direção à mesa da ex-copeira, Marco, num reflexo de sobrevivência, segurou o queixo da esposa e a beijou com uma intensidade dramática.
— Olhe para mim, Helena. Esqueça o mundo lá fora hoje — disse ele, a voz firme enquanto seu coração disparava ao ver, pelo canto do olho, a silhueta de Sara grávida a poucos metros.
Rute, percebendo a presença do patrão, não recuou. Pelo contrário. Ela se levantou e foi ao toalete, passando por Marco e deixando um bilhete discreto sobre a coxa dele por baixo da mesa. Minutos depois, Marco pediu licença para "lavar as mãos".
No banheiro luxuoso e deserto do restaurante, a urgência foi o tom. Rute o prensou contra a pia de mármore. Ali, no meio do jantar romântico com a esposa, Marco descarregou em Rute a tensão de meses. Foi um encontro rápido, técnico e carregado do poder que ambos exerciam um sobre o outro. Rute não o chantageava como Cassandra; ela o possuía pela cumplicidade.
O Retorno à Mesa
Marco voltou para Helena com a respiração levemente alterada, justificando ser o calor do ambiente. Enquanto isso, Rute voltava para Sara.
— Ele está ali, não está? — perguntou Sara, sem olhar para trás. — Está. Com a esposa. E continua sendo o mesmo homem que podemos dobrar quando quisermos — respondeu Rute, recompondo o batom.
Ao final da noite, Marco conduziu Helena para fora, garantindo que ela saísse por uma porta lateral enquanto Sara e Rute permaneciam nas sombras. O império de Marco Aurélio estava salvo por mais uma noite, mas ele agora era um homem dividido entre quatro mulheres: a esposa que o idolatrava, a amante que o chantageava, a assessora que o dominava e a filha do pecado que carregava seu futuro e o desprezava.
Capítulo 40 — A Sentinela e o Veneno
O mês de maio trouxe ventos frios para as colinas de café, mas dentro da mansão, o clima era de uma tensão sufocante. Com Sara entrando no oitavo mês de gestação em sua fortaleza de luxo na capital, protegida por uma equipe médica de elite, Rute decidiu que era hora de retomar seu posto de comando.
O Retorno da Governanta
Rute chegou sem aviso prévio. Seu retorno não foi celebrado com flores, mas com o silêncio respeitoso dos empregados, que sentiam que a verdadeira ordem havia voltado. Mabel e Alberto respiraram aliviados, mas Marco Aurélio sentiu um calafrio.
— A Sara está bem, Marco. O herdeiro é forte e a equipe é impecável — disse Rute, entrando no escritório e fechando a porta com a autoridade de quem nunca saiu dali. — Agora, vim cuidar das fissuras que você deixou abrir nesta casa enquanto eu estava fora.
A Descoberta
Não demorou vinte e quatro horas para que o olhar clínico de Rute detectasse a anomalia. Ela notou a audácia de Cassandra: as joias novas, o tom de voz imperativo com Marco e, principalmente, a forma como ela entrava e saía do escritório a qualquer hora.
Naquela noite, Rute não foi ao quarto de Marco. Ela ficou nas sombras do corredor de serviço. Seus olhos viram o que Helena se recusava a enxergar: Cassandra saindo do quarto de Marco, ajeitando o roupão de seda com um sorriso triunfante, enquanto segurava um envelope de documentos que Marco acabara de assinar sob pressão.
Mais tarde, Rute usou sua chave mestra para entrar no quarto de Cassandra enquanto ela dormia. Vasculhando a bolsa da vilã, encontrou o que procurava: fotos impressas de Sara na sacada do triplex da capital, evidenciando a barriga de oito meses, e anotações sobre os depósitos que Marco vinha fazendo.
O Diagnóstico de Rute
Rute não sentiu ciúmes de Marco. Ela sentiu desprezo pela imprudência dele e ódio pela ameaça de Cassandra. Para Rute, Marco era o gado, Sara era o futuro e Cassandra era o parasita que poderia destruir tudo se decidisse abrir a boca para Helena.
— Ela é uma amadora — sussurrou Rute para si mesma, guardando as fotos de volta. — Ela acha que o poder está em chantagear um homem fraco. Ela não sabe que o verdadeiro poder está em eliminar a ameaça.
O Plano de Eliminação
Na manhã seguinte, Rute retomou sua rotina de assessora executiva com uma calma glacial. No café da manhã, ela observou Helena comentar sobre como Cassandra andava "estranha e aérea".
— Deve ser o cansaço, Dona Helena — disse Rute, servindo o suco com perfeição. — Talvez ela precise de um tempo para relaxar. Eu mesma posso organizar um passeio para ela... algo definitivo.
No escritório, o confronto com Marco foi breve. — Ela está te extorquindo, Marco. Eu vi os documentos. Você deu a ela parte das ações da safra nova — disse Rute, sem rodeios. — Ela ia contar tudo para a Helena, Rute! Eu não tive escolha! — Marco gaguejou, desesperado.
Rute aproximou-se dele e segurou seu rosto com as mãos frias. — Você é um escritor, Marco. Deveria saber que personagens como a Cassandra não aceitam apenas um capítulo. Eles querem o livro todo. Mas não se preocupe... eu vou escrever o fim dela.
A Trama da Morte
Rute começou a arquitetar o "acidente". Ela conhecia a rotina de Cassandra, seus hábitos de dirigir em alta velocidade pelas estradas sinuosas da fazenda após beber o vinho caro que exigia de Marco. Ela começou a preparar o terreno, verificando os freios do carro da vilã e estudando o trecho mais perigoso da estrada do café, onde o precipício não dava chances de erro.
Para Rute, não era um crime; era uma limpeza administrativa. Cassandra era um ruído que precisava ser silenciado para que o filho de Sara nascesse em um império estável.
Capítulo 41 — O Sangue no Café e o Choro na Capital
A neblina de junho desceu sobre as colinas da fazenda como um sudário cinzento, abafando os sons da natureza e trazendo um frio que parecia vir de dentro das paredes da mansão. Rute observava da janela da copa, com os braços cruzados e o cronômetro mental contando os segundos. Ela sabia que Cassandra, impulsionada por uma discussão violenta que ela mesma provocara minutos antes, sairia em disparada em direção à cidade, cega de fúria e de vinho.
O Fim da Chantagista
O som do motor do carro de Cassandra ecoou pelo pátio — um rugido de arrogância que cortou o silêncio da tarde. Ela nem olhou para trás. Ao atingir a Curva do Diabo, o trecho mais íngreme e mal iluminado que serpenteava os cafezais, Cassandra pisou no freio para controlar a velocidade antes do precipício.
Mas o pedal cedeu até o fundo, inútil e oco. O terror congelou seu rosto no último segundo. O grito da vilã foi abafado pelo som do metal retorcendo-se contra as árvores centenárias. O carro despencou pelo despenhadeiro, capotando sucessivamente até se tornar um amontoado de ferro fumegante no fundo do vale. Rute, ouvindo o estrondo abafado ao longe, apenas suspirou, ajeitou o avental e voltou a organizar as pratas. A limpeza administrativa estava feita.
O Desespero de Identidade
Quando a notícia chegou, horas depois, trazida por um peão em choque, a mansão ruiu. Helena desmaiou nos braços de Mabel, mas foi Marco Aurélio quem perdeu o chão de forma definitiva.
Ele se trancou no escritório — o santuário onde transara com Cassandra sob chantagem e onde assinara documentos que entregavam sua alma. Marco olhou-se no espelho e não reconheceu o homem ali. O dinheiro da Mega-Sena, que deveria ter lhe dado liberdade, agora parecia o pagamento por uma vida de crimes e omissões. Em um surto de angústia, ele começou a rasgar seus manuscritos, os livros de romance que o mundo aclamava. Para ele, cada palavra escrita era uma mentira que agora cheirava a morte e metal retorcido.
— Eu não sou esse homem... eu não sou esse patriarca... — sussurrava ele, chorando compulsivamente entre os destroços de seus textos, enquanto a polícia cercava a propriedade para remover o que restara da prima de sua esposa.
O Nascimento do Herdeiro
Enquanto o luto e o caos tomavam a fazenda, a 300 quilômetros dali, no silêncio esterilizado de um hospital de luxo na capital, o destino seguia seu curso indiferente às tragédias da terra.
Sara, exausta e suada, apertava os lençóis de linho egípcio que Marco pagara. Ela não chamou por ele. No momento em que o sol começou a nascer sobre os prédios da capital, um choro forte e vigoroso preencheu a sala de parto, cortando a tensão do ambiente.
— É um menino, Sara. Um menino lindo e saudável — anunciou a enfermeira chefe.
Sara recebeu o bebê nos braços. Ao olhar para o rosto da criança, ela não viu os traços de Marco que tanto a enojavam nos últimos meses; ela viu apenas o seu triunfo. Aquele pequeno ser era a sua coroa, o seu passaporte definitivo para o topo da pirâmide.
O Brinde de Rute
O telefone de Rute vibrou no bolso enquanto ela confortava uma Helena inconsolável na sala de estar. Era a mensagem da equipe médica: "O menino nasceu. 3,8kg. Mãe e filho passam bem."
Rute permitiu-se um sorriso imperceptível, um brilho predatório nos olhos. Cassandra estava morta e enterrada sob o pretexto de um acidente. Marco estava quebrado, reduzido a um trapo humano que ela poderia moldar com as próprias mãos. E o herdeiro, o fruto de seu plano mestre, finalmente havia chegado para reivindicar o império.
Ela se aproximou de Marco, que continuava caído no chão do escritório entre papéis rasgados, e sussurrou no ouvido dele, com uma voz que misturava veneno e autoridade:
— Levante-se, Marco. Seque as lágrimas pela morta. Você acaba de ser pai. O seu filho nasceu, e ele precisa que você seja o homem forte que todos acreditam que você é. A farsa deve continuar... agora com mais perfeição do que nunca.
Capítulo 42 — O Preço da Consciência
O quarto do hospital na capital exalava o cheiro de flores caras e antisséptico. No berço de acrílico, o pequeno Murilo dormia, alheio às tempestades que o geraram. Marco Aurélio entrou no quarto com os ombros curvados, parecendo carregar o peso de cada saca de café de sua fazenda. Ele não era o patriarca imponente; era um homem assombrado.
O Acerto de Contas
Sara o olhou com uma frieza que o cortou mais do que qualquer grito. Marco aproximou-se da beira da cama, mas não ousou tocar nela.
— Ele é bonito, Sara. Tem os olhos da sua mãe — sussurrou ele, a voz rouca. — Eu vim para dizer que a escritura do triplex já está no seu nome. Mensalidades, segurança, enfermeiras... nada, absolutamente nada, faltará para esse menino. Nem para você.
Sara desviou o rosto. — O seu dinheiro é a única coisa que aceito de você, Marco.
Marco assentiu, engolindo em seco. O remorso, potencializado pela morte trágica de Cassandra, parecia sufocá-lo. — Eu sei. E eu me arrependo, Sara. Todos os dias. Eu olho para você e vejo o que eu fiz... você era quase uma criança sob minha proteção. Eu nunca deveria ter permitido que o desejo falasse mais alto que o meu dever. Eu manchei a sua juventude.
Ele fez uma pausa, buscando as palavras. — Você agora é rica, Sara. É independente. Não precisa ficar presa a um velho como eu por gratidão ou medo. Use esse conforto para estudar. Faça uma faculdade, saia desse triplex. Vá conhecer o mundo, conheça um homem jovem, alguém da sua idade que possa te dar o amor que eu nunca poderei dar sem a sombra da culpa. Eu serei apenas o seu provedor distante.
Sara finalmente o encarou. Não havia perdão em seus olhos, apenas uma aceitação pragmática. — É o que eu pretendo fazer.
Três Anos Depois: A Revelação de Rute
O tempo passou como Marco sugeriu. Sara tornou-se uma mulher sofisticada, cursando Economia e vivendo para o filho e para os livros. Em uma tarde de visita na capital, enquanto Murilo corria pela sala, Sara repetiu para a mãe o que dissera a Marco no hospital:
— Eu não quero vê-lo, mãe. Marco cumpriu a parte dele, mas o asco que sinto não passou com o tempo. Ele sugeriu que eu encontrasse alguém da minha idade, e eu farei isso. Só quero que ele fique longe da minha cama e da minha vida pessoal.
Rute, que ouvia tudo enquanto servia duas taças de vinho, soltou uma risada sombria que arrepiou a espinha de Sara.
— Você não sabe o peso que sai dos meus ombros ouvindo isso, minha filha — disse Rute, sentando-se com uma elegância predatória. — Durante anos, eu me perguntei se teria que disputar o Marco com você.
Sara franziu o cenho. — Disputar? Do que você está falando?
— O Marco é meu, Sara. Há mais de vinte anos — revelou Rute, com um brilho de triunfo nos olhos. — Nós somos amantes desde que eu entrei naquela fazenda. Eu sou a mulher que o conhece na intimidade, nos negócios e nos pecados. Eu o manipulei para que ele te desse tudo isso. Saber que você o despreza é o meu maior presente, pois agora posso desfrutar dele e do dinheiro dele sem ter que dividir a atenção com a sua juventude.
O Plano da Sentinela
Sara ficou muda, processando a profundidade da teia em que vivia. Rute, porém, já estava três passos à frente.
— Agora, vamos para a fase final. Você vai focar nos seus estudos e na sua liberdade aqui na capital. Eu vou levar o Murilo para a fazenda. Vou dizer à Helena que ele é seu filho com um "namoradinho" da faculdade que te abandonou. Helena está carente, desesperada por algo para amar. Ela vai abraçar esse neto como se fosse dela.
Rute sorriu, terminando o vinho. — E assim, o herdeiro legítimo crescerá dentro do império, Marco terá o filho por perto, e eu continuarei sendo a dona daquela casa, daquele homem e de todos os segredos que nela habitam.
Capítulo 43 — O Batismo das Sombras
Para o mundo, Rute era a governanta impecável. Para Marco, a amante dominante. Mas, no silêncio de sua alma, Rute era uma mulher que havia transformado suas limitações em um império. O fato de não poder mais gerar filhos fora sua ferida secreta por anos, e ver Murilo — o sangue de seu sangue, o fruto do plano que ela mesma arquitetou ao "facilitar" o caminho de Marco até Sara — era a sua redenção.
O Amor de Leoa e o Ciúme de Ferro
Rute amava Sara com uma ferocidade silenciosa. Cada luxo que a filha desfrutava era um troféu para Rute. Ela sabia que Marco, o lobo sedutor, cairia na tentação da juventude de Sara; ela apenas usou essa fraqueza masculina para plantar a semente que agora florescia em seus braços.
No entanto, o controle de Rute sobre a fazenda era agora total. Quando chegou a hora de contratar uma nova copeira para substituir o vácuo deixado por Sara, Rute não deu chances ao destino. Ela mesma selecionou Dona Zilda, uma senhora de quase setenta anos, de mãos lentas e olhar cansado.
— Aqui não entra mais nenhuma "flor jovem" — pensou Rute, observando Marco suspirar de tédio ao ser servido pela idosa. Rute sentia um ciúme doentio de Marco, uma posse que beirava a vigilância constante. A única mulher que não despertava seu veneno era Helena. Rute nutria um respeito quase sagrado pela patroa; Helena era a fachada necessária, a mulher que mantinha o nome da família limpo enquanto Rute governava as entranhas da casa e o coração do patrão.
A Chegada do "Neto Postiço"
A chegada de Murilo à fazenda foi um evento orquestrado. Rute desceu do carro com o menino de três anos, que já exibia os cachos escuros e a altivez dos homens da família.
— Veja, Dona Helena... aqui está o pequeno Murilo — disse Rute, com uma suavidade fingida. — A Sara está se matando de estudar na capital, quer ser alguém na vida para compensar o erro da juventude com aquele rapaz que a deixou. Eu não podia deixá-lo em creches o dia todo.
Helena, cujos olhos brilharam com uma alegria que não sentia desde a morte de Cassandra, pegou o menino no colo. — Ele é lindo, Rute! Tem um olhar... familiar. Que bênção ter uma criança correndo por estes corredores de novo.
O Almoço do Xeque-Mate
Durante o almoço de domingo, com a mesa posta com as melhores pratas, Rute servia o vinho enquanto Marco tentava disfarçar o tremor nas mãos ao ver o filho tão perto. O plano de Rute estava prestes a atingir sua perfeição máxima.
— Marco, Dona Helena... eu andei pensando — começou Rute, posicionando-se atrás da cadeira de Marco e colocando a mão, por um segundo a mais do que o profissional, em seu ombro. — Murilo ainda não foi batizado. E como a Sara não tem ninguém por ela lá fora, eu gostaria de pedir um favor imenso aos patrões.
Marco ergueu os olhos, tenso. Helena sorriu, incentivando.
— Eu gostaria que vocês fossem os padrinhos do Murilo — disparou Rute. — Não há ninguém que eu respeite mais do que a Dona Helena para guiar o espírito desse menino. E o senhor, patrão... seria uma honra saber que ele tem o seu exemplo como norte.
Helena quase chorou de emoção. — Oh, Rute! Que honra! Seria maravilhoso. O que você acha, Marco?
Marco Aurélio sentiu o suor frio descer pela nuca. Ele olhou para Rute e viu, naqueles olhos escuros, o brilho de quem acabara de ganhar o jogo. Ao aceitar o convite, ele estaria se tornando o padrinho do próprio filho, sob a bênção da esposa traída e o comando da amante governanta.
— Seria... um prazer, Helena — gaguejou Marco. — Um prazer proteger o filho da Sara.
