Num bloco de Carnaval, um jovem se aproximou de Bruna* e tentou beijá-la. Ao ouvir a recusa, ele pegou a garota pelo braço com tudo e puxou seu rosto contra o dele. Assustada, ela o empurrou com toda a força que tinha. O cara saiu, rindo, dizendo que a jovem devia ser lésbica por não queria ficar com ele.
Aos 11 anos de idade, Letícia* foi passar o Carnaval com a família na cidade de Passa Quatro, em Minas Gerais. À noite, quando estava andando na rua com suas amigas, um homem passou por ela e esticou o braço tentando tocar seu peito. Quando ela se virou assustada, o rapaz disse: “Ah, se eu fosse novinho para aproveitar tudo isso”.
Numa festa de rua, Stephanie* estava usando um vestido amarrado por um laço quando um homem que vinha em sentido contrário tentou desfazê-lo. Ao reclamar para os policiais perto do local, eles disseram: “É Carnaval. Você não deveria estar aqui se não quisesse que isso acontecesse”.
Os casos reais, relatados anonimamente ao Catraca Livre, demonstram que grande parte dos homens ainda é machista em relação à presença de mulheres em blocos e festas de rua. Uma pesquisa divulgada em 2016 pelo instituto Data Popular sinaliza que, para 49% dos homens, Carnaval não é lugar de mulher “direita”. Além disso, 61% deles acreditam que mulher solteira que sai para a folia “não pode reclamar de ser cantada”.
Embora o assédio sexual aconteça todos os dias, em qualquer período do ano, as festas de Carnaval trazem uma falsa sensação de que “tudo é permitido” e o abuso acaba se tornando algo natural e até mesmo aceitável.
Stephanie*, Letícia* e Bruna* são algumas das 491 mulheres (82,8%), de um total de 593 participantes, que afirmam já ter sofrido assédio sexual no Carnaval, de acordo com levantamento on-line feito pelo Catraca Livre entre os dias 9 de janeiro e 3 de fevereiro de 2017. A pesquisa foi realizada com leitoras de todo o Brasil, que enviaram relatos de cidades como Recife (PE), Belo Horizonte (MG), Salvador (BH) e Florianópolis (SC).

Os depoimentos narrados evidenciam que o assédio sexual é tão presente no Carnaval quanto a purpurina, o confete e a serpentina. Em uma das mais tradicionais manifestações culturais brasileiras, o machismo se dá de diferentes formas, desde a imagem veiculada do corpo da mulher até a violência e o abuso sexual nas ruas.
Em 2016, as denúncias de violência contra a mulher no Carnaval cresceram 174% em comparação ao mesmo período do ano anterior. As informações foram divulgadas pelo Ligue 180, a Central de Atendimento à Mulher em Situação de Violência.
Entre os dias 1º e 9 de fevereiro de 2016 – do pré-Carnaval ao Carnaval – foram 3.174 relatos de agressão. Em 2015, foram feitas 1.158 denúncias entre os dias 10 e 18.
Do número total de denúncias de violência no ano passado, 59,89% corresponderam a violência física; 33,27%, a violência psicológica; 8,79%, a cárcere privado; 8,38%, a violência moral; 3,9%, a violência sexual; 2,67%, violência patrimonial e 0,09% a tráfico de pessoas.
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