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O DIVÓRCIO SEGUNDO A BÍBLIA CRISTÃ: MISOGINIA, A MULHER COMO OBJETO E O PESO DE UMA CULPA ANCESTRAL

 


Por Marcius Pirôpo

Ao debruçar-se sobre os textos antigos que fundamentaram a moral e a legislação do Ocidente, torna-se impossível ignorar uma ferida histórica que ecoa até os dias de hoje: a profunda assimetria de direitos, o uso do corpo feminino como espólio e a coisificação da mulher. Na tradição bíblica do antigo direito mosaico, o matrimônio, o divórcio e as leis de guerra não retratavam a celebração do respeito mútuo, mas sim um sistema patrimonial onde o homem figurava como senhor e a mulher como mero objeto passível de posse, descarte e subjugação.

Causa profunda indignação constatar que a legislação da época garantia ao homem o direito unilateral e absoluto de expelir a esposa de sua casa por razões puramente subjetivas. Bastava que o marido encontrasse nela "algo impróprio" — uma margem interpretativa tão vasta que ia desde desacordos morais até o simples descontentamento com o convívio — para que uma carta de divórcio fosse redigida e a mulher atirada à marginalização social e econômica. À mulher, por outro lado, nenhum direito de escolha ou de reação era concedido. Ela não podia pedir o divórcio; ela apenas o sofria.

Ainda mais estarrecedoras são as leis de guerra retratadas nesses mesmos registros históricos. Em conflitos armados, o corpo feminino era abertamente tratado como espólio e recompensa militar. Passagens como as de Deuteronômio e Números escancaram como mulheres e meninas virgens eram capturadas, tinham suas cabeças raspadas como gesto de dominação e aculturação forçada, e eram incorporadas aos vencedores como servas ou esposas involuntárias. A mulher do povo derrotado perdia o direito à própria identidade, reduzida a espólio de conquista — uma lógica de dominação territorial e coerção pelo medo que, tristemente, guarda paralelos estarrecedores com as arbitrariedades praticadas por grupos armados e facções em territórios vulneráveis da sociedade atual.

É uma contradição revoltante que a história e a cultura tenham rebaixado e violentado justamente aquele ser que carrega em seu ventre o milagre da vida. A mulher, portal da existência e garantidora da continuidade humana através da gestação, deveria ter sido reverenciada, protegida e respeitada desde o princípio dos tempos. Em vez da sagrada veneração pelo ato de gerar, o que se vê no arcabouço antigo é o enquadramento da mulher como uma propriedade patriarcal, cuja honra, corpo e destino pertenciam primeiro ao pai, depois ao marido e, no conflito, ao conquistador.

Mais grave ainda é o fardo teológico colocado sobre as costas femininas ao longo dos séculos. Desde os relatos do Gênesis, incutiu-se na figura da mulher a culpa pelo "pecado original" e pela queda da humanidade. Seja Eva uma figura histórica ou uma construção fabulosa e alegórica da literatura antiga, essa narrativa foi instrumentalizada para impor à mulher uma pena por um crime que ela nunca cometeu. Essa condenação mitológica serviu de justificativa para milênios de submissão, violência velada e negação de direitos fundamentais.

A sociedade contemporânea e as leis atuais avançaram, mas ainda carregam os resquícios invisíveis dessa mentalidade arcaica. O debate sobre a igualdade de gênero, a autonomia sobre o próprio corpo e a proteção jurídica da mulher no casamento, no divórcio e na sociedade precisa encarar de frente a raiz dessas estruturas. Não se pode tolerar que dogmas do passado continuem a alimentar velhas misoginias. É hora de desconstruir o fardo da "culpa ancestral" e reconhecer, de forma plena e inegociável, o valor, a dignidade e a soberania de quem gera a própria vida.

Diante desse cenário, impõe-se uma inquietação profunda que desafia o cerne do dogma religioso: se Deus é onisciente, sabendo previamente de todas as dores; se é onipresente, testemunhando cada lágrima derramada na escuridão da violência; e se é imutável em sua suposta perfeição e amor, por que permitiu que as mulheres sofressem tanto ao longo de milênios? Por que uma divindade soberana toleraria que a sua criação mais sagrada fosse rebaixada a objeto, despojada de direitos e condenada à servidão em seu próprio nome? Resta à humanidade refletir se tais leis e fardos nasceram de um desígnio divino ou se foram apenas construções humanas — fruto do egoísmo e da sede de dominação masculina projetados sobre o sagrado.



E para quem argumenta que o Novo Testamento e a figura de Jesus mudaram essa realidade, a estrutura textual mostra que o pilar patriarcal apenas ganhou uma nova roupagem. Cartas apostólicas como as atribuídas a Paulo e aos seus seguidores reiteraram a proibição da voz feminina nos templos, exigiram o silêncio, a subordinação total ao marido e condicionaram a salvação da mulher à maternidade — perpetuando a ideia de que o corpo e a mente feminina pertencem ao domínio masculino. Trata-se do ápice da Síndrome de Estocolmo cultural e religiosa: ver mulheres do século XXI defendendo com fervor textos que, do Gênesis ao Apocalipse, foram historicamente utilizados para anular sua voz, restringir seus direitos e legitimar séculos de opressão contra o seu próprio gênero.

Marcius Pirôpo Campeão Mundial

PIRÔPO NEWS BAHIA

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