Rute sorriu, retirando-se para a cozinha. O batismo não seria apenas um sacramento; seria o selo definitivo de sua vitória. Ela era a avó secreta, a amante oficial e a arquiteta de uma família onde a verdade estava enterrada sob camadas de seda, café e pecado.
Capítulo 44 — O Triângulo de Ferro e a Intruza
O batismo de Murilo selou o destino da casa. Com o menino agora oficialmente sob a proteção de Helena e Marco, a rotina da mansão ganhou um novo vigor. Mas, para Marco Aurélio, a presença do filho despertou algo que ele acreditava ter morrido: uma necessidade desesperada de se sentir um homem de família respeitável.
O Reencontro com Helena
Influenciado pela paz que o "afilhado" trouxe, Marco passou a olhar para Helena com olhos renovados. Ela, revigorada pelo papel de madrinha e pela alegria da criança, exalava uma serenidade que o atraiu. Numa noite de chuva, o distanciamento de meses se quebrou.
Marco redescobriu o corpo da esposa. Não foi o sexo técnico dos encontros furtivos, mas uma redescoberta de afeto. Ele a beijou com uma ternura que Helena há muito não sentia, buscando nela uma absolvição para seus pecados. No quarto principal da mansão, entre lençóis de algodão egípcio, Marco tentava convencer a si mesmo de que poderia ser o marido que Helena merecia, usando o prazer sexual como uma ponte para a redenção.
O Ritual Semanal: A Fúria de Rute
No entanto, a redenção de Marco era uma ilusão que durava apenas até a porta do escritório se fechar. Todas as terças-feiras, quando Helena saía para suas reuniões de caridade na cidade, o "acordo" com Rute era cobrado com juros.
Se com Helena era afeto, com Rute era guerra. Naquela terça, Rute não esperou. Ela o trancou no escritório e, sem dizer uma palavra, dominou o ambiente. O sexo entre eles era selvagem, carregado da tensão de décadas de segredos e da possessividade absoluta de Rute. Ela o possuía com uma ferocidade que beirava a punição; cravava as unhas em suas costas como se quisesse marcar permanentemente a sua propriedade.
— Você pode dormir no quarto dela, Marco — sussurrou Rute contra o pescoço dele, enquanto ele recuperava o fôlego — mas é aqui, no chão deste escritório, que você pertence. Eu conheço o monstro que você é. Ela só conhece o personagem que eu ajudei a criar.
Para Rute, aquele ritual era a prova de que, não importava o quanto ele beijasse Helena, o sangue dele ainda fervia sob o seu comando.
A Nova Peça no Tabuleiro: Diana Lancaster
A estabilidade desse triângulo, porém, foi abalada por uma visita inesperada. A fazenda precisava de uma nova auditoria jurídica para a exportação da safra recorde e para organizar a herança de Murilo. Foi assim que Diana Lancaster chegou.
Diana era uma advogada de renome, vinda de uma família de posses da capital. Ela não era uma menina como Sara; era uma mulher de trinta e poucos anos, decidida, com um brilho de inteligência provocadora. Sua elegância era inata, e ela não se deixava impressionar pelo dinheiro de Marco, pois já estava acostumada ao luxo desde o berço.
Ao ser recebida por Marco, Diana não baixou os olhos. Pelo contrário, manteve um sorriso enigmático que fez o escritor se sentir, pela primeira vez em muito tempo, intelectualmente desafiado.
O Olhar da Sentinela
Rute, observando da galeria superior enquanto Diana era apresentada à casa, sentiu um frio que não vinha do ar condicionado. Seu instinto de proteção disparou. Ela olhou para a advogada e viu algo muito mais perigoso que a beleza física de Sara ou a chantagem de Cassandra: viu uma mulher que Marco não conseguiria comprar nem intimidar.
Diferente de todas as outras, Diana era uma igual. Pela primeira vez, Rute sentiu que o seu controle sobre Marco poderia enfrentar uma ameaça que ela não sabia como eliminar com "acidentes" ou manipulações baratas. A chegada de Diana Lancaster era o prelúdio de uma nova tempestade.
Capítulo 45 — O Retorno da Herdeira
A faculdade de Economia na capital não trouxe apenas números para a vida de Sara; trouxe liberdade. Entre as aulas de macroeconomia e os cafés no campus, ela conheceu Vitor, um jovem arquiteto de família tradicional, vibrante e, acima de tudo, da sua idade. Pela primeira vez, Sara experimentava um toque que não vinha acompanhado de culpa ou poder, mas de descoberta.
A Reação de Rute e Marco
Quando a notícia do namoro chegou à fazenda, o efeito foi inesperadamente positivo. Para Rute, era o sinal de que seu plano de afastar Sara da cama de Marco funcionara perfeitamente. — "Agora ela tem um escudo", pensou Rute, satisfeita. — "Um homem jovem para distraí-la enquanto eu reino absoluta nos braços de Marco".
Para Marco Aurélio, a notícia trouxe um alívio quase espiritual. O peso do que ele fizera com a "menina" Sara diminuía ao vê-la como uma "mulher" com um par adequado. Ele sentia que sua dívida com a moralidade estava sendo paga.
O Domingo na Mansão
O domingo de sol foi escolhido para a apresentação oficial. Sara chegou no carro de Vitor, vestindo um linho impecável e óculos escuros de grife. Ela não era mais a copeira; era uma convidada de honra.
Ao recebê-la, Marco agiu com uma fidalguia surpreendente. Ele olhou para Sara com o mesmo distanciamento respeitoso que dedicava a Carine, a namorada de seu filho Arthur. Não havia rastro de luxúria em seus olhos, apenas a cortesia de um patriarca. — "Seja bem-vinda à sua casa, Sara. É um prazer receber seu amigo", disse ele, apertando a mão de Vitor com firmeza.
O Quarto de Hóspedes e as Conversas na Cozinha
O impacto da mudança foi sentido com força na área de serviço. Mabel e Alberto observavam a cena pelo batente da porta da cozinha.
— Olhe para ela, Alberto — sussurrou Mabel, enquanto ajeitava o avental. — Quem diria? A menina que limpava estas pratas agora se hospeda na suíte de hóspedes principal. Está com jeito de quem tem o mundo nas mãos. — O dinheiro muda tudo, Mabel — respondeu o motorista, balançando a cabeça. — Ela está rica, refinada. E o rapaz parece gostar dela de verdade. É estranho ver a Sara entrando pela porta da frente, mas, para falar a verdade, ela parece ter nascido para isso.
O Ritual de Murilo
À noite, antes do jantar, o pequeno Murilo cumpria o ritual que Rute lhe ensinara com rigor. O menino caminhava até a poltrona de Helena e, com as mãos postas, dizia: — Benção, madrinha. Helena, transbordando afeto, beijava a testa do menino. — Deus te abençoe, meu anjo.
Em seguida, ele se dirigia a Marco, que o esperava com o coração acelerado sob a máscara de padrinho. — Benção, padrinho. — Deus te crie, meu filho — respondia Marco, a voz quase falhando ao pronunciar a palavra "filho" disfarçada de proteção religiosa.
Rute, de pé no canto da sala, observava tudo com um sorriso de lado. Sara estava no andar de cima com seu namorado jovem, Helena estava iludida com o papel de madrinha, e Marco estava domado pela presença do herdeiro. Tudo estava em ordem, até que seus olhos cruzaram com os de Diana Lancaster, que observava o ritual de Murilo com um olhar analítico e silencioso. Diana ainda era o ponto de interrogação que Rute precisava apagar.
Capítulo 46 — O Batom e o Abismo
A presença de Diana Lancaster na fazenda deixou de ser uma visita técnica para se tornar parte da engrenagem da mansão. Contratada diretamente por Helena, que buscava profissionalizar os negócios da família, Diana tinha uma missão dupla: organizar o complexo RH dos cafezais e blindar juridicamente os direitos autorais e contratos editoriais dos livros de Marco Aurélio.
Solteira, aos 35 anos, Diana era a personificação da eficiência. Durante a semana, ocupava o escritório anexo, sempre de terninhos discretos e cabelos castanhos impecavelmente alinhados. Sua única marca de ousadia era o batom vermelho vibrante, que contrastava com sua postura técnica. Ela era uma sombra produtiva que, aos finais de semana, desaparecia rumo à capital, deixando um rastro de mistério.
O Convite de Helena
No primeiro sábado de sol forte após sua chegada, Helena, sentindo-se solitária apesar da casa cheia, insistiu para que Diana não partisse tão cedo. — Fique para o almoço, Diana. Aproveite a piscina com a gente. Você trabalha demais e mal aproveita o sol destas colinas — disse Helena, com a gentileza de quem realmente apreciava a companhia intelectual da advogada.
Diana aceitou. O que ninguém esperava era que a "advogada discreta" escondesse tamanha presença física sob o rigor dos terninhos.
O Despertar do Lobo e a Ira da Sentinela
Quando Diana surgiu na área da piscina, o silêncio caiu sobre a varanda. Ela usava um biquíni preto minimalista que revelava um corpo torneado e uma pele que raramente via o sol, mas que brilhava sob a luz do meio-dia. O batom vermelho continuava lá, como um desafio.
Marco Aurélio, que fingia ler um jornal, deixou as páginas baixarem lentamente. O instinto predatório, que ele tentava sufocar com a rotina de "bom padrinho", deu um solavanco. Como escritor de romances, ele sabia reconhecer uma protagonista quando via uma; Diana não era apenas uma funcionária, era um enigma de luxo.
Rute, posicionada na sombra da varanda com sua postura de governanta e assessora, sentiu o sangue ferver. Ela não servia as bebidas; quem o fazia era Dona Zilda, a senhora de setenta anos que Rute estrategicamente contratara para garantir que os olhos de Marco não tivessem onde repousar. Mas Diana havia quebrado o cerco. Rute viu o olhar de Marco. Viu a admiração de Helena. Viu a ameaça que o dinheiro não podia comprar.
O Aviso de Sara
Sara, que observava a cena de sua espreguiçadeira ao lado de Vitor, percebeu a mudança no ar. Ela conhecia o olhar de Marco — fora alvo dele. E conhecia a possessividade silenciosa da mãe.
Ao ver Rute entrar na copa para dar ordens a Dona Zilda, Sara a seguiu. — Mãe, pare um pouco — sussurrou Sara, fechando a porta. — O que foi, Sara? Preciso garantir que o almoço saia perfeito — retrucou Rute, os olhos fixos na janela que dava para a piscina.
Sara segurou o braço da mãe com firmeza. — Esqueça o buffet por um segundo. Olhe para aquela mulher. Ela não é como eu fui, e não é como a Cassandra. Ela tem o apoio da Helena, a inteligência que o Marco admira e uma classe que não se intimida. Tome cuidado, mãe. Se você tentar derrubá-la com as suas táticas habituais, pode acabar se expondo.
Rute olhou para a filha, surpresa com a perspicácia de Sara. O brilho predatório nos olhos da governanta não diminuiu. — Eu cuido desta casa, Sara. E cuido do Marco. Diana Lancaster é apenas uma página que eu ainda não virei. Mas nenhum problema é eterno nesta fazenda.
Lá fora, o som do mergulho de Diana na água cristalina ecoou como o tiro de partida. O "Exílio de Ouro" de Sara estava em paz, mas o reinado de Rute acabara de encontrar sua adversária mais refinada.
Capítulo 47 — O Mapa do Pecado
Enquanto o sol se punha sobre os cafezais, tingindo o horizonte de um vermelho quase sangrento, Rute permanecia em seu refúgio: o escritório de apoio. Ali, entre planilhas e contratos, ela não era a governanta solícita; era a soberana de um império construído sobre segredos.
A Anatomia de uma Ilusão
Rute permitiu-se um momento de análise fria. Ela olhou para um porta-retrato na sala de estar através da porta entreaberta. Lá estava Helena. Aos 49 anos, a patroa era uma afronta à passagem do tempo. Com seus 1,80m de altura, loira e com um corpo que desafiava qualquer jovem de 25 anos, Helena era o retrato da nobreza.
— Tão linda quanto cega — murmurou Rute para si mesma.
Helena, a ex-pedagoga que abandonou as salas de aula para ser o pilar moral da família, era a única peça pura naquele tabuleiro. Sua integridade era o que mantinha o nome da família limpo, mas era também o que a impedia de enxergar que Rute ocupava dois cargos — governanta e assessora — não por competência apenas, mas por ser a dona dos instintos mais baixos de seu marido.
O Lobo e o Escritor
Seus olhos então buscaram Marco Aurélio. Ele era o seu triunfo e seu maior desafio. O homem atlético de cabelos grisalhos era um mestre da dualidade. O mundo via o escritor de romances sensíveis e o fazendeiro de sorte que ganhou na Mega-Sena logo após se casar com Helena. Mas Rute conhecia o Marco de antes da fortuna.
Ela conhecia o predador sexual que se escondia atrás do status. Marco tinha um código: nunca tocava em mulheres comprometidas, mantendo uma imagem de "santo" para a esposa. Mas, diante de mulheres solteiras, ele era insaciável. Rute fora sua cúmplice e amante por décadas, alimentando o monstro para mantê-lo sob controle. Foi ela quem limpou o rastro de sangue quando Cassandra, a prima de Helena, tentou chantageá-lo e acabou em um "acidente" fatal. Foi ela quem facilitou o caminho para que a própria filha, Sara, ocupasse a cama do patrão aos 20 anos.
O Sangue do Plano
O nascimento de Murilo fora o xeque-mate de Rute. Ao garantir que Sara engravidasse, Rute plantou seu próprio sangue no testamento dos Lancaster/Aurélio. Agora, Sara vivia como rainha na capital, e o pequeno Murilo era criado sob as asas de Helena, a vítima que amava o fruto da traição sem saber de nada.
O Fator Diana
Mas o silêncio daquela tarde era interrompido pelo eco dos passos de Diana Lancaster. Rute sentiu um aperto no peito que raramente experimentava: o medo de perder o controle.
Diana não era uma menina deslumbrada como Sara, nem uma oportunista como Cassandra. Ela era uma igual. Quando Marco olhava para Diana, Rute não via apenas luxúria; via um desafio intelectual. E Marco, o predador de solteiras, estava diante de uma mulher livre, inteligente e poderosa.
— Você acha que o batom vermelho é sua única arma, Diana? — pensou Rute, fechando sua agenda com força. — Você entrou nesta casa pela mão da Helena, mas para sair dela, terá que passar pelas minhas.
Rute levantou-se, ajeitando a postura. O jogo de sedução entre o escritor e a advogada estava apenas começando, mas a "Sentinela da Fazenda" já estava preparando o veneno para a próxima página.
Capítulo 48 — O Triângulo de Fogo e o Olhar Proibido
A viagem de negócios para Belo Horizonte era a oportunidade perfeita para fechar os novos contratos de exportação. Marco Aurélio, como o rosto do império, e Diana Lancaster, como o cérebro jurídico, dividiam a suíte executiva de um hotel de luxo, embora em quartos separados. Rute, porém, jamais deixaria Marco totalmente solto; ela viajou sob o pretexto de secretariar a agenda do patrão, ocupando um quarto no mesmo andar.
A Noite de Luxo e Pecado
Após um jantar regado a vinhos caros, onde Diana e Marco trocaram olhares que iam muito além das cláusulas contratuais, a noite tomou um rumo perigoso. Diana, sentindo uma atração que tentava racionalizar, precisava de uma assinatura de última hora. Ao caminhar pelo corredor silencioso em direção ao quarto de Marco, ela percebeu a porta entreaberta.
O que ela viu através da fresta congelou seu sangue, mas não de horror, e sim de uma excitação súbita e proibida. Marco e Rute estavam entregues a um sexo selvagem e coreografado por anos de intimidade distorcida. Ali não havia o carinho que Marco dedicava à esposa Helena em suas noites na fazenda, nem a técnica de seus romances. Era cru. Rute, a governanta de 50 anos, dominava o corpo atlético de Marco com uma ferocidade possessiva, enquanto ele a possuía como um animal faminto.
Diana ficou paralisada. Ela viu o "santo" marido de Helena, o escritor respeitado, transformado em um predador insaciável nos braços da funcionária. O contraste entre a classe de Diana e a luxúria visceral de Rute mexeu com os sentidos da advogada. Ela recuou lentamente, voltando para seu quarto com o coração martelando contra as costelas. Naquela noite, sozinha entre os lençóis de seda do hotel, Diana rendeu-se ao próprio desejo. Suas mãos exploraram o próprio corpo enquanto a imagem de Marco e Rute queimava em sua mente. Ela não sentia pena de Helena; sentia inveja da entrega.
O Retorno e o Jogo de Máscaras
De volta à fazenda, o clima mudou. Diana agora carregava um segredo que lhe dava poder. Ela observava Helena — a deusa loira de 1,80m — com uma mistura de admiração e deboche silencioso. Como uma mulher tão perfeita podia ser tão cega?
Marco, sentindo que Diana estava "diferente", tentou manter a pose. Naquela tarde, no escritório, Diana decidiu que era hora de testar o terreno. Ela não usava apenas o batom vermelho; usava um perfume inebriante e uma postura provocadora.
— Marco, o contrato da safra tem uma brecha... — disse ela, inclinando-se sobre a mesa de carvalho de forma que o decote do seu terninho ficasse perigosamente perto dos olhos dele. — Uma brecha que só alguém com muita experiência saberia explorar.
Marco sentiu o golpe. O predador reconheceu a presa que, na verdade, queria ser caçada. Ele segurou a mão de Diana sobre o papel, os dedos grisalhos apertando a pele macia da advogada. O ar no escritório ficou pesado, elétrico.
