quinta-feira, 16 de julho de 2020

Bahia: Auxílio de R$ 500 por Covid-19 tem baixa adesão; isolamento pesa na decisão

Bahia: Auxílio de R$ 500 por Covid-19 tem baixa adesão; isolamento pesa na decisão
Foto: Divulgação/ SJDHDS-BA

Criado pelo governo da Bahia como apoio financeiro e possibilidade de acolhimento de pacientes com quadro leve da Covid-19, a adesão ao auxílio financeiro de R$ 500 e utilização dos Centros de Acolhimento tem sido baixa. Em vigor desde o dia 16 de maio deste ano, após ser aprovado por unanimidade na Assembleia Legislativa da Bahia, somente 68 pacientes foram alcançados pela medida até esta quarta-feira (15). A informação é da Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social (SJDHS), responsável pela intermediação com pretensos assistidos na capital e efetivação da medida. 

Conforme apurado pelo Bahia Notícias, a resistência das pessoas ao isolamento nos Centros de Acolhimento tem sido grande, frustrando assim a expectativa gerada em torno da proposta. A ideia de ficar “isolado” da família e o “medo da discriminação” são fatores que influenciam a negativa de alguns eletivos ao benefício.  

A Bahia conta com três espaços de acolhimento. Além de Salvador, onde está instalado no bairro de Itapuã e visa atender a capital e toda a Região Metropolitana, unidades em Ilhéus e Ipiaú também foram preparadas. Mesmo com a baixa adesão, a gestão estadual se prepara para inaugurar um quarto centro, desta vez na cidade de Itabuna. 

Os beneficiados pela medida até momento foram, em sua maioria, mulheres. Dos 68, 36 são pessoas do sexo feminino e 32 do sexo masculino. Demonstrativo da JDHDS confirma que mais da metade, precisamente 57%, dos atendidos ocupam a faixa etária de 30 a 50 anos. Dezesseis pessoas com idades acima de 51 anos cumpriram os 14 dias de isolamento nos Centro de Acolhimento. Do total assistidos, 63 são moradores de Salvador, dois de Lauro de Freitas, um de Simões Filho, um de Uibaí e outro de Camaçari.

Um exemplo desses acolhidos é  José Anacleto dos Santos, de 59 anos. Morador de Salvador, o homem deu entrada na unidade de Itapuã no dia 12 de maio. Anacleto foi um dos 63 assistidos na capital nos dois meses de vigor da lei de criação do benefício. 

De acordo com Patrícia Santos, filha de Anacleto, o pai tinha apresentado um quadro de convulsões e foi levado pelo SAMU à UPA do bairro de Itapuã, onde recebeu confirmação da infecção pela Covid-19. 

“Depois que ele se recuperou das convulsões e recebeu alta da UPA, os profissionais do centro de acolhimento nos ligaram, porque a UPA já havia informado a situação dele. Meu pai foi levado para o centro, cumpriu a quarentena dele e hoje está em casa conosco. Durante os 14 dias, ele não teve nenhuma reclamação. Elogiou o atendimento, os profissionais do centro e contou que esteve monitorado durante todo o tempo, o que deixou ele mais tranquilo”, conta Patrícia.

Sobre o pagamento do auxílio, a filha conta ainda que realizou todos os procedimento por orientação dos profissionais do centro e da SJDHDS. “Com tudo que foi explicado, nós baixamos o aplicativo da conta digital e eu pude fazer todas as operações pra meu pai estar com o auxílio em mãos, o que foi muito importante porque ele sempre foi muito ativo e atualmente está sem serviço como ajudante de pedreiro”, explica. Durante o recolhimento de Anacleto, tanto Patrícia quanto sua mãe, esposa de Anacleto, realizaram o teste e obtiveram resultado negativo. A proteção dos demais moradores de determinada residência quando alguém testa positivo é um dos objetivos iniciais da medida estadual. 

MEDO IMPACTA NA DECISÃO
O desprendimento de Anacleto e apoio recebido pela própria família, no entanto, não tem sido tendência. É o que revela Aline Araújo, assessora técnica da Superintendência de Assistência Social da SJDHDS, que acompanha de perto o trabalho das equipes de assistentes sociais que lidam diretamente com a pessoa diagnosticada. 

Segundo ela, o medo do estigma social criado em torno da Covid-19 e inconsistências no cadastro dos pacientes ao realizar o exame geram impacto negativo. Para além, há também um número significativo de pessoas que alegam ter condições de realizar o isolamento domiciliar. 

A definição do possível acolhido ou acolhida, no entanto, passa pelo cruzamento de dados disponibilizados pelo Lacen- BA (laboratório Central), que confirma os diagnósticos positivos, assim como o cadastro de outras políticas sociais do governo estadual, a exemplo do Programa Primeiro Emprego. Um dos critérios para efetivação do benefício é a pessoa não possuir vínculo empregatício com carteira assinada e não receber qualquer benefício previdenciário. 

“Lidamos com o estigma da doença, de a pessoa ter vergonha porque a ambulância vai pegar na porta de casa, medo da discriminação no entorno, no bairro. Outro estigma é o de achar que todo contaminado vai vir a óbito. Ficar longe da família e a ideia de isolamento também afeta bastante a decisão. Tivemos paciente que pediu para a ambulância ir buscar em um horário com menos movimento para que a vizinhança não o visse saindo na ambulância”, relata Aline. 
 
Em outro relato, descreve que uma mulher que morava numa casa com dois cômodos, onde viviam sete pessoas preferiu ficar em casa por “medo de não ver mais a família”. Para tanto, improvisou uma estrutura, ainda que precária, se isolamento em um dos ambientes e concentrando as outras seis pessoas no segundo.

De acordo com Aline, os Centros de Acolhimento são bem diferentes do criado no imaginário popular. “O ambiente tem área verde, espaço de convivência, além de uma equipe de apoio para orientar e prestar atendimento”, ressalta.  

“O espaço é de tratamento e apoio para que as pessoas possam retorna para casa com a saúde restabelecida. Tem ainda o recurso da cesta básica. É uma ação integrada entre duas políticas públicas. Pensa na qualidade da saúde, e em garantir a sua proteção social, sua sobrevivência e proteção da família”, conclui. 

Segundo o secretário estadual de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social, Carlos Martins, o processo de direcionamento das pessoas em situação em vulnerabilidade social conta com a abordagem, sensibilização e acolhimento dos pacientes nas unidades. “São pessoas que não podem realizar o isolamento de maneira adequada em casa, então estes espaços são