quinta-feira, 14 de maio de 2020

Delegado diz que foi convidado por Ramagem para assumir PF no Rio

Delegado diz que foi convidado por Ramagem para assumir PF no Rio
Em depoimento prestado nesta quarta-feira (13), o superintendente da Polícia Federal no Amazonas, Alexandre Silva Saraiva, disse que o convite para que assumisse a chefia da corporação no Rio de Janeiro, em 2019, não foi vinculado a "nenhuma missão" ou "intenção pontual" de interesse do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

A indicação dele para o cargo é uma das questões cruciais do inquérito em curso no STF (Supremo Tribunal Federal) que apura se o presidente tentou interferir na PF e ter acesso a dados de investigações.

O ex-ministro da Justiça Sergio Moro cita as pressões para a troca de comando no Rio como um dos episódios de ingerência.

Com a crise aberta pela tentativa de emplacar um nome sem a confiança de Moro, o escolhido para o cargo, na ocasião, foi Carlos Henrique Oliveira de Souza.

Na oitiva, Saraiva contou que foi o diretor-geral da Abin (Agência Brasileira de Inteligência), Alexandre Ramagem, próximo do clã Bolsonaro, quem lhe telefonou, naquele mês, perguntando se aceitaria assumir a Superintendência da PF no Rio --substituindo, na ocasião, o delegado Ricardo Saadi.

Ramagem foi nomeado por Bolsonaro diretor-geral da PF no mês passado, mas o ato foi barrado pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo.

Na ocasião da ligação, segundo Saraiva, Ramagem o avisou que Bolsonaro estava avaliando sugerir para o então ministro da Justiça, Moro, tanto ele quanto alguns outros nomes para a função.

Saraiva, que se diz amigo de Ramagem e que já trabalhou com ele, relatou ter aceitado o convite, embora a transferência para a PF do Rio não tenha se concretizado.

"Ramagem nunca repassou ao depoente orientações ou intenções do presidente da República em relação à Polícia Federal, desejando ressaltar que Ramagem jamais faria isso; não sabe informar se Ramagem tem amizade com os filhos do presidente", diz trecho do depoimento.

Saraiva disse que não é amigo de Bolsonaro ou sua família e que desconhece eventuais investigações que envolvam o presidente ou pessoas a ele ligadas no Rio.

Questionado sobre a frase "Moro, você tem 27 superintendências, eu só quero uma", atribuída pelo ex-ministro da Justiça a Bolsonaro como exemplo de pressão pelo cargo, Saraiva disse que, sendo ela no contexto de sua indicação, só prestigia a meritocracia na PF, pois é o superintendente mais longevo em atividade.

No ano passado, Moro resistiu às tentativa de Bolsonaro de colocar alguém de sua confiança à frente da PF no Rio.

Segundo Saraiva, no entanto, a rejeição a seu nome não era propriamente do então ministro, mas do então diretor-geral da PF, Maurício Valeixo.

Ele disse ainda que, algum tempo depois de convidado para o Rio, esteve com Moro no aeroporto de Manaus e ouviu dele a pergunta: "Saraiva, que história é essa de você no Rio de Janeiro?".

Segundo ele, a atitude do então ministro de questioná-lo foi "extremamente correta e digna" em relação à sua pessoa, pois a considera "uma deferência que lhe foi feita".

"A despeito da solidariedade que sentiu vinda do dr. Sergio Moro, o depoente sentiu-se isolado pela administração do dr. Valeixo; o depoente ainda deseja consignar que, em razão dos fatos ora descritos, passou a ser atacado em diversas frentes, não tendo sido defendido ou apoiado em qualquer gesto de solidariedade pela administração da PF [na época]", queixou-se, segundo o depoimento.

O superintendente no Amazonas negou ter sido convidado de novo para o Rio após a queda de Valeixo. Questionado, ele disse que não lhe foi solicitado pelo Planalto nenhum relatório de inteligência ou sobre inquérito, tampouco a respeito de investigações da Polícia Civil fluminense sobre milícias.

Saraiva relatou mais de um episódio de nomeações frustradas. Ele disse ter conhecido Bolsonaro ainda em 2018, quando o então presidente eleito perguntou a um policial de sua segurança se conhecia algum delegado que fosse referência em meio ambiente.

O agente teria telefonado para Saraiva e passado a ligação para Bolsonaro, que logo lhe disse estar procurando uma pessoa para assumir o Ministério do Meio Ambiente.

Com somente a referência dada pelo policial, relatou o depoente, o presidente lhe perguntou se poderia ir até a sua casa para conversar.

O encontro, relatou Saraiva, durou cerca de duas horas e versou sobre temas ambientais, mas a sondagem não se concretizou.

Outro convite, segundo ele, veio de Moro, dois meses antes da crise em torno da dança de cadeiras na Superintendência do Rio.

Saraiva disse ter encontrado o então ministro em um evento em Manaus, quando ele o chamou para assumir a Funai (Fundação Nacional do Índio). Moro teria ficado de conversar a respeito com Valeixo, mas não teria dado retorno sobre a possível indicação.
folhapress

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