O Flagra da Sentinela
O que eles não contavam era com a onipresença de Rute. Sem bater, a governanta entrou com uma bandeja de café — um pretexto raro, já que Dona Zilda é quem deveria fazê-lo. Rute estancou na porta. Seus olhos escuros e maléficos captaram instantaneamente a cena: a mão de Marco sobre a de Diana, o olhar de desafio da advogada e a respiração alterada do patrão.
O silêncio que se seguiu foi cortante como uma lâmina. Rute não recuou. Ela colocou a bandeja na mesa com uma força excessiva, fazendo as xícaras de porcelana tilintarem.
— O café está servido, Patrão. E os seus remédios também — disse Rute, a voz carregada de um veneno disfarçado de zelo. — Não queremos que o senhor se sobrecarregue com... detalhes desnecessários.
Diana sustentou o olhar de Rute. Pela primeira vez, a governanta viu que não estava lidando com uma amadora. Diana sorriu levemente, um sorriso que dizia: "Eu vi o que você faz no escuro, Rute. E eu quero mais."
CAPÍTULO 49- O Labirinto dos Desejos
A noite na fazenda tinha o peso do silêncio, mas entre quatro paredes, as tensões explodiam.
A Redenção de Helena
Sentindo o cerco de Rute e a provocação de Diana, Marco Aurélio buscou o único porto que ainda considerava seguro: o quarto principal. Helena, com sua estátua de 1,80m e a pele alva que brilhava sob a luz do abajur, recebeu o marido com a doçura de sempre. Marco a beijou com uma urgência que ela interpretou como paixão renovada. Entre lençóis de seda, eles se entregaram a uma cena de amor intensa. Para Helena, era a reafirmação de um casamento sólido; para Marco, era o suor da culpa tentando lavar as imagens de Rute e Diana de sua mente. Ele a possuía com vigor, louvando o corpo esculpido da esposa, enquanto ela, em seus 49 anos de plenitude, mostrava por que nenhuma menina de 25 poderia ocupar seu lugar no coração — ou na cama — do marido.
A Confissão de Sara
No dia seguinte, um carro luxuoso estacionou na frente da mansão. Sara chegara sem avisar, com os olhos vermelhos e a bagagem pronta. No quarto de serviço, longe dos ouvidos de Helena, ela desabafou com Rute.
— Acabou, mãe. O Vitor... ele é gay. Ele nunca me quis de verdade. Foram meses de um teatro frio. Rute ouviu em silêncio enquanto a filha soluçava. — Sabe o que é pior? — continuou Sara, limpando as lágrimas. — Eu comparava ele o tempo todo. Homem de verdade, com fogo, com pegada... homem de verdade é o Marco Aurélio. Eu só não tento voltar para ele por respeito a você, porque sei que ele é seu.
Rute, em um gesto raríssimo de ternura, abraçou a filha. Ela não sentiu ciúmes; sentiu orgulho. Ela reconhecia em Sara o mesmo sangue que a fizera se escravizar ao desejo de Marco por décadas. — Não se culpe, minha filha. O Marco é uma força da natureza. É difícil para qualquer outro homem chegar aos pés dele. Fique aqui. O triplex é seu, mas o seu lugar é perto de mim e do Murilo.
O Flagrante no Banheiro
Naquela tarde, o calor era sufocante. Diana Lancaster estava no escritório principal, organizando os arquivos de direitos autorais, quando sentiu um mal-estar e entrou no banheiro privativo anexo à sala de Marco.
Enquanto Diana retocava o batom vermelho, ouviu a porta do escritório se abrir. Eram Marco e Sara. — Ele te magoou, não foi? — a voz de Marco era um rosnado baixo, carregado de uma autoridade que fez Diana congelar atrás da porta. — Ele não era homem para mim, Marco. Você sabe disso — respondeu Sara, a voz trêmula de desejo.
Diana, observando pela fresta da porta do banheiro, viu o que jamais imaginou. Sara contou sobre a decepção com Vitor, e a reação de Marco foi puramente instintiva. Ele a prensou contra a mesa de carvalho, a mesma mesa onde Helena assinava cheques de caridade e Diana revisava contratos.
O sexo foi imediato, depravado e barulhento. Diana assistiu a tudo, hipnotizada. Viu a filha da governanta entregar-se ao homem que era pai de seu filho e amante de sua mãe. A "santidade" daquela família era uma piada de mau gosto, e Diana, em vez de sentir nojo, sentiu uma pulsação violenta entre as pernas. Ela estava presenciando o auge da corrupção moral de Marco, e aquilo a atraía como um imã.
Ela esperou o silêncio voltar para sair do banheiro. Seus olhos encontraram o reflexo no espelho: o batom vermelho estava intacto, mas seu olhar agora era o de quem sabia que tinha o destino de todos naquela casa nas mãos.
Capítulo 50 — O Pacto das Sombras
O escritório de Marco Aurélio era o epicentro de uma tempestade invisível. Após o ato impulsivo sobre a mesa de carvalho, o silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pela respiração ofegante de Sara e o som de Marco ajeitando a camisa.
O Segredo Entre Amantes
Sara olhou para Marco, não mais como a menina deslumbrada que chegou à fazenda aos 20 anos, mas como uma mulher que entendia as engrenagens de dor daquela casa. — Marco, isso aqui... precisa ficar entre nós. Eu não quero machucar a minha mãe — disse ela, ajeitando o cabelo com as mãos trêmulas. Marco franziu o cenho, surpreso. — A Rute? Mas ela sempre soube de nós, Sara. Ela até facilitou... — Ela soube do que aconteceu no passado porque ela planejou. Mas agora é diferente. Eu sei que vocês dois nunca pararam. Eu sei que ela é sua amante há décadas, que ela é a dona dessa casa nos bastidores. Se ela souber que eu voltei para a sua cama por desejo próprio, ela vai se sentir traída como mulher, e não apenas como mãe.
Marco segurou o rosto de Sara. — Você tem razão. Helena não pode saber por causa da paz desta casa, e Rute não pode saber por causa do nosso equilíbrio. O que eles não sabiam é que Diana Lancaster, escondida no banheiro anexo, bebia cada palavra daquela confissão, deliciando-se com a complexidade da depravação da família.
A Estratégia Maléfica de Rute
Enquanto isso, na despensa da mansão, Rute revisava o estoque, mas sua mente estava na piscina, onde vira Diana e Marco trocando olhares. O ódio que sentia pela advogada era maior do que qualquer moralidade.
Diferente do que Sara pensava, Rute não estava cega. Ela suspeitava do movimento no escritório. Mas, em sua mente doentia, ela via uma oportunidade. "Se o Marco precisa de carne nova para não se perder com essa advogada, que seja o sangue do meu sangue", pensou Rute, com um sorriso sombrio.
Para Rute, Sara era sua extensão. Se Sara estivesse na cama de Marco, o império continuava em família. Diana era a "intrusa" que poderia levar Marco a tomar decisões racionais, a mudar testamentos, a profissionalizar o que Rute preferia manter nas sombras. Rute preferia dividir o homem que amava com a própria filha do que perdê-lo para a inteligência de Diana.
O Confronto Inevitável
A porta do escritório se abriu e Sara saiu, cruzando com a mãe no corredor. Rute apenas olhou para o batom levemente borrado da filha e para o brilho em seus olhos. Ela não gritou. Pelo contrário, aproximou-se e ajeitou a gola da blusa de Sara. — O Marco é um homem difícil de resistir, não é, minha filha? — sussurrou Rute, com uma voz que misturava carinho materno e cumplicidade criminosa. — Não se preocupe comigo. Preocupe-se com aquela advogada. Mantenha-o ocupado. Mantenha-o... faminto por você. Enquanto ele estiver em suas mãos, ele estará nas minhas.
Sara empalideceu, percebendo que a mãe era ainda mais sombria do que ela imaginava. Rute deu um tapinha leve no rosto da filha e seguiu para o escritório, onde Diana já havia saído do banheiro e encarava Marco com um sorriso vitorioso.
O jogo agora tinha três lados, e todos eles eram letais.
Capítulo 51 — A Queda da Esfinge
O escritório montado próximo aos cafezais, a quilômetros da mansão principal, era o refúgio onde Marco Aurélio tratava da exportação e de seus manuscritos mais densos. O isolamento era absoluto, quebrado apenas pelo som do vento nas folhas de café. Diana Lancaster o esperava ali, mas seu olhar não estava nos contratos.
O Abismo da Consciência
Diana nunca fora uma mulher de jogos baixos. Educada em princípios rígidos, sua carreira jurídica era pautada pela ética. No entanto, o que ela testemunhara naquela viagem de negócios na capital — o flagra de Marco com a governanta Rute através da porta entreaberta do hotel — agira como um ácido em seu caráter. Ver o escritor respeitado e a governanta entregues a um ato tão cru e visceral, e logo após presenciar a dinâmica depravada dele com Sara na fazenda, destruiu a bússola moral de Diana.
Se aquele império era um lodaçal onde as mulheres se perdiam pelo desejo daquele homem, por que ela deveria ser a única a manter a integridade? Naquela noite no hotel, Diana havia cruzado uma linha interna ao se masturbar pensando no que vira. O desejo que sentia por Marco agora era uma curiosidade mórbida e avassaladora.
A Sedução Primitiva
Quando Marco entrou no escritório isolado, encontrou Diana sentada em sua mesa. Ela usava um vestido de seda verde-esmeralda que exalava uma elegância perigosa. — Precisamos fechar os relatórios da safra, Marco — disse ela, a voz firme, mas com um brilho febril nos olhos que ele nunca vira.
Marco aproximou-se, sentindo a eletricidade. Diana, mantendo o contato visual de forma desafiadora, cruzou e descruzou as pernas lentamente. O movimento revelou o que Marco, em seu instinto de predador, captou no mesmo instante: ela não usava nada por baixo. A visão da nudez sob a seda cara foi o gatilho que ele precisava.
A "mulher séria e direita" deu lugar a uma fêmea movida por uma revolta sensual. Diana levantou-se e, antes que Marco pudesse proferir uma palavra de seu repertório de escritor, ela o calou com um beijo faminto.
O Relato da Carne
O que se seguiu no escritório foi o encontro mais quente e inesperado da vida de Marco. Diana partiu para o ataque, arrancando a camisa dele com uma urgência que o surpreendeu. Ela queria sentir a pele do homem que subvertia a vontade de todas ao seu redor. No chão de madeira, entre pastas de contratos e amostras de café, eles se entregaram a um sexo selvagem.
Diferente da técnica de Rute ou da juventude de Sara, Diana trouxe uma intensidade intelectual misturada à luxúria pura. Ela se entregou como um animal, buscando entender o que Marco tinha de tão poderoso. O suor misturava-se ao aroma forte do café que vinha dos galpões próximos. Foi uma explosão de fluidos e poder, onde Diana, pela primeira vez, deixou de ser a advogada para ser a cúmplice do pecado.
O Retorno às Máscaras
Minutos depois, o silêncio retornou. O único som era o da seda do vestido de Diana voltando ao lugar. A transformação foi assustadora. Ela caminhou até o espelho, ajeitou o cabelo e retocou o batom vermelho com mãos agora impecavelmente calmas.
— Sinto muito por isso, Marco — disse ela, voltando à postura profissional, sem um traço da mulher que acabara de se entregar no chão. — Foi um erro crasso. Um lapso de julgamento que não se repetirá. Vamos focar nos números?
Marco, ainda tentando recuperar o fôlego e chocado com a frieza dela, limpou o rosto e assentiu. — Você tem razão, Diana... a carne é fraca — respondeu ele, usando sua desculpa de sempre. — Mas os negócios não podem parar.
Sentaram-se um diante do outro, abrindo os notebooks como se a luxúria nunca tivesse passado por ali. Mas a semente da destruição estava plantada: Diana agora sabia o gosto do fruto proibido e Marco ganhara uma nova e perigosa obsessão.
Capítulo 52 — O Tabuleiro das Ausências
A manhã na Fazenda Império amanheceu sob uma neblina densa, como se a própria natureza tentasse ocultar as tramas que se desenrolavam sob os telhados de telha colonial. Helena, com a elegância que o tempo apenas refinou, organizava as malas com uma determinação incomum. Ela não iria apenas para a capital; levaria Sara e o pequeno Murilo para a mansão de Dona Adelaide, a matriarca e mãe de Marco Aurélio.
A Partida Estratégica
— Sara, querida, vai ser bom para o Murilo respirar os ares da capital — disse Helena, enquanto observava o afilhado correr pelo jardim. — E Dona Adelaide não para de perguntar pelo "menino da fazenda". Ela sente falta de uma criança naquela casa imensa.
Sara assentiu, embora o coração estivesse em descompasso. O convite de Helena era irrecusável, mas entrar na casa da mãe de Marco era como caminhar sobre brasas. Ela não imaginava que a "doce" Helena, ao fechar a mala, já havia plantado sua própria sentinela.
Antes de entrar no carro, Helena desviou-se de Rute e foi até a cozinha. Encontrou Mabel, a cozinheira de confiança. — Mabel — Helena segurou as mãos da mulher, o olhar azul penetrante e lúcido. — Vou me ausentar por uns dias, mas meus ouvidos ficam aqui. Se houver qualquer... movimento atípico, qualquer visita noturna ou mudança no tom desta casa, ligue para o meu celular pessoal. Não fale com Rute sobre isso. Entendido?
O choque nos olhos de Mabel foi a confirmação de que a patroa não era a esfinge cega que todos supunham. Helena partiu, levando consigo a peça que Marco e Rute usavam para manter o equilíbrio: Sara e o pequeno Murilo.
O Jantar das Sombras
Com a casa vazia de sua "rainha" legítima, a hierarquia da fazenda sofreu uma mutação instantânea. À noite, a mesa de jantar foi posta apenas para dois: Marco Aurélio e a advogada Diana Lancaster. Rute, agindo como a dona do recinto e sentindo o perigo da "intrusa", observava cada gesto de Diana da copa.
Rute ainda não sabia do encontro tórrido no escritório isolado, mas suspeitava da audácia da advogada. Para garantir que a noite de Marco pertencesse apenas a ela, serviu um risoto de açafrão impecável. Para Diana, reservou uma taça de vinho específica, cujas notas de carvalho escondiam o amargor sutil de um sedativo potente.
— Um brinde ao sucesso dos novos contratos, Dra. Diana — disse Rute, com um sorriso que não chegava aos olhos. Diana, sentindo-se vitoriosa após o que vivera com Marco, bebeu com confiança. Não demorou para que as pálpebras da advogada pesassem. Ela se desculpou, cambaleante, recolhendo-se ao seu quarto bem antes das dez da noite.
O Domínio de Rute
Com Diana fora do tabuleiro e Helena a quilômetros de distância, Rute finalmente retomou seu trono. No quarto de Marco, não houve preliminares de romance. Houve posse. — Ela é jovem, Marco, mas ela dorme. Eu sou quem te mantém acordado — sussurrou Rute, enquanto se entregava a ele com a ferocidade de quem marca território. A noite foi longa, regada ao suor de uma intimidade que Diana jamais entenderia e que Helena preferia ignorar.
O Espelho da Genética
Enquanto isso, em Belo Horizonte, na imponente mansão de Dona Adelaide, o jantar de recepção transcorria sob a luz de cristais. A velha matriarca não tirava o foco do pequeno Murilo.
— É impressionante... — comentou Dona Adelaide, analisando o rosto do menino de cinco anos. — Helena, minha querida, olhe bem para esse menino. Se eu não soubesse que ele é filho da sua protegida, eu juraria que é o meu Marco Aurélio voltando no tempo. Os olhos, o jeito de inclinar a cabeça... é idêntico.
O silêncio caiu sobre a mesa como um véu de chumbo. A irmã de Marco, presente no jantar, aproximou-se da criança, fascinada. — Não é só a aparência, mãe. É a marca de nascença no pescoço, exatamente onde o Marco tem. É a genética dos nossos, sem tirar nem pôr.
Pela primeira vez em anos, o sorriso de Helena vacilou. Ela olhou para Murilo e, em seguida, para Sara. Um frio súbito percorreu sua espinha. Por um segundo, as peças de um quebra-cabeça que ela nunca quis montar começaram a flutuar diante de seus olhos. A dúvida, venenosa e sutil, instalou-se no peito da esposa.
Sara empalideceu, sentindo o sangue fugir do rosto. Suas mãos tremeram sob o guardanapo de linho. No entanto, Helena respirou fundo e forçou a máscara de serenidade de volta ao lugar. O amor que sentia pelo afilhado e o carinho por Sara, a quem tratava como filha, lutaram contra a evidência.
— Bobagem de vocês — disse Helena, com uma voz firme, encerrando o assunto. — Murilo é afilhado de Marco e convive com ele desde que nasceu; é natural que acabe herdando trejeitos. Genética de convivência, se é que isso existe.
Ela estendeu a mão e acariciou o rosto de Sara com ternura. — Não se assuste, Sara. Elas estão apenas com saudades do Marco e vendo ele em todo lugar.
Helena desconversou, voltando a servir o vinho. Mas, enquanto levava a taça aos lábios, seu olhar voltou a repousar sobre Murilo. A dúvida fora plantada e, embora ela a estivesse enterrando com camadas de carinho e negação, a semente da desconfiança agora repousava em solo fértil.
Capítulo 53 — O Despertar da Serpente
O sol entrou pelas frestas da cortina de seda do quarto de hóspedes, atingindo os olhos de Diana Lancaster como uma lâmina. Ela sentiu a cabeça latejar, um peso seco na nuca que não condizia com as duas taças de vinho que tomara na noite anterior.
A Suspeita da Jurista
Diana sentou-se na cama, tentando reconstruir as últimas horas. Lembrava-se do risoto, do brinde com Rute... e depois, um vazio absoluto. Uma lacuna de memória que sua mente treinada rejeitava. Ela olhou para o relógio: passava das dez da manhã. Perdera o horário da reunião matinal com os contadores da fazenda.
— Droga... — sussurrou, levantando-se e sentindo uma leve tontura.
Ao caminhar até o banheiro, Diana parou diante do espelho. O batom ainda estava lá, levemente borrado. Diana não era ingênua. Como advogada criminalista, ela conhecia os efeitos de substâncias sedativas. O "apagão" fora conveniente demais para quem estava sob o teto da governanta que tudo vigiava. Alguém a queria fora de combate naquela noite.
A Dúvida de Rute
Enquanto isso, no andar de baixo, Rute mantinha sua postura impecável de assessora e governanta. Sentada à mesa da copa, ela apenas observava os empregados. Há quase vinte anos, Marco Aurélio a trouxera para o centro de seu império para ser seu braço direito e sua amante mais leal.
Rute entrou no escritório de Marco para organizar as correspondências. Ao passar pela poltrona de couro, o cheiro do perfume de Diana a atingiu. Ela aproximou-se da mesa de carvalho e encontrou um fio de cabelo longo e castanho-claro preso ao tinteiro.
Ela segurou o fio entre os dedos, avaliando as possibilidades com a frieza de uma estrategista. Será que ele a possuiu aqui? Ou, o que seria mais patético: Será que a doutora está tão obcecada que entra aqui às escondidas para cheirar as roupas dele? Rute conhecia bem o efeito que Marco causava. Se Diana estivesse apenas apaixonada, era uma peça fácil de manipular. Mas se ela estivesse tentando usar o sexo para subir na hierarquia, o destino dela já estava traçado.
O Fantasma da Chantagista
Rute girou a caneta de ouro de Marco, e a imagem de Cassandra, a prima contadora de Helena, surgiu em sua mente como um lembrete necessário.
Anos atrás, Cassandra tentara o golpe mais baixo de todos. Como contadora, ela descobriu brechas nas contas, mas em vez de profissionalismo, usou isso para a extorsão. Ela chantageava Marco, exigindo aumentos de salário absurdos e forçando-o a ir para a cama com ela sob a ameaça de denunciar as fraudes à Receita e à própria Helena. Rute não suportou ver o seu homem ser usado. O "acidente" planejado na curva da serra foi a forma que Rute encontrou de limpar a sujeira e proteger o império. O asfalto calou a chantagem de Cassandra para sempre.
"Diana Lancaster é muito mais refinada que a contadora", pensou Rute. "Mas se ela tentar o mesmo caminho da extorsão ou do domínio sobre o Marco, terá o mesmo fim."
O Confronto de Máscaras
Diana desceu as escadas minutos depois, impecável em seu terno de linho. Ela encontrou Rute no hall.
— Bom dia, Rute. O vinho de ontem era excelente... mas talvez um pouco forte demais para quem precisa manter a mente clara — disse Diana, fixando os olhos nos da governanta com um desafio silencioso.
Rute sustentou o olhar com uma calma glacial. — A senhora trabalha com leis, Dra. Diana, mas aqui a lei é a minha palavra. Às vezes, o excesso de admiração pelo patrão cansa a mente e o corpo. Tome cuidado para não se perder nos seus próprios devaneios... Cassandra também achava que podia ter tudo o que queria do Marco através de pressões e desejos, e acabou perdendo o controle do próprio destino em uma curva mal calculada.
O aviso foi lançado. Rute deu as costas, deixando Diana sozinha com a percepção de que a história daquela fazenda estava escrita com o sangue de quem tentou desafiar a mulher que realmente governava Marco Aurélio.
Capítulo 54 — Café com a Memória
Enquanto a mansão ainda ressoava com o silêncio tenso deixado por Rute, Diana Lancaster buscou refúgio no único lugar onde o aroma do café parecia genuinamente acolhedor: a cozinha. Ela precisava de mais do que cafeína; precisava de respostas.
Um Refúgio de Verdades
Mabel, a cozinheira, retirava uma fornada de biscoitos de nata enquanto Alberto, seu marido e motorista da família há décadas, tomava sua caneca matinal sentado à mesa de madeira rústica.
— Bom dia, Dra. Diana. A senhora está pálida... — comentou Mabel, com a solicitude de quem cuida de todos. — Aceita um café fresco? Este aqui não tem as "sofisticações" que a Dona Rute gosta, mas desperta até pensamento morto.
— É exatamente o que eu preciso, Mabel — Diana sorriu, sentando-se à mesa com uma informalidade que raramente demonstrava. — O dia começou pesado.
Sondando o Passado
Diana deu o primeiro gole, sentindo o calor do líquido, e olhou para Alberto. O motorista conhecia cada palmo daquelas estradas e, possivelmente, cada segredo mecânico da frota.
— Alberto, eu estava conversando com a Dona Rute agora pouco e ela mencionou uma tragédia antiga... algo sobre uma contadora chamada Cassandra, prima da Dona Helena. Fiquei impressionada, ela parecia ser tão jovem.
Alberto suspirou, balançando a cabeça, enquanto Mabel se benzia. — Vixe, doutora... aquilo foi uma coisa pavorosa — disse Mabel, encostando-se no balcão. — A Dona Cassandra era moça de fibra, trabalhava aqui na mansão, dormia no quarto de hóspedes do andar de cima. Mas era uma alma atormentada, sabe? Vivia em pé de guerra com o patrão, sempre discutindo alto pelos cantos.
— Foi na Curva do Diabo, na descida da Serra Velha — completou Alberto, com o olhar perdido na caneca. — Eu fui um dos primeiros a chegar lá com a polícia. O carro dela passou direto, nem tentou curvar. Caiu no precipício e virou um amontoado de ferro.
A Mecânica do "Acaso"
Diana inclinou-se para frente, a voz baixa e calma. — E o que disseram na época? Foi erro humano?
— O perito ficou na dúvida — Alberto abaixou o tom de voz, por puro instinto. — Uns disseram que ela teve um mal súbito, um ataque do coração pela raiva da briga que teve com o Seu Marco naquela noite. Mas o comentário que corria entre os mecânicos da cidade era outro... Diziam que o fluido do freio tinha sumido, ou que os cabos tinham se entregado de um jeito que carro nenhum faz sozinho.
Mabel interrompeu, cruzando os braços. — Mas quem ia mexer no carro da moça, Alberto? O Seu Marco estava arrasado, e a Dona Rute foi quem mais ajudou a organizar o velório e a acalmar a Dona Helena, que não parava de chorar.
O Gosto Amargo da Suspeita
Diana ouvia cada palavra, processando a informação com seu cérebro jurídico. Chantagem, brigas constantes, uma contadora que morre sem freios justamente quando o conflito com o patrão atinge o ápice. E Rute, a "caridosa" governanta, estava lá para recolher os cacos e garantir que o silêncio fosse a nota dominante.
— Uma fatalidade horrível — disse Diana, forçando um tom de lamentação enquanto seu estômago dava voltas. — Obrigada pelo café, Mabel. Me ajudou a... clarear as ideias.
Ao sair da cozinha, Diana cruzou o corredor em direção ao seu quarto. Ela já não pensava mais em relatórios de safra ou contratos de exportação. O que Alberto chamava de "Curva do Diabo", Diana agora via como a prova de que Rute não era apenas uma amante ciumenta, mas uma mulher que eliminava obstáculos com a precisão de um carrasco.
A advogada sabia que, se não jogasse com extrema cautela, a próxima "falha mecânica" ou "mal súbito" teria o seu nome.
Capítulo 55 — Máscaras e Mergulhos
A Inquisição de Veludo
No shopping em Belo Horizonte, o som das risadas de Murilo no parquinho eletrônico servia de trilha sonora para um interrogatório disfarçado. Helena e Sara observavam o menino de longe, mas o foco da esposa de Marco Aurélio estava em outro lugar.
— Ele está tão grande, Sara... — comentou Helena, tomando um gole de seu café gelado com uma elegância imperturbável. — Olhando para ele assim, tão cheio de vida, me pergunto: por onde anda o pai desse menino? É estranho que um homem nunca tenha tido a curiosidade de procurar um filho tão especial, mesmo depois que vocês se mudaram para a fazenda.
Sara sentiu um frio na espinha, mas a voz de Rute ecoou em sua mente como um roteiro decorado exaustivamente antes da viagem. — Foi um namorado da faculdade, Dona Helena. Um rapaz sem responsabilidade nenhuma. Quando soube da gravidez, sumiu no mundo. Eu nem faço questão que ele apareça; Murilo tem a mim, à minha mãe e todo o carinho que recebe da senhora e do seu Marco na fazenda.
Helena sorriu, mas o brilho em seus olhos era de pura observação. Ela notou o ligeiro tremor nas mãos de Sara ao mencionar o nome de Marco. A resposta era perfeita demais, ensaiada demais para uma jovem daquela idade. Helena guardou a dúvida no fundo de sua mente, como uma peça de evidência valiosa. "Namorado de faculdade...", pensou ela. "Com os olhos e os trejeitos de um fazendeiro de cinquenta anos."
A Obsessão de Diana
Enquanto isso, na Fazenda Império, o medo e o desejo travavam uma batalha no corpo de Diana Lancaster. A conversa na cozinha com Alberto e Mabel sobre a morte trágica de Cassandra a deixara em alerta máximo, mas o perigo parecia atuar nela como um afrodisíaco potente. Ela não conseguia tirar da cabeça o toque de Marco. O medo de Rute era real, mas a necessidade de dominar o homem que a governanta acreditava possuir era, naquele momento, incontrolável.
Às duas da manhã, a mansão estava imersa em um silêncio sepulcral. Diana saiu de seu quarto, atravessando os corredores escuros até a área da piscina. Sob as luzes subaquáticas que tornavam a água um cristal azul vibrante, ela despiu o roupão de seda. Estava nua. O ar gelado da noite arrepiou sua pele antes de ela mergulhar silenciosamente na água morna.
O Encontro na Água
Ela nadava em braçadas lentas quando sentiu uma presença. Marco Aurélio estava na borda, apenas de roupão, observando o corpo da advogada deslizar sob a superfície como uma sereia proibida e perigosa. Sem dizer uma palavra, ele deixou o roupão cair e mergulhou.
O encontro sob a água foi imediato e faminto. Marco a prensou contra a parede de azulejos, onde a iluminação criava sombras dramáticas em seus corpos molhados.
— Você está brincando com o fogo, Diana — sussurrou ele, a voz rouca, enquanto suas mãos exploravam cada curva dela. — Eu prefiro o incêndio ao tédio, Marco — respondeu ela, puxando-o para um beijo que misturava a urgência do desejo com o gosto do pecado.
O que se seguiu foi uma entrega absoluta aos instintos. Marco a possuiu ali mesmo, na borda da piscina, ignorando qualquer risco. Foi um ato de domínio e luxúria selvagem, onde ele explorou Diana em todas as suas facetas — oral, vaginal e anal — levando a advogada a uma loucura sensorial que ela jamais experimentara. No silêncio da madrugada, os gemidos abafados pela água e o som dos corpos se chocando eram o único som que desafiava a ordem do império.
O Olhar das Sombras e o Despertar da Fúria
No andar superior, atrás da cortina pesada de seu quarto, Rute observava a cena. A iluminação da piscina agia como um refletor, expondo cada movimento e cada entrega de Marco àquela mulher. O que Rute sentiu não foi apenas ciúme; foi uma mutilação na alma.
Ela recuou da janela, cambaleante, e desabou no tapete. O silêncio do quarto foi quebrado pelo som seco de suas mãos batendo repetidamente contra o chão em um acesso de dor e ódio.
— Por que...? — ela sussurrou entre dentes, a voz embargada por lágrimas de puro fel. — Por que fui me apaixonar por um cafajeste? Vinte anos limpando os rastros dele... sendo a sombra que o sustenta... para ele me trocar por uma carcaça nova?
Ela bateu com os punhos fechados no piso, uma, duas, três vezes. A dor física era nada perto do rasgo em seu peito. — Santa do pau oco... — sibilou Rute, pensando na postura profissional de Diana. — Fingida! Se acha inteligente... mas é só mais uma cadela no cio no território que é MEU. Você vai me pagar, Diana. Assim como a Cassandra... você vai descobrir que o preço de entrar na cama do Marco é a morte.
Rute limpou o rosto bruscamente. A fragilidade deu lugar a uma rigidez mortal. Ela não diria nada. Não confrontaria Marco, nem gritaria. Ela guardaria aquele segredo como uma arma carregada, esperando o momento exato de dar o bote final.
Capítulo 56 — O Brilho nos Olhos do Patriarca
A manhã na Fazenda Império começou com uma aparente normalidade que mascarava a tempestade de desejos da madrugada. Na copa, o aroma do café recém-passado por Mabel preenchia o ar, trazendo uma sensação de conforto que contrastava com os segredos daquela casa. Marco Aurélio, impecável em seu traje de montaria, tomava café ao lado de Diana, enquanto Rute, com sua máscara de eficiência e autoridade, organizava os documentos do dia.
O Patrão de Ouro e a Origem do Império
— Alberto — chamou Marco, vendo o motorista entrar na copa. — Prepare o carro. Vou buscar a Helena, a Sara e o pequeno Murilo pessoalmente. Aproveitarei para almoçar com minha mãe e matar a saudade dela.
Mabel sorriu atrás do balcão, observando o patrão com admiração. Ela e Alberto nutriam uma gratidão profunda por Marco Aurélio. — O senhor sempre tão atencioso, Seu Marco. Nunca esquecemos aquela viagem ao Rio de Janeiro que o senhor nos deu com tudo pago. Foi um sonho para nós.
Marco sorriu com sinceridade. Ele era um homem de gestos largos e coração enorme para com os seus; um cafajeste e traidor inveterado, sim, mas um homem bom para os que o cercavam. Anos atrás, após ganhar uma fortuna na Mega-Sena, ele comprou a fazenda de café, adquiriu uma editora própria para publicar os seus livros e contratou Rute como copeira. Rute, que vinha de uma roça pequena e sem estudos, tornou-se sua amante, e Marco a transformou em sua assessora e governanta, confiando-lhe a gestão da mansão onde vive com Helena.
O Exílio e o Triplex
Marco sempre foi um provedor. Ele incentivou e pagou a faculdade de Administração para Sara, querendo que ela tivesse um futuro. Quando Sara engravidou dele e acabou por enjoar da relação, o próprio Marco a incentivou a buscar um namorado da sua idade, querendo vê-la formar uma família longe da sua própria teia de depravações.
Atendendo ao pedido de Rute, Marco deu o que ela exigiu: um triplex de luxo na capital em nome de Sara. Ela viveu lá "infurnada" durante toda a gestação para que ninguém na fazenda visse a barriga crescendo e para esconder o segredo de Helena. Foi lá que Vitor surgiu naturalmente na vida de Sara, com o consentimento de Marco. Porém, o plano de felicidade falhou quando Sara descobriu que Vitor era gay e a evitava. Com o fim do namoro e o triplex vazio, Sara preferiu voltar para a fazenda, vivendo 24 horas sob a vigilância da mãe e a proteção de Marco.
O Reencontro na Capital
Horas depois, o carro de Marco estacionou diante da mansão de Dona Adelaide. Assim que ele desceu, Helena correu ao seu encontro com um sorriso radiante. O beijo que trocaram foi carregado de um carinho real; apesar de tudo, Marco amava a estabilidade que Helena trazia à sua vida.
Dona Adelaide apareceu na porta, segurando Murilo pela mão. A velha matriarca não perdeu tempo: — Veja só, Marco! Olhe bem para esse garoto. Ele é a sua cópia fiel.
Nesse momento, os olhos de Marco Aurélio brilharam. Ele já havia registrado o menino em segredo e sabia perfeitamente que Murilo era seu sangue. Seu filho legítimo, Arthur, já era adulto e morava longe, deixando um vazio que o pequeno Murilo preenchia com perfeição.
— Padrinho! — gritou Murilo, correndo para os braços de Marco.
Marco o ergueu no ar, rindo com vontade. Sara observava a cena em silêncio, enquanto Helena, embora feliz, sentia a dúvida crescer. A conexão entre Marco e o menino era visceral, uma verdade que o luxo e as mentiras de Rute já não conseguiam mais ocultar totalmente.
Capítulo 57 — O Banquete das Máscaras
O entardecer na Fazenda Império trouxe o som do carro de Marco Aurélio subindo a alameda de cascalho. Da varanda, Diana Lancaster observava a chegada, sentindo o peso do olhar de Rute, que já circulava pela casa organizando tudo com uma frieza renovada.
O Retorno ao Ninho
Assim que entraram na mansão, a alegria de Murilo ecoou pelos corredores. Helena distribuía sorrisos e cumprimentava os empregados, mas seus olhos de esposa buscavam por sinais de qualquer desordem ocorrida em sua ausência.
— Rute, o jantar precisa ser especial hoje — disse Helena, entregando o chapéu à governanta. — Onde está a Dra. Diana? Quero saber como andam os relatórios.
Diana desceu as escadas naquele momento, impecável, o que incomodou Sara imediatamente. Enquanto isso, na sala de jantar, a nova copeira se movimentava com agilidade. Rute, em seu ciúme doentio, fizera questão de contratar essa senhora para o lugar de Sara quando ela foi para a capital — uma mulher da terceira idade, muito eficiente, mas sem nenhum atrativo que pudesse despertar os olhos famintos de Marco Aurélio.
O Jantar de Espinhos
À mesa, Marco ocupava a cabeceira, com Helena à sua direita e Diana à esquerda. Sara sentou-se ao lado da mãe, Rute, que permanecia em pé, supervisionando o serviço da nova copeira e de Mabel. O pequeno Murilo, sentado próximo a Marco, não parava de falar.
— O padrinho disse que vai me dar um cavalo de verdade quando eu fizer seis anos, não é, padrinho? — perguntou o menino.
Marco sorriu, tocando a cabeça do filho que ele, em segredo, já havia registrado como seu. — Um cavalo árabe, Murilo. O melhor da região.
Helena observava tudo. A cada gesto de Marco com o menino, a história do "namoradinho da faculdade" parecia cair por terra. Ela olhou para Sara, que comia de cabeça baixa. Sara sentia-se diminuída pela presença da advogada e pela vigilância sufocante da mãe.
Faíscas sob o Cristal
Diana, percebendo o silêncio de Rute, resolveu cutucar a ferida. — Rute, o tempero está impecável. Lembra muito o sabor do risoto de ontem à noite... aquele que me deu tanto sono logo depois do primeiro brinde.
A nova copeira parou por um segundo com a bandeja, mas Rute nem piscou. O comentário de Diana era uma provocação direta sobre o sedativo. — Que bom que aprecia, Dra. Diana. Minhas receitas são feitas para serem inesquecíveis. Umas nutrem, outras... acalmam — respondeu Rute, com uma voz gélida.
Marco sentiu a tensão e mudou de assunto, mas o ciúme de Sara e a fúria de Rute já haviam atingido o ponto de ebulição. Sara via Marco olhar para Diana com um brilho que não dedicava a ela há muito tempo.
O Veneno da Dúvida
Ao final do jantar, Helena aproximou-se de Diana na sala de estar. — Doutora, espero que a fazenda não esteja sendo exaustiva. Às vezes, o ar daqui esconde coisas que quem vem da capital não consegue prever.
— Eu sou uma mulher de detalhes, Dona Helena. E os detalhes desta fazenda são fascinantes — replicou Diana.
Longe dali, no corredor, Rute observava a nova copeira guardando a prataria. Seus pensamentos estavam em Diana. Helena podia ter as dúvidas, Sara podia ter a tristeza, mas Diana Lancaster já tinha sua sentença. Rute sabia que precisava agir antes que a advogada descobrisse mais sobre o passado de Cassandra ou sobre o triplex que Marco dera a Sara.
Capítulo 58 — O Ritual do Desejo
A noite na Fazenda Império caiu com um manto de silêncio, mas sob as vigas de madeira da mansão, o sangue fervia. Após o jantar tenso, Marco Aurélio cumpriu seu papel de marido devoto, conduzindo Helena para o quarto. Entre beijos de saudade e promessas, eles se amaram, mas o cansaço da viagem logo venceu Helena, que adormeceu profundamente nos braços do marido.
A Escuridão Cúmplice
Marco esperou até que a respiração de Helena fosse rítmica e pesada. Com a desculpa de que a inspiração para seu novo livro havia chegado, ele se levantou e seguiu para o escritório. Rute, exausta após o trabalho dobrado do jantar, já se recolhera, e Diana, ainda sob os efeitos residuais do sonífero da noite anterior, estava mergulhada em um sono turvo.
O predador estava solto.
Marco não foi para o escritório. Seus pés, que conheciam cada tábua daquela casa, o levaram ao quarto de Sara. Aos 25 anos, a filha de Rute não era mais a menina assustada que fora para a capital; era uma mulher em sua plenitude, com a pele viçosa e um corpo que transbordava juventude.
Arte em Carne e Osso
Quando a porta se abriu, Sara já o esperava. Não havia necessidade de palavras. O desejo entre eles era um contrato antigo, renovado pelo tempo e pelo proibido. Marco a envolveu em um abraço faminto, e o que se seguiu foi uma coreografia de volúpia.
Ele a despiu com a reverência de um colecionador de obras raras. Marco começou um ritual de beijos que partiu da ponta dos pés de Sara, subindo pelas curvas das pernas, contornando os quadris firmes e subindo pelo ventre até alcançar os lábios dela. Sara entregava-se com um ardor que misturava gratidão e posse. Ela conhecia cada centímetro daquele homem, e o fato de ele ter deixado o leito da esposa para buscá-la alimentava seu ego.
Houve suor, sussurros roucos e uma entrega intensa. Naquele quarto, o tempo parou. Sara retribuiu cada toque, explorando o corpo de Marco com uma voracidade que mostrava que, embora ele fosse o mestre, era ela quem detinha o poder naquele momento. O sexo foi uma forma de arte, uma explosão de sentidos que deixou ambos exaustos e satisfeitos nas primeiras horas da madrugada.
O Flagrante Silencioso
O sol mal havia começado a tocar as plantações de café quando Diana, despertada por uma sede súbita — efeito colateral do sedativo —, saiu de seu quarto para ir à cozinha. Ao atravessar o corredor lateral, ela parou bruscamente.
A porta do quarto de Sara se abriu silenciosamente. Marco Aurélio saiu, ajeitando a camisa, com o semblante de quem havia acabado de conquistar um reino. Ele não viu Diana nas sombras. O olhar da advogada se transformou em uma mistura de choque e um ciúme corrosivo que ela não conseguiu esconder de si mesma.
O Brilho no Café da Manhã
Horas depois, todos se reuniram para o café. A mesa estava farta, mas o clima era cortante. Sara apareceu com um sorriso largo e os olhos brilhando como nunca. Sua pele tinha um viço que apenas uma noite de prazer absoluto poderia proporcionar.
Diana, mordendo o interior da bochecha, observava a interação entre eles. O ciúme a queimava, e ela decidiu atacar onde mais doía: no segredo que todos fingiam não ver.
— Bom dia a todos — disse Diana, com a voz carregada de veneno. — Sara, você está radiante hoje. Deve ser o ar puro da fazenda depois de tanto tempo na capital.
— Sim, doutora. Dormi maravilhosamente bem — respondeu Sara, lançando um olhar cúmplice para Marco.
Diana deu um gole no café e olhou fixamente para Murilo, que comia uma fatia de bolo ao lado de Marco. — Sabe, Helena... cada vez que olho para o Murilo, fico mais impressionada. Não é só a semelhança física com o padrinho... é o jeito de segurar o garfo, a forma como ele sorri. É incrível como a natureza cria laços tão... idênticos entre um padrinho e um afilhado, não acha?
A mesa ficou em silêncio absoluto. Rute apertou o bule de café, os olhos fixos em Diana. O jogo agora era aberto, e a advogada acabara de riscar o fósforo perto do barril de pólvora.
Capítulo 59 — O Eco das Montanhas
O café da manhã na mansão da Fazenda Império ainda estava posto, mas o apetite de todos havia desaparecido instantaneamente. O silêncio que se seguiu à frase venenosa de Diana — comparando as feições de Murilo às do padrinho — era tão denso que podia ser sentido na pele. Helena, mantendo a postura de rainha que sempre confiou cegamente em seu rei, levantou-se com uma elegância gélida.
— Marco, o sol está perfeito. Vamos caminhar um pouco pelo cafezal? — disse Helena, com um tom de comando disfarçado de convite. — Quero ver a floração de perto e preciso da sua companhia. Agora.
Marco Aurélio, sentindo o cerco se fechar, apenas assentiu. Ele seguiu a esposa, deixando Diana e Sara em um duelo de silêncios na mesa, sob o olhar vigilante e impenetrável de Rute.
A Verdade sob as Folhas de Café
Eles caminharam até estarem longe dos ouvidos curiosos da mansão. Helena parou de repente entre as fileiras de café e virou-se para o marido. Seus olhos, que sempre brilharam com admiração por Marco, agora buscavam respostas. Ela sabia que Marco era um homem atraente e que outras mulheres o desejavam, mas sempre acreditara na integridade dele.
— Marco, eu nunca fui uma mulher insegura. Sempre confiei no homem que você é — começou ela, a voz firme, mas levemente embargada. — Mas hoje, naquela mesa, algo mudou. Eu olhei para o Murilo e não vi apenas o filho da Sara. Eu vi você. Vi os seus olhos, o seu jeito de inclinar a cabeça. Vi tudo o que a sua mãe apontou na capital.
Marco forçou um riso seco, tentando usar o charme habitual que sempre o salvou. — Ora, Helena, o menino é meu afilhado... É natural que ele absorva meus trejeitos de tanto convivermos.
— Não me interrompa! — Helena deu um passo à frente, o rosto a poucos centímetros do dele. — Minha mente voltou anos atrás. Voltou àquela noite em que liguei para o seu quarto de hotel em um evento e quem atendeu foi a Rute. Na época, eu aceitei a sua desculpa de que era apenas um mal-entendido de trabalho, que ela estava apenas entregando documentos. Mas agora, vendo como você olha para o Murilo, eu me pergunto: eu fui cega todos esses anos? Você me traiu com a Sara? Aquele menino é seu sangue?
Marco sustentou o olhar, recorrendo à sua maestria em mentir para manter a paz de seu império. — Helena, nunca! Sara chegou aqui já adulta, uma moça que a Rute trouxe da roça para trabalhar quando já tinha 20 anos. Eu apenas a ajudei, paguei os estudos dela e o aluguel daquele apartamentinho onde ela viveu na capital por pura caridade e lealdade à Rute. Nunca houve nada entre nós. Você é a única mulher da minha vida.
Ele a abraçou com força, envolvendo-a em seu perfume caro. Por um momento, Helena encostou a cabeça no peito dele, querendo acreditar que a vida de Sara na capital tinha sido apenas uma fase modesta paga por "aluguel". Mas, pela primeira vez, a pulga atrás da orelha não a deixava em paz.
O Medo de Rute
Na mansão, Rute observava o casal retornar do cafezal através da janela do andar superior. Ela se lembrou perfeitamente de quando trouxe Sara para a fazenda, após a filha ter crescido com os avós na roça. Fora Rute quem convencera o patrão a contratar a própria filha como copeira, sabendo exatamente que a beleza da jovem seria o "xeque-mate" na libido de Marco.
Ela se virou para Sara na cozinha e sibilou baixo: — Sara, limpe esse brilho do rosto. A Helena está pressionando o Marco. Se ela descobrir que você não vivia de aluguel simples, mas sim em um triplex de luxo dado por ele, nós duas seremos chutadas daqui. Helena não desconfiava de nada, mas a Diana plantou o veneno, e agora a patroa vai começar a somar um mais um.
O Despertar da Esposa
Enquanto voltava para casa ao lado de Marco, Helena mantinha o silêncio. Ela não era mais a esposa que aceitava explicações fáceis sem questionar. "Ele nega com muita força", pensou ela. "Mas as feições do menino são o meu espelho da verdade. Eu preciso de uma prova que não venha da boca dele."
Capítulo 60 — O Enigma da Devoção
O silêncio após a conversa no cafezal era pesado, mas para Marco Aurélio, parecia que a tempestade havia passado. Ele retornou para os seus afazeres com a confiança de quem domina as palavras. Helena, porém, permaneceu em um estado de observação silenciosa, caminhando pela varanda da mansão enquanto o sol começava a baixar sobre os cafezais.
O Enigma de Rute
Através da vidraça do escritório, Helena viu Rute debruçada sobre os livros contábeis e os originais da editora de Marco. Aos 50 anos, Rute era a eficiência encarnada. Helena, aos 49, sentiu um nó na garganta ao refletir sobre a vida daquela mulher.
"Vinte anos...", pensou Helena. "Vinte anos que o pai de Sara morreu e Rute nunca mais olhou para homem nenhum."
Helena franziu o cenho, tentando entender aquele vácuo afetivo. Lembrou-se das festas na fazenda e dos eventos na capital; Rute estava sempre impecável, mas sempre sozinha. Por um momento, uma ideia absurda cruzou a mente de Helena: Será que Rute nunca trouxe um namorado porque, no fundo, ela não gosta de homens? Será que ela é lésbica? Mas logo ela mesma descartou o pensamento. Não, não pode ser... ela teve a Sara, amou o marido. Talvez tenha apenas decidido se fechar para o mundo e viver para o trabalho e para a filha. Para Helena, a dedicação de Rute era um sacrifício quase santo, uma lealdade que ela sempre admirou, mas que agora começava a lhe causar um estranho desconforto.
O Amor e a Dúvida
Seu olhar se desviou para o jardim, onde Murilo, de 5 anos, corria atrás de uma borboleta. O coração de Helena apertou. Ela amava aquele menino com uma força visceral. Como madrinha, ela o viu dar os primeiros passos e o cobriu de mimos. Murilo era a alegria daquela casa, e a ideia de que ele pudesse ser fruto de uma traição debaixo do seu nariz a fazia sentir náuseas.
"Eu preciso tirar essa loucura da minha cabeça", sussurrou para si mesma. "Pelo bem do meu amor pelo Murilo, eu preciso provar que estou errada."
Ela não queria destruir sua família; ela queria, desesperadamente, que o exame de DNA descartasse aquela paranoia plantada pelas palavras de Diana e pelas coincidências físicas.
O Telefonema Sigiloso
Helena entrou no quarto e trancou a porta. Com as mãos levemente trêmulas, pegou o celular e discou para a única pessoa em quem confiava plenamente: sua irmã, que morava na capital.
— Alô, Lúcia? Sou eu... — Helena baixou a voz, encostando a testa na janela. — Preciso de um favor imenso e de sigilo absoluto. Não pergunte nada agora, só me escute. Quero que você pesquise o melhor laboratório de DNA da capital. Um que seja discreto e que aceite amostras enviadas por correio ou portador.
Do outro lado, a irmã tentou questionar, mas Helena foi firme. — É para descartar uma bobagem que entrou na minha mente, Lúcia. Eu preciso de paz. Pesquise e me mande o contato por mensagem. E, por favor... nem uma palavra ao Marco ou a qualquer pessoa da família.
A Máscara da Calma
Ao desligar, Helena respirou fundo. Ela guardaria aquele contato como uma arma que esperava nunca ter que usar. O exame ficaria para o futuro, para quando ela tivesse coragem — ou provas suficientes.
Ao descer para o chá da tarde, cruzou com Diana no corredor. A advogada a olhou com curiosidade, tentando ler o semblante da patroa. Helena forçou o sorriso mais doce de seu repertório. — O ar da fazenda realmente me acalmou, Dra. Diana. Às vezes a gente vê sombras onde só existe luz.
Diana apenas assentiu, mas sabia que, por trás daquela calma repentina de Helena, uma caçadora acabava de despertar.
Capítulo 61 — O Cerco de Veludo
A calma de Helena após a conversa no cafezal não era rendição; era estratégia. Naquela noite, durante o jantar, ela observava a mesa com um olhar clínico. De um lado, Marco, o marido que exalava vigor aos 50 anos; de outro, Sara, a beleza jovem e silenciosa; e, ao centro, a Dra. Diana Lancaster, a mente brilhante e perigosa que parecia ler pensamentos.
A Proposta Inesperada
— Marco, querido — começou Helena, servindo-se de um pouco de vinho. — Estive pensando no conforto da nossa casa. A Dra. Diana tem sido fundamental para os nossos negócios e passa a semana toda aqui, longe da capital. Acho que a mansão, com toda a nossa rotina, tira um pouco da privacidade dela.
Marco ergueu as sobrancelhas, interessado. — O que você sugere, Helena?
— Quero que você mande construir uma casa de hóspedes, um bangalô de luxo, mais afastado da mansão, perto daquela clareira das amendoeiras. Assim, Diana teria o seu próprio espaço durante a semana. Poderia trabalhar até tarde, ter sua própria rotina... e quem sabe, até trazer um namorado ou um pretendente nos finais de semana sem se sentir vigiada por nós.
O silêncio caiu sobre a mesa. Marco achou a ideia excelente — afinal, uma casa de hóspedes longe dos olhos de Helena poderia ser um novo cenário para suas próprias aventuras. Sara baixou o olhar, sentindo o movimento de Helena para "limpar" a mansão.
O Alerta de Diana
Diana Lancaster, porém, sorriu com o canto dos lábios. Ela entendeu o jogo de Helena. — É muita gentileza sua, Dona Helena. Mas confesso que não sinto falta dessa privacidade para acompanhantes. Eu não tenho marido e, para ser sincera, nem namorado. Minha vida é o Direito e os meus clientes.
Helena sentiu um frio na espinha. O comentário de Diana, que deveria soar como dedicação profissional, soou para ela como um alerta. "Uma mulher como ela, linda, inteligente e sem ninguém?", pensou Helena. "Isso significa que ela está totalmente disponível. E uma mulher disponível e ambiciosa sob o mesmo teto que o Marco é um perigo que eu não tinha calculado."
Peças no Tabuleiro
Helena apenas assentiu, mantendo o sorriso social. — Pois deveria ter, Doutora. Uma mulher jovem não deve viver apenas de leis. Mas a casa de hóspedes será feita. Quero que você se sinta em casa, mesmo estando longe da sua.
Mais tarde, no quarto, Helena anotou mentalmente: Investigar a vida de Diana na capital. Ela não desconfiava de nada concreto entre Diana e Marco ainda, mas o seu instinto de preservação agora estava em alerta máximo. Ela estava começando a cercar o marido, afastando as peças femininas para locais onde ela pudesse controlar quem entrava e quem saía.
O Olhar de Rute
Da copa, Rute ouviu a proposta. Ela conhecia Helena há vinte anos e sabia que aquela "generosidade" era um muro sendo erguido. Rute percebeu que Helena estava começando a agir por conta própria, sem consultar a "leal" assessora.
"Ela está limpando o terreno", pensou Rute, apertando o pano de prato nas mãos. "Primeiro quer a advogada longe. Depois, o alvo será a minha Sara."
O jogo na Fazenda Império estava subindo de nível. Helena estava aprendendo a jogar o jogo das sombras, e a casa de hóspedes seria o primeiro marco de sua nova era: a era da desconfiança.
Capítulo 62 — A Dona do Jogo
A manhã na Fazenda Império começou com o som de malas sendo fechadas. Marco Aurélio tinha uma reunião crucial na capital com a diretoria da editora para discutir os novos lançamentos. Como acontecia há vinte anos, Rute já estava de pé, vestida para a viagem, com sua maleta de assessora pronta ao lado da porta.
No entanto, o roteiro que Rute escreveu para si mesma estava prestes a ser rasgado.
O Golpe de Mestre
Helena desceu as escadas radiante. Vestia um conjunto elegante de linho e tinha um brilho no olhar que Marco não via há muito tempo. Ela se aproximou do marido e, diante de Rute e Diana, envolveu o braço no dele.
— Marco, querido, decidi que preciso de novos ares. Vou com você para a capital nesta viagem. Quero aproveitar para fazer compras e visitar minha irmã — disse Helena, com uma voz aveludada, mas firme.
Rute tencionou os ombros imediatamente. — Patrão, os contratos da editora estão comigo. Eu preciso estar lá para a conferência dos dados...
Helena virou-se para Rute com um sorriso gélido e superior. — Não se preocupe com isso, Rute. A Dra. Diana pode revisar qualquer documento por e-mail, se necessário. Na verdade, Rute, eu notei como você tem trabalhado dobrado desde que chegamos. Você está exausta. Por isso, decidi que você vai tirar o restante da semana de folga. Fique aqui, aproveite a piscina da mansão, descanse com sua filha e o Murilo. Você merece essas férias.
A Máscara de Rute
O choque foi visível, mas Rute era uma sobrevivente. Ela engoliu em seco, sentindo o golpe da "generosidade" de Helena como uma chicotada. Ela sabia que Helena a estava afastando do lado de Marco.
— É muita bondade da senhora, Dona Helena — respondeu Rute, forçando uma expressão de gratidão que não chegava aos olhos. — Realmente, um descanso será bem-vindo. Vou aproveitar cada minuto na piscina.
Marco, embora surpreso, não objetou. Ter Helena ao seu lado na capital era uma forma de manter a paz doméstica que ele tanto prezava para continuar com seus deslizes em segredo.
O Pranto e a Fúria
Assim que o carro de Marco e Helena sumiu pela estrada de terra, a máscara de Rute caiu. Ela subiu as escadas em um passo acelerado e trancou-se em seu quarto.
Lá dentro, longe de todos, a governanta desabou. As lágrimas de raiva e humilhação correram pelo rosto. Há duas décadas ela não era descartada daquela forma. Ela sentia que estava perdendo o controle sobre Marco, o controle sobre a agenda dele e, consequentemente, sobre o seu lugar de "esposa de negócios".
— É ela... — sibilou Rute entre soluços, socando o travesseiro. — É aquela advogada maldita! A Diana plantou o veneno na cabeça da Helena. Aquela sonsa veio para destruir o que eu levei vinte anos para construir!
Rute limpou o rosto, o choro transformando-se em um ódio frio. Ela não culpava Marco, nem Sara, nem a si mesma. Em sua mente distorcida pela possessividade, Diana Lancaster era a erva-daninha que precisava ser arrancada antes que Helena descobrisse tudo o que estava enterrado naquelas terras.
A Nova Helena
Enquanto isso, no carro, Helena observava a paisagem. Ela se sentia viva, forte e, pela primeira vez em anos, no comando da situação. Ela olhou para Marco, que dirigia tranquilo, e sorriu internamente.
A viagem para a capital tinha um objetivo oculto: ela ia se encontrar com a irmã e dar o primeiro passo real para o exame de DNA, longe dos olhos vigilantes de Rute. A caçada começara.
Capítulo 63 — O Labirinto de Lençóis e Segredos
A capital fervilhava, mas dentro do luxuoso quarto de hotel, o mundo pertencia apenas a Marco Aurélio e Helena. Longe da vigilância de Rute e do peso da fazenda, o casal parecia ter resgatado a urgência dos primeiros anos.
Fogo e Sedução
Marco, sentindo a nova energia da esposa, não resistiu ao vê-la sair do banho apenas de roupão. O que começou com um brinde de champanhe transformou-se em uma entrega selvagem. Ele a possuiu com a voracidade de um homem que, aos 50 anos, exala o vigor de um jovem de 40. Helena, movida por uma mistura de amor e a necessidade de reafirmar seu território, correspondeu com uma intensidade que surpreendeu o marido.
Houve suor, mãos que exploravam cada curva com fome e um prazer que beirava o desespero. Naquele quarto, entre beijos e sussurros quentes, Helena tentava calar a voz da dúvida em sua mente, enquanto Marco mostrava por que era o centro do desejo de tantas mulheres.
O Pacto de Sangue
Na manhã seguinte, enquanto Marco participava de uma reunião na editora, Helena encontrou-se com sua irmã, Lúcia, em uma confeitaria discreta no bairro nobre da capital.
— Lúcia, eu não estou louca — disse Helena, a voz baixa e tensa, segurando a xícara de café com mãos trêmulas. — Eu amo o Murilo como se fosse meu, mas a dúvida está me corroendo por dentro. Se ele for filho do Marco, meu casamento foi um teatro montado pela Rute.
Lúcia segurou a mão da irmã com firmeza. — Eu já resolvi tudo, Helena. Tenho o contato de um laboratório de extrema confiança aqui na capital. Eles garantem sigilo absoluto e fazem o processamento rápido.
Lúcia entregou um envelope pequeno e discreto para Helena. — Aqui estão as instruções e os coletores esterilizados. Só preciso que você consiga as amostras: fios de cabelo com a raiz, tanto do Murilo quanto do Marco. Assim que tiver, me mande por um portador de confiança. Eu mesma entrego no laboratório e ninguém saberá de nada.
O Tesouro Escondido
Helena sentiu um frio na espinha ao tocar o envelope. Era a chave para sua paz ou para o fim de sua vida como ela conhecia. Ela guardou o material no fundo falso de sua bolsa de grife, protegendo-o como se fosse um tesouro proibido.
— Obrigada, Lúcia. Eu espero, do fundo do meu coração, que esse teste dê negativo e eu possa pedir perdão ao Marco por ter desconfiado dele — suspirou Helena, tentando se convencer de suas próprias palavras.
O Retorno
Ao voltar para o hotel, Helena encontrou Marco relaxado, comemorando o sucesso da reunião com a editora. Ele a abraçou por trás, beijando seu pescoço, sem imaginar que, a poucos centímetros dele, dentro da bolsa de Helena, estava o início do fim de seus segredos.
Helena sorriu para o espelho, mas seus olhos já não eram os mesmos. Ela agora era uma mulher com um plano. A viagem para a capital fora um sucesso: ela renovara os laços com o marido na cama e garantira os meios para descobrir a verdade. Agora, o próximo passo seria o mais difícil: colher o DNA dentro da Fazenda Império, sob os olhos de águia de Rute.
Capítulo 64 — A Farsa Genética
O retorno para a Fazenda Império foi marcado por uma harmonia que há muito não se via. Helena voltou da capital com uma aura de renovação, tratando a todos com uma doçura que desarmou até os mais céticos. Mas, por trás do sorriso, a "caçadora" estava em plena atividade.
O Golpe da Vaidade
Logo na primeira tarde, Helena colocou seu plano em prática. Ela chamou Sara para a varanda, trazendo consigo um frasco de creme capilar de uma marca francesa caríssima que comprara na capital.
— Sara, querida, olhe o que trouxe para você! — disse Helena com entusiasmo. — É uma novidade tecnológica para os fios. Sente-se aqui, quero aplicar em você. Afinal, você é como se fosse da nossa família e precisa estar sempre linda.
Lisonjeada e sem desconfiar de nada, Sara cedeu. Enquanto massageava o couro cabeludo da moça com luvas finas, Helena foi precisa. Com um movimento rápido e indolor, ela colheu três fios de cabelo com a raiz e os escondeu em um lenço de seda que já estava preparado em seu bolso.
O Carinho da Madrinha
Com Murilo, foi ainda mais simples. O menino, ao sair da piscina, correu direto para os braços da madrinha. Helena o envolveu em uma toalha felpuda, enxugando seus cabelos com carinho maternal.
— Meu anjinho, deixe a dinda secar esse rostinho — sussurrou ela.
Enquanto o aninhava em seu colo, ela removeu os fios necessários. Com as duas amostras garantidas, Helena sentiu um peso sair de seus ombros. Naquela mesma noite, ela preparou o envelope para enviar ao laboratório através do portador combinado com sua irmã.
A Descoberta e a Troca
O que Helena não sabia era que Marco Aurélio, movido por um instinto de sobrevivência apurado, estava vigiando cada passo dela. Enquanto Helena se banhava para o jantar, ele entrou no closet e vasculhou a bolsa que ela usara durante o dia. Lá estava o envelope, com as amostras devidamente etiquetadas.
Marco sentiu um ódio frio, mas agiu rápido. Ele já havia se preparado. Retirou os fios de Sara e Murilo e os substituiu por fios de cabelo que ele mesmo colhera de uma das lavadeiras da fazenda e de um filho de colono que não tinha qualquer parentesco com ele. Selou o envelope novamente com uma perícia de falsificador.
O Falso Alívio
Duas semanas se passaram em uma agonia silenciosa para Helena, até que o resultado chegou por um e-mail criptografado. Ao abrir o arquivo no escritório, Helena leu as palavras que tanto esperava e temia: "Paternidade Excluída".
O alívio foi tão grande que Helena desabou em lágrimas. Ela se sentiu a pior das mulheres por ter duvidado do marido e da lealdade de Rute, que dedicara a vida àquela casa.
À noite, no quarto, ela se ajoelhou diante de Marco, que lia um livro calmamente. — Marco... meu amor, eu preciso te pedir perdão — disse ela, soluçando. — Eu me deixei levar por fofocas, pela maldade da Diana... eu cheguei a fazer um teste de DNA escondida. Eu estava louca! Mas o resultado deu negativo. Murilo não é seu filho.
Marco fez sua melhor atuação de "homem ferido, mas compreensivo". Ele a levantou e a abraçou com força. — Eu te perdoo, Helena. O importante é que agora você sabe que eu nunca te trairia. E que a Rute e a Sara são dignas da nossa total confiança.
Helena adormeceu nos braços do marido, sentindo-se segura e em paz. Ela não imaginava que acabara de cair na maior armadilha de Marco Aurélio. Agora, com a confiança de Helena restaurada, ele e Rute tinham o caminho livre para continuar seus segredos, enquanto Sara permanecia como a peça central de um jogo que Helena pensava ter vencido.
Capítulo 65 — O Triunfo dos Malditos
A paz que reinava no semblante de Helena era o combustível que Marco Aurélio precisava para celebrar sua vitória sobre a verdade. Com o resultado negativo do DNA devidamente forjado em suas mãos, Helena sentia-se redimida, enquanto Marco sentia-se invencível.
O Prazer da Impunidade
Assim que Helena saiu para o jardim para um momento de meditação, Marco chamou Rute ao seu escritório. Trancou a porta e, com um sorriso vitorioso, contou como havia interceptado a bolsa de Helena e trocado as amostras de cabelo por fios de desconhecidos.
Rute sentiu um êxtase que beirava o delírio. Saber que Marco enganara a própria esposa com tamanha frieza a fazia admirá-lo ainda mais. Ela se atirou nos braços dele ali mesmo.
Foi um sexo selvagem, movido pela adrenalina do perigo vencido. Entre os relatórios de café e o cheiro de couro do escritório, eles celebraram o pacto de silêncio que os unia. Rute, aos 50 anos, entregou-se com uma fome voraz, sentindo que, embora Helena tivesse o título de esposa, era ela, a governanta, quem detinha as chaves dos segredos mais profundos de Marco.
O Pecado no Chão
Mas o apetite de Marco estava apenas começando. Mais tarde, ele encontrou uma desculpa para ir aos aposentos de Sara. A jovem copeira, ao ouvir de Marco que Helena "não desconfiava de mais nada" e que o perigo passara, sentiu o corpo ferver.
Marco não esperou. Ele a possuiu ali mesmo, no chão do quarto, em uma entrega absoluta. O vigor de Marco encontrou a juventude ardente de Sara em um embate de corpos que ignorava qualquer moralidade. No chão frio daquele quarto, o calor da traição queimava mais forte do que nunca. Para Sara, aquele era o momento de reafirmar que, mesmo escondida, ela era a favorita do dono da fazenda.
O Jantar das Máscaras
À noite, a mansão exalava uma calmaria enganosa. O jantar foi servido sob uma luz suave. A ausência da Dra. Diana Lancaster, que já havia partido para seu refúgio na capital para o final de semana, era um alívio palpável. Sem os olhos analíticos da advogada, o ambiente ficava mais leve.
Helena estava radiante, sentindo-se a mulher mais feliz do mundo por ter "confirmado" a integridade do marido. Ela sorria para Rute e para Sara com uma ternura renovada, achando que as três formavam uma grande família unida pela lealdade.
— Marco, este jantar está maravilhoso — disse Helena, brindando. — Sinto que entramos em uma nova fase da nossa vida, de total confiança e paz.
Marco trocou um olhar cúmplice com Rute enquanto ela servia o vinho, um olhar que Helena interpretou como mera cortesia profissional. Sara sorria timidamente, sentindo ainda o toque de Marco em sua pele, enquanto Murilo comia alegremente ao lado da madrinha.
Helena estava dormindo com o inimigo e protegendo as amantes de seu marido, cega pelo falso resultado positivo da ciência manipulada. O império de café estava em paz, mas era uma paz construída sobre um abismo de mentiras que só Marco e ela sabiam que existira... mas só Marco sabia que era falso.
Capítulo 66 — O Cativeiro de Cetim e Aço
A manhã na Fazenda Império nasceu sob um céu de um azul insolente, como se a própria natureza conspirasse para esconder a podridão sob os telhados de jacarandá. Helena, flutuando em sua bolha de falsa redenção, acreditava que o destino finalmente lhe dera uma trégua.
A Família de Vidro e a Estrada do Engano
Na caminhonete de luxo, o cenário era de uma harmonia impecável. Helena dirigia com leveza, sentindo uma paz que não experimentava há anos. Ao seu lado, Rute mantinha a postura impecável. No banco de trás, o coração da farsa: Sara e o pequeno Murilo.
O menino brincava, alheio ao fato de que o sangue que corria em suas veias era o mesmo do dono daquelas terras. Helena olhava pelo retrovisor e sorria para Sara. — Veja como ele está radiante hoje, Sara! — disse Helena, com uma doçura genuína. — Quero que ele escolha o brinquedo que quiser na cidade. E vocês duas, preparem-se: nada de uniformes hoje. Seremos apenas mulheres celebrando a vida.
O Pacto das Amantes e o Riso da Hiena
Ao chegarem ao centro da cidade, Helena entrou em uma loja de brinquedos com Murilo, deixando Rute e Sara a sós. O clima mudou instantaneamente. A máscara de servidão de Rute caiu, dando lugar a um olhar calculista e gélido.
— Escute bem, Sara — sussurrou Rute, a voz firme. — Nós temos dinheiro e o triplex na capital, mas sabemos que nenhuma de nós consegue ficar longe daquele homem. O Marco é o nosso vício e o nosso império. Precisamos nos unir contra a Dra. Diana. Aquela advogada é um câncer.
Rute então propôs o pacto: no dia em que Marco se deitasse com uma, a outra recuaria para vigiar Helena, garantindo que o segredo jamais fosse revelado. Sara, aliviada, abraçou a mãe. — Obrigada por não me afastar dele, mãe — sussurrou a jovem. — Jamais — riu Rute. — Antes comigo e com você do que com aquela estrangeira. Obrigada por dividir o safado do Marco comigo, minha filha.
As duas caíram na risada, uma gargalhada cúmplice que foi interrompida pela volta de Helena. — O que é tão engraçado? — perguntou a patroa. — Ah, Dona Helena — mentiu Rute rapidamente. — Estávamos lembrando do Vitor, o ex da Sara que ela achava que era "homem de verdade", mas descobrimos que era gay e só queria os cremes dela! Helena acompanhou o riso, sem imaginar que a piada real era a sua própria vida.
O Convite ao Abismo e o Êxtase do Aço
Enquanto o riso ecoava na cidade, a tensão no escritório de Marco Aurélio atingia o ponto de ebulição. A porta se abriu e Diana Lancaster entrou, não como uma funcionária, mas como uma tentação armada. Sem dizer uma palavra, ela caminhou até a mesa de jacarandá e depositou um par de algemas de aço sobre os manuscritos do patrão.
— Você diz que eu falo demais, Marco — disse ela, a voz rouca, estendendo os pulsos. — Então me cale. Use o seu "instinto de escritor" para me mostrar quem realmente manda nesta trama.
Marco sentiu o sangue ferver. O estalo do metal fechando-se sobre a pele alva de Diana selou um pacto de luxúria. Ele a imobilizou na pesada cadeira de carvalho, transformando o escritório em um cenário de domínio absoluto. Por horas, o que se viu foi um embate avassalador. Marco a possuiu com uma voracidade que buscava subjugar a inteligência da advogada através da carne. Diana entregava-se ao cativeiro com gemidos que misturavam provocação e êxtase, enquanto ele reafirmava seu poder em cada toque possessivo, transformando o perigo da descoberta na mais sórdida das recompensas.
A Água que Lava o Pecado
Após o longo e intenso embate, o suor e a adrenalina deram lugar a um silêncio cúmplice. Marco destrancou as algemas e, em um gesto de intimidade perversa, levou Diana para a suíte anexa ao escritório. Sob o chuveiro largo, a água quente lavava os corpos, mas não a sujeira de suas almas. Eles se banharam juntos, trocando olhares que diziam mais do que qualquer contrato jurídico.
Minutos depois, saíram do banheiro impecáveis. Marco ajeitou o nó da gravata e Diana retocou o batom e o coque, sem um fio de cabelo fora do lugar. Cruzaram o corredor da mansão como se nada tivesse acontecido — ele, o patrão respeitável; ela, a advogada brilhante.
Ao final da tarde, os portões se abriram para receber o carro de Helena. O império estava em ordem, mas sob a superfície, o triângulo de ferro agora era uma teia onde todos eram, ao mesmo tempo, caça e caçador.
Capítulo 67 — Alianças e Venenos
A Fazenda Império fervilhava com a notícia do casamento de Arthur. O herdeiro, que sempre fora o orgulho de Marco, traria sua amada Carine para oficializar a união onde suas raízes estavam fincadas. Para Marco, o respeito por Carine era sagrado; embora fosse um predador insaciável, o "código" do patriarca era claro: a família e as mulheres comprometidas eram intocáveis. Ele via em Carine a filha que nunca teve, e em Arthur, o seu legado.
O Nó Cego da Família
Na varanda, Helena observava os preparativos com um brilho de esperança. Ela chamou Sara, que segurava Murilo no colo, para perto de si. — Sabe, Sara... — começou Helena, acariciando o rosto do menino. — Com o casamento do Arthur, sinto que nossa família está crescendo. Quero que você entenda que Arthur deve ser considerado um irmão para você, e um tio para o pequeno Murilo. Somos todos um só sangue aqui.
Rute, que passava com uma bandeja de prata, ouviu a frase e sentiu um calafrio de satisfação. “Se ela soubesse que o sangue é literalmente o mesmo...”, pensou a governanta. — É uma visão linda, Dona Helena — interveio Rute, com um sorriso treinado. — A união faz a força deste império.
A Estratégia da Aranha
Mais tarde, na copa, Helena delegava as funções. — Rute, preciso que você lidere a organização da festa. Ninguém conhece esta casa como você. E Diana... — Helena virou-se para a advogada, que aparecia no corredor com sua costumeira elegância fria. — Doutora, gostaria que a senhora cuidasse de toda a parte jurídica: contratos com fornecedores e o pacto antenupcial do meu filho. Quero tudo blindado.
Diana assentiu, trocando um olhar imperceptível com Marco, que observava da porta do escritório. Rute, porém, sentiu o estômago revirar. Ver Diana ser incluída no círculo íntimo da família era o limite.
Diálogos de Sangue e Sombra
Quando ficaram a sós na lavanderia, Rute puxou Sara para um canto. O olhar da governanta era doentio. — Precisamos tirar a Diana do caminho, Sara. Agora. Ela está entrando demais na vida do Arthur, na vida da Helena... e na cama do Marco. Sara estremeceu. — Mãe, eu aceito que a gente faça ela ser demitida, ou que a gente plante algo para o Marco pegar nojo dela... mas matar? Eu não sou assassina.
Rute apertou o braço da filha. — Você é jovem, não entende que certas ervas-daninhas precisam ser arrancadas pela raiz para não voltarem a crescer. Se você não tem estômago para o sangue, deixe comigo. Você só precisa me ajudar a criar o cenário. Eu aceito dividir o Marco com a Helena, porque ela é a fachada, e com você, porque é minha carne. Mas aquela advogada? Ela quer o lugar de rainha. E rainhas indesejadas morrem cedo.
O Banquete das Máscaras
Para disfarçar suas intenções, Rute mergulhou nos preparativos. Foi até a cozinha falar com Dona Mabel, a cozinheira-chefe da fazenda. — Dona Mabel, o evento será grandioso. De quantas cozinheiras extras a senhora vai precisar? Está autorizada a contratar quem quiser na região. Mabel começou a listar nomes, e Rute soltou uma risada rara e descontraída: — Mas faça um favor, Mabel: contrate mulheres maduras e experientes, assim como a senhora... acima dos 60! Nada de meninas jovens para tirar o foco do trabalho — brincou ela, embora o fundo da piada fosse o seu ciúme possessivo por Marco.
A Fazenda Império estava se tornando um tabuleiro de xadrez onde cada peça se movia para o casamento do herdeiro. Mas, enquanto Helena sonhava com flores e alianças, Rute já escolhia o tipo de "acidente" que silenciaria a Dra. Lancaster para sempre.
Capítulo 68 — O Refúgio de Vidro e Sangue
A manhã na Fazenda Império fervilhava com a chegada dos caminhões de decoração. Helena, imersa nos detalhes do casamento de Arthur, era a imagem da eficiência e da confiança. O falso exame de DNA havia removido a última sombra de sua mente, tornando-a a maior aliada — ainda que involuntária — da traição de seu marido.
A Mentira Perfeita
Marco Aurélio, com a elegância de um lorde, conferia seu relógio de ouro. — As reuniões com os produtores e a editora vão tomar todo o meu tempo, Helena. Mas faço questão de levar o Murilo. Quero que ele comece a frequentar os círculos onde um dia ele terá voz.
Helena, comovida, acariciou o rosto do marido. — Você é um homem admirável, Marco. Vá, mas leve a Sara. Quero que eles fiquem em um hotel de primeira linha. Reserve um quarto grande, uma suíte de luxo, para que o Murilo tenha espaço para brincar e não se sinta confinado. Eu ficarei aqui para receber a assessoria do casamento. O Arthur merece o melhor.
Rute, ao lado, mantinha o olhar baixo, escondendo o sorriso vitorioso. Ela sabia que o destino não era hotel nenhum. O destino era o Triplex, o imóvel de altíssimo luxo que ela arrancou de Marco há cinco anos, quando ele entrou em pânico ao saber que tinha engravidado a filha de sua governanta. Aquele apartamento era o selo do silêncio e o refúgio das escapadas de Sara.
O Santuário Proibido
Assim que cruzaram a porta do Triplex na capital, o cheiro de mogno e luxo moderno envolveu os três. Murilo, exausto, correu para o quarto que já conhecia bem, adormecendo entre lençóis de fios egípcios.
Na sala ampla, com vista panorâmica para o horizonte da metrópole, Marco e Sara deixaram as máscaras caírem. Não havia mais o "patrão" e a "filha da governanta". Havia apenas o predador e sua presa favorita.
A Entrega no Altar da Traição
Eles não esperaram chegar ao quarto. O desejo acumulado pela repressão da fazenda explodiu ali mesmo. Marco puxou Sara contra a mesa de granito da cozinha gourmet. A mão dele, firme e possessiva, envolvia a nuca da jovem enquanto sua língua explorava o contorno do ouvido dela, sussurrando promessas obscenas que a faziam tremer.
Sara, em um frenesi de paixão, desceu as mãos pelo abdômen definido de Marco, mordendo sua barriga com uma fome que misturava amor e rebeldia. Ele a ergueu, sentindo o calor da juventude de Sara contra seu corpo. Do mármore da cozinha, eles se arrastaram para o sofá de couro italiano. Marco, agindo como o predador que aprecia cada centímetro da conquista, percorreu o corpo de Sara com a língua, mapeando cada curva com a precisão de quem descreve o prazer em seus livros.
Sara entregava-se a orgasmos múltiplos, cravando as unhas nas costas de Marco, o som de seus gemidos ecoando no triplex que Helena sequer sabia que existia. O ato terminou no tapete felpudo do quarto principal, onde o suor e a respiração ofegante celebravam a impunidade de um homem que enganava a todos, mas que ali, era escravo de seus próprios instintos.
A Faxina de Rute
Enquanto isso, na Fazenda Império, Rute trabalhava com uma eficiência assustadora. Enquanto Helena discutia flores com a assessora de casamentos, Rute observava a Dra. Diana Lancaster debruçada sobre os contratos jurídicos na biblioteca.
A mente de Rute, doentia e possessiva, já estava em movimento. Ela aceitava Helena por direito e Sara por sangue, mas Diana era uma intrusa que precisava ser eliminada. Ao passar pela cozinha, ela reforçou a ordem para Dona Mabel: — Lembre-se, Mabel: só quero as cozinheiras veteranas, aquelas acima dos 60, com mãos firmes e línguas curtas. — Rute sorriu, pensando que, em breve, a "limpeza" da fazenda incluiria retirar uma advogada do caminho, permanentemente.
O palco para o casamento de Arthur estava sendo montado, mas o cheiro de café na Fazenda Império começava a ser sufocado pelo odor metálico de um plano que cheirava a sangue.
Capítulo 69 — O Beijo da Serpente e o Mundo Paralelo
Enquanto a Fazenda Império se preparava para a luz das alianças, a capital servia de cenário para uma realidade distorcida. No anonimato das luzes da metrópole, Marco Aurélio permitia-se viver uma fantasia que jamais ousaria realizar sob os olhos da sociedade rural.
O Mundo Paralelo no Triplex
Longe dos cafezais, Marco e Sara viviam como se estivessem em uma redoma de cristal. Para quem os via passeando, eram um casal bem-sucedido com o filho pequeno. Marco levou Sara e Murilo ao cinema, assistindo a animações com o menino entre eles, dividindo pipoca como um pai dedicado. No parque, ele caminhava de mãos dadas com Sara, observando Murilo correr pela grama, sentindo o prazer proibido de simular uma família que Helena acreditava ser apenas sua.
Naquele Triplex, Sara não era a filha da governanta; ela era a esposa perfeita, jovem e ardente, que Marco moldava ao seu gosto. Eles jantavam à luz de velas enquanto Murilo dormia, e Marco, em seu delírio de onipotência, sentia que tinha conquistado o que poucos homens conseguem: duas vidas completas, dois lares, e o controle absoluto sobre o destino de todas as suas mulheres.
O Código do Patriarca
Apesar do idílio na capital, a chegada de uma mensagem de Helena avisando sobre Arthur e Carine quebrou o encanto. Marco suspirou, recompondo a máscara de milionário respeitável. — Vamos, Sara. O Arthur e a Carine já chegaram. O palco está montado.
Ele sabia que, ao cruzar o portal da fazenda, o "marido" de Sara voltaria a ser o "padrinho" de Murilo e o patrão distante. Ele era o canalha que muitos invejavam, o homem que amava o filho e respeitava a nora, mas que não abria mão de sua vida secreta no Triplex.
O Silêncio de Diana e a Frustração de Rute
Enquanto o carro de Marco ainda cortava a estrada, a tensão na Fazenda Império era quase sólida. Rute encontrou a Dra. Diana Lancaster na varanda, debruçada sobre o pacto antenupcial de Arthur.
Rute aproximou-se com uma bandeja. O episódio do vinho batizado com sonífero ainda pairava entre elas. Tinha acontecido semanas atrás, naquela noite em que Helena, Sara e Murilo visitavam a mãe de Marco. Rute, em sua arrogância, soltara uma indireta sobre "sono pesado" no dia seguinte, e agora percebia o erro estratégico.
— Um café, Doutora? — ofereceu Rute, a voz aveludada.
Diana parou de digitar e olhou para a xícara fumegante. Ela não demonstrou hesitação, nem deixou transparecer que sabia da dopagem. Seu rosto era uma máscara de gelo. — Não, obrigada, Rute. Já tomei café demais. Prefiro manter a mente clara para esses contratos e... bem acordada — respondeu Diana, com um sorriso cortês que continha um brilho metálico de aviso.
A rejeição fez Rute morder o lábio. Diana não confrontava, mas também não facilitava. “Ela sabe, mas está jogando,” pensou a governanta, sentindo o ódio borbulhar. O nervosismo de Rute crescia; ela estava habituada à ingenuidade de Helena, não ao silêncio estratégico de Diana.
A Limpeza da Aranha
Ao entardecer, as cozinheiras veteranas já ocupavam a área de serviço. Rute circulava entre elas como uma general. Se Diana não caía em armadilhas silenciosas, o plano teria que ser drástico. Naquela noite, o jantar de boas-vindas para Arthur e Carine seria servido sob uma luz suave, mas o embate entre a governanta e a advogada prometia ser o prato principal, enquanto Marco Aurélio retornava pronto para desempenhar seu papel de patriarca exemplar.
Capítulo 70 — A Calmaria das Máscaras e o Fogo das Sombras
A Fazenda Império amanheceu sob o signo da perfeição. O gramado estava impecável, as flores brancas exalavam um perfume entorpecente e a estrutura de cristal montada para o altar refletia o sol da manhã. Tudo estava pronto. A logística implacável de Rute e o dinheiro inesgotável de Marco Aurélio haviam transformado a propriedade em um cenário de conto de fadas.
O Salão das Vaidades
Helena, exausta por semanas de ansiedade, permitiu-se dormir até o meio-dia. Ao acordar, foi direto para a suíte master, transformada em um salão de beleza de altíssimo nível. Cabeleireiras e maquiadores renomados, trazidos da capital, cuidavam das mulheres da família.
Lá estavam Carine, a noiva radiante; a mãe da noiva, visivelmente impressionada com o luxo; Sara, que exibia uma beleza jovial e descansada após os dias no Triplex; e a Dra. Diana Lancaster, que mantinha sua postura elegante mesmo entre secadores e sprays.
— Onde está a Rute? — perguntou Helena, enquanto uma esteticista massageava seus pés. — Ela deveria estar aqui se arrumando conosco. — Ela me disse que precisou dar um pulo na cidade — respondeu Carine, sorrindo. — Falou que houve um problema com o ajuste do vestido e que preferia cuidar do cabelo por último para estar impecável na hora da cerimônia.
Todas assentiram. Para Helena, Rute era a personificação do zelo. Mal sabiam elas que o "ajuste" que Rute buscava era de uma natureza muito mais carnal.
O Refúgio dos Amantes
A quilômetros dali, em um chalé rústico e discreto escondido nas terras mais afastadas da fazenda, o ar estava carregado. Rute não precisava de vestido novo; ela precisava de Marco. Ela o convencera de que, após semanas de trabalho duro para o casamento do filho dele, ela merecia seu prêmio.
— Hoje o tempo é nosso, Marco — sussurrou Rute, desfazendo o coque rigoroso que sempre usava. — Deixe que elas se preocupem com batons e rendas. Eu quero você.
Marco, o predador que nunca recusa uma oportunidade, aproveitou cada segundo. Longe da vigilância de Diana e da doçura de Helena, ele e Rute protagonizaram um encontro movido pela urgência de décadas de cumplicidade. Rute queria relaxar, queria gozar, queria sentir que, apesar de todas as outras, ela ainda era a única que conhecia os segredos mais sombrios do patriarca. Foi uma entrega selvagem, um ritual de posse onde Rute reafirmava seu território sobre o homem da sua vida.
O Retorno Impecável
Antes que o sol começasse a sua descida final no horizonte, o carro de Marco apontou discretamente na garagem lateral. Eles voltaram como sombras. Marco entrou pelo escritório, recompondo o traje de pai do noivo. Rute, com uma agilidade de camaleoa, subiu pelas escadas de serviço e apareceu no salão improvisado apenas vinte minutos depois, com o vestido "ajustado" em mãos.
— Cheguei, Dona Helena! — disse Rute, com a voz firme, embora seus olhos ainda brilhassem com o fogo do que acabara de viver. — Tudo resolvido. Agora é a minha vez de ficar bonita para o nosso Arthur.
As mulheres, imersas em suas próprias imagens nos espelhos, nem notaram o leve rubor no pescoço de Rute ou o olhar satisfeito de quem acabara de triunfar sobre todas elas. A fortuna de Marco Aurélio proporcionava aquele salão, mas era a sua capacidade de enganar que garantia que a festa continuasse.
O sol começava a se pôr, tingindo o cafezal de dourado. O casamento ia começar, e com ele, o capítulo final de muitas máscaras que ali habitavam.
Capítulo 71 — O Triunfo da Rainha e o Fel da Intrusa
O crepúsculo tingia o céu da Fazenda Império com tons de violeta e ouro. O aroma das flores de laranjeira misturava-se ao perfume caro dos convidados. A cerimônia não era apenas um casamento; era uma produção digna de Hollywood, onde cada detalhe exalava a fortuna e o poder de Marco Aurélio.
A Entrada Triunfal
O silêncio caiu sobre o jardim quando a marcha nupcial começou. Arthur surgiu, impecável em seu fraque, mas todos os olhos foram capturados pela mulher ao seu lado. Helena estava deslumbrante. O vestido de seda pura contornava seu corpo com uma elegância que deixava claro: ela era a mulher mais bela daquela noite. Sua pele brilhava sob a luz dos lustres de cristal suspensos nas árvores, e o sorriso de mãe orgulhosa a tornava quase celestial.
Diana Lancaster, observando da primeira fila, sentiu um aperto no peito. Ela, que sempre se sentiu superior por sua inteligência e frieza, viu-se diminuída diante da beleza clássica e da aura de dignidade de Helena. Marco Aurélio, parado no altar como o patriarca supremo, não conseguiu disfarçar: ele "babava" pela própria esposa. Por um momento, o predador esqueceu o triplex e as amantes; ele estava hipnotizado pela mulher que o mundo via como sua metade oficial.
Logo atrás, Carine entrava com seu pai. Os pais da noiva, jovens e elegantes aos 49 anos, completavam o quadro de perfeição estética que Marco fazia questão de exibir.
A Dança das Máscaras
Após o "sim" e a chuva de pétalas, a festa explodiu em alegria. No centro do salão, Marco puxou Helena para uma dança. Eles se moviam em sintonia, um casal que exalava sucesso. Ao lado deles, em uma coreografia de cumplicidade silenciosa, Rute e Sara dançavam juntas. Para quem via de fora, eram a governanta leal e sua filha celebrando com os patrões; para as duas, era o momento de observar o brilho da "oficial" enquanto planejavam como manter o domínio sobre o resto.
Diana, porém, sentia-se a verdadeira intrusa. O champanhe corria solto, e com ele, as barreiras da advogada começaram a desmoronar. O ciúme, um sentimento que ela julgava estar sob seu controle jurídico, queimava como ácido. Ver Marco tão fascinado por Helena a feria mais do que qualquer jogo de poder anterior.
O Desabafo e o Descarte
No final da festa, com os sentidos nublados pelo álcool, Diana cercou Marco perto das roseiras. Seus olhos estavam marejados, a maquiagem impecável ameaçando ceder. — Você está agindo como se ela fosse a única mulher no mundo, Marco — balbuciou ela, a voz embargada. — Ela é a minha esposa, Diana. E hoje ela provou por que é a rainha desta casa — respondeu Marco, o olhar ainda buscando Helena no meio do salão.
Diana, perdendo a última gota de orgulho, o abraçou com força. — Eu te amo... meu Deus, eu te amo contra tudo o que eu sempre acreditei. Contra todos os meus princípios de vida — chorou ela. Marco a afastou com uma frieza cirúrgica, sem um pingo de compaixão. O fascínio dele por Helena naquela noite era absoluto. — Vá dormir, Diana. Você bebeu demais e está começando a dar espetáculo.
O Espelho da Traição
A festa acabou. Os convidados partiram e a mansão silenciou. Mas, na piscina iluminada por luzes azuis subaquáticas, o calor estava apenas começando. Marco e Helena, movidos pela adrenalina e pela beleza um do outro, entregaram-se a uma cena de sexo quente e urgente dentro d'água.
Do andar superior, na penumbra da varanda, Diana observava tudo, trêmula e embriagada. As lágrimas secavam em seu rosto, dando lugar a uma dor visceral. Ela agora sentia exatamente o que Rute sentira semanas atrás ao vê-la com Marco: o peso esmagador de ser a intrusa, a espectadora de um amor que, apesar de todas as camadas de mentiras, ainda tinha o poder de deixá-la no frio.
Naquela noite, sob o luar da fazenda, Diana Lancaster entendeu que, no império de Marco Aurélio, ela era apenas uma página que ele poderia virar a qualquer momento, enquanto Helena era o livro inteiro.
Capítulo 72 — A Queda da Intrusa
Enquanto o sol de Paris iluminava os passeios românticos de Marco Aurélio e Helena, a Fazenda Império mergulhava numa penumbra de conspiração. Em solo francês, Marco desempenhava o papel de marido apaixonado, mas a sua alma estava ligada por fios invisíveis ao Brasil.
O Amor Doentio e as Promessas de Luxo
Sempre que Helena se distraía com as vitrines da Avenue Montaigne, Marco escapava para telefonar. Ele ligava para Sara, sussurrando palavras de desejo e saudade, e logo em seguida para Rute, reafirmando a sua dependência daquela que guardava todos os seus segredos. O seu amor era um labirinto doentio que envolvia mãe e filha.
Marco não economizava. Sob o olhar benevolente de Helena, ele comprava joias e perfumes caríssimos. — São para a Rute e a Sara, querida. Elas cuidam tão bem de nós e do Murilo — dizia ele, com um cinismo impecável. Helena, tocada pela "generosidade" do marido, ia além: — Marco, estava a pensar... Murilo merece conhecer o mundo. Vamos levá-lo à Disney na próxima viagem. Mas ele é pequeno, precisará da mãe e da avó por perto. Vamos levar a Sara e a Rute connosco!
Marco mal conseguia conter o sorriso vitorioso. Ele já antecipava a notícia para as suas amantes por mensagem: o clã estaria unido em viagens internacionais. Para Helena, era gratidão; para Marco, era a conveniência de ter o seu harém em voos de primeira classe.
O Desespero de Diana
Na fazenda, o cenário era de ruína emocional. Diana Lancaster estava entregue ao álcool. O choro desesperado e o som de objetos a partir-se no escritório atraíram Rute como um tubarão ativado pelo cheiro de sangue.
Rute observou Diana pela fresta da porta. A advogada, brilhante em sua profissão, era agora apenas um trapo humano, lamentando a paixão por um homem que a descartara sem piedade. Rute procurou Sara imediatamente. — O fim dela está próximo, Sara. Brevemente aquela mulher será apenas uma lembrança amarga — sentenciou a governanta. — Mãe, por favor... nada de sangue — implorou Sara, tremendo. — Só queremos que ela vá embora. Rute apenas assentiu com um sorriso gélido. Ela sabia que o "sangue" seria apenas um detalhe estatístico perante a necessidade de eliminá-la.
O Voo Mortal
Naquela noite, a mansão estava silenciosa. Diana, completamente embriagada para anestesiar a dor da rejeição, subiu ao terraço para buscar ar. O vento soprava forte, e o mundo parecia girar sob os seus pés.
Rute surgiu das sombras como um espectro. Não houve discussão, apenas o movimento preciso de quem esperava por aquele momento há semanas. Com um empurrão firme e impiedoso, Rute lançou a advogada para o abismo.
O corpo de Diana cortou o ar e a queda foi fatal: ela bateu com a cabeça na quina de mármore da fonte no jardim. O silêncio que se seguiu foi absoluto. Rute desceu calmamente, verificou o pulso inexistente e limpou qualquer vestígio de sua presença. Para o mundo, seria o trágico acidente de uma mulher brilhante que se perdeu na bebida.
O Retorno das Máscaras
A notícia chegou a Paris como uma bomba. Helena entrou em choque, lamentando a perda da "amiga e colaboradora". Marco, o ator perfeito, demonstrou uma consternação profunda, embora por dentro sentisse o alívio de ver sua maior ameaça jurídica e emocional eliminada.
— Precisamos voltar agora, Helena — disse Marco, abraçando a esposa enquanto já planejava o depoimento que daria à polícia.
O Triângulo de Ferro estava intacto. Diana estava morta, a viagem à Disney estava garantida e o Império de Marco Aurélio continuava a exalar o aroma do café... enquanto o cheiro do pecado era enterrado junto com o corpo daquela que ousou amar o predador.
Capítulo 73 — O Silêncio das Testemunhas
As sirenes finalmente se calaram na Fazenda Império, mas o eco da queda de Diana Lancaster ainda parecia ressoar nas paredes de jacarandá. O corpo da advogada já havia sido levado para o IML e, posteriormente, entregue à sua família na capital. Na fazenda, restava apenas o rastro de uma tragédia meticulosamente pintada por Rute.
O Testemunho da Serpente
O delegado encerrou as anotações enquanto Rute o acompanhava até a saída, mantendo uma postura de profunda consternação. O golpe de mestre de Rute foi usar a psicologia da solidão feminina contra a vítima.
— É uma fatalidade, senhor delegado, mas sinto que o gatilho foi o casamento do Sr. Arthur — disse Rute, em tom confidencial. — A Doutora Diana era uma mulher brilhante, mas muito sozinha. No casamento, ela acabou pegando o buquê da noiva... sabe como é, para uma mulher que não tem namorado e só vive para o trabalho, aquilo parece ter despertado uma crise de carência. Ela se trancou aqui e começou a beber, lamentando o vazio da própria vida. O álcool e o parapeito... ela simplesmente perdeu o equilíbrio.
O depoimento foi cirúrgico. Sem citar Marco ou qualquer trama amorosa, Rute transformou a advogada em uma vítima do próprio desespero. Para a polícia, o caso estava encerrado: morte acidental por embriaguez profunda.
A Mentira para Sara
Na copa, Sara ainda tremia. — Mãe... você jurou que não haveria sangue. Você empurrou ela?
Rute olhou para a filha com um desdém gelado, mantendo a farsa até para o próprio sangue. — Acalme-se, Sara. A Dra. Diana era uma mulher tão amarga que nem me deu o gosto de eu mesma dar um fim nela. O álcool e a arrogância fizeram o serviço sozinhas. Ela caiu porque não aguentava o peso da vida que levava.
O Retorno e o Luto de Fachada
Marco e Helena voltaram às pressas de Paris. Helena estava desolada; ela realmente gostava de Diana. O casal viajou imediatamente para a capital para acompanhar o funeral junto à família da advogada. Foi uma cerimônia rápida, fria, onde Marco desempenhou o papel de patrão generoso, arcando com todos os custos e consolando os parentes distantes de Diana.
Ao retornarem à fazenda, o clima era de um silêncio sepulcral. Helena entrou na mansão e desabou no sofá. — Eu não consigo acreditar, Marco. Ela parecia tão forte... morrer assim, por causa de uma crise de solidão e bebida.
Marco a amparou, mas seu olhar buscou o de Rute, que estava parada ao pé da escada. Foi um segundo de comunicação pura: está feito. — O mundo é cruel para quem caminha sozinho, Helena — disse Marco, com sua voz de barítono. — Mas precisamos seguir. Por nós e pelo Murilo.
O Próximo Ato: O Sonho Americano
Para dissipar a nuvem de morte, Marco decidiu que era hora de usar o "plano Disney". Ele reuniu todos na sala de jantar naquela noite. — Helena e eu decidimos que a vida é curta demais para tristezas. Assim que Arthur e Carine voltarem, vamos todos para os Estados Unidos. Murilo precisa de alegria, e Helena, você precisa de descanso.
Helena sorriu, grata. — Marco sugeriu, e eu concordo plenamente: Rute e Sara, vocês vêm conosco. O Murilo não fica sem a mãe e a avó, e vocês merecem ver o mundo também.
Rute agradeceu com uma vênia modesta, enquanto Sara trocava um olhar ardente com Marco por trás das costas de Helena. O crime não apenas ficara impune, como seria celebrado com Mickey Mouse e passagens de primeira classe. O harém de Marco Aurélio estava prestes a cruzar fronteiras.
Capítulo 74 — A Harmonia das Sombras
A Fazenda Império vivia os seus dias de maior esplendor. O cheiro de café fresco invadia os corredores todas as manhãs, os funcionários trabalhavam com sorrisos fartos graças aos bónus generosos de Marco, e a ordem imposta por Rute era absoluta. Sob o sol dourado do interior, a vida parecia um comercial de felicidade — mas era uma felicidade construída sobre alicerces de pecado e silêncio.
O Triângulo do Cotidiano
Marco Aurélio estava no auge da sua forma. Ele geria o seu harém com a precisão de um maestro. Quase todas as noites, ele cumpria o seu papel de marido devoto, namorando Helena com uma intensidade que a fazia sentir-se a mulher mais amada do mundo.
No entanto, o seu vigor parecia inesgotável. Em dias alternados, ele deslizava silenciosamente pelos corredores da mansão. Visitava o quarto de Rute, onde a paixão era madura, cúmplice e carregada de segredos de décadas. Em outras noites, era no quarto de Sara que ele se perdia, alimentando-se da juventude e da adoração daquela que ele transformara de "menina da casa" em sua amante favorita.
Durante a semana, a rotina era ainda mais audaciosa. Marco inventava reuniões literárias na capital e partia com Sara. Eles passavam dias trancados no Triplex, vivendo como marido e mulher num mundo à parte, onde Sara mandava e Marco obedecia aos seus caprichos. Quando o assunto era profissional, Marco levava Rute para congressos de cafeicultura e eventos sociais; para a sociedade, ela era a sua "braço-direito" indispensável; na intimidade dos hotéis de luxo, ela era a sua verdadeira parceira de vida.
O Toque que Faltava: A Confusão do Sangue
Enquanto Marco geria as suas amantes, Helena mergulhava de corpo e alma na criação de Murilo. O laço entre eles tornou-se tão forte que a fronteira entre madrinha e mãe desapareceu.
Numa tarde de sol na varanda, o pequeno Murilo, enquanto brincava com os seus carrinhos aos pés de Helena e Marco, olhou para cima e soltou a frase que selou o destino de todos: — Mãe Helena, olha o meu desenho! Papai Marco, vem brincar!
Helena sentiu as lágrimas subirem aos olhos, o coração transbordando de uma alegria pura e enganada. Ela abraçou o menino com força. — Sim, meu amor, a mamãe está aqui! — respondeu ela, olhando para Marco com adoração. Marco sorriu, acariciando a cabeça do filho que o mundo pensava ser afilhado. Ele sentia o triunfo máximo: o seu filho biológico agora o chamava de pai abertamente, sob as bênçãos da sua esposa traída. Rute e Sara, observando da porta da cozinha, trocaram um olhar de satisfação. O plano fora concluído. Murilo era o herdeiro de tudo, amado por todas as mulheres daquela casa.
O Império de Vidro
A vida seguia num fluxo perfeito. Helena sentia-se a mulher mais sortuda do mundo; Sara sentia-se a eleita de Marco; e Rute sentia-se a dona dos segredos que mantinham aquele motor a funcionar. Marco Aurélio, o milionário canalha e fascinante, olhava para os seus cafezais e via que tinha tudo.
— Está na hora — disse Marco durante um jantar luxuoso, brindando com um vinho de safra rara. — O Arthur e a Carine estão à nossa espera. Vamos arrumar as malas. O Império vai conquistar a Disney.
A notícia foi recebida com vivas. Helena já planejava os looks de Murilo; Rute e Sara já imaginavam os quartos de hotel comunicantes que Marco certamente reservaria. A morte de Diana era uma lembrança enterrada, e o futuro era um céu sem nuvens.
O palco estava montado para o ato final. O clã da Fazenda Império estava pronto para levar a sua farsa para o palco internacional.
Capítulo 75 — O Triunfo do Império (Final)
O embarque no aeroporto internacional foi um espetáculo de ostentação e ordem. Marco Aurélio, como o patriarca de um império moderno, conduzia a sua comitiva. Na Primeira Classe, o luxo era absoluto: champanhe de safra, poltronas que se transformavam em camas e um serviço impecável. Helena viajava ao lado de Murilo, agindo como a "segunda mãe" dedicada, enquanto Marco se dividia entre as atenções à esposa e olhares furtivos, carregados de promessas, para Rute e Sara, sentadas logo atrás.
O Palco de Orlando
Em Orlando, a realidade foi substituída pela fantasia. Marco não poupou recursos: ficaram hospedados nas suítes presidenciais do hotel mais luxuoso dentro do complexo, com transporte privativo e guias VIP que eliminavam qualquer espera. Jantavam nos restaurantes mais exclusivos, onde as mesas eram reservadas com meses de antecedência e o caviar era servido sob a luz de velas.
Helena estava em êxtase. Para ela, aquela harmonia era o ápice da sua vida familiar. Ela não via malícia no fato de Marco estar sempre cercado por Rute e Sara; para ela, eram uma unidade, uma engrenagem perfeita de lealdade. Ela amava Murilo como se o tivesse gerado, e o menino, radiante, corria entre "papai Marco" e "mamãe Helena", sob o olhar vigilante de sua mãe biológica e de sua avó.
A Aliança das Sombras
Enquanto Helena se divertia com Murilo num dos brinquedos mais lúdicos do parque, a multidão e o barulho dos fogos de artifício criaram a bolha de isolamento perfeita para os verdadeiros donos da história.
Afastadas de Helena, sob a sombra de uma das grandes estruturas do parque, Rute e Sara aproximaram-se de Marco. O momento era de uma gravidade absoluta, despojado de todas as máscaras que usavam na fazenda. Rute, a mente por trás de tudo, olhou nos olhos do homem que amou e serviu por décadas. Ela pegou na mão de Sara e na de Marco, unindo-as.
— Me prometa, Marco — sussurrou Rute, com a voz embargada por uma sinceridade rara. — Na minha falta, no dia em que eu não estiver mais aqui para tecer esses fios, cuide de Sara e de Murilo para sempre. Eles são o seu sangue. Eles são o seu verdadeiro legado.
Marco Aurélio, o homem que muitos invejavam e poucos compreendiam, sentiu o peso e a glória daquele pedido. Ele puxou as duas para um abraço apertado, um abraço que continha trinta anos de crimes, paixões e silêncios partilhados.
— Eu prometo, Rute. Eles são a minha vida — respondeu Marco, beijando o topo da cabeça de Sara e olhando nos olhos da governanta. — Eu amo vocês. Hoje, olhando para tudo o que construímos... este é, sem dúvida, o dia mais feliz da minha vida.
O Epílogo da Impunidade
Ao longe, Helena acenava, radiante, segurando a mão de Murilo. Ela sorria para a cena, vendo apenas o marido abraçado à "leal governanta" e à "querida afilhada". Ela nunca saberia da verdade, e essa era a maior vitória de Marco.
A noite caiu sobre o Reino Mágico com uma explosão de cores no céu. O mal, o pecado e a traição haviam vencido, mas estavam tão bem vestidos e eram tão ricos que ninguém ousaria contestar. O Império de Marco Aurélio estava seguro, atravessando gerações, unido por um segredo que o tempo jamais ousaria revelar.
FIM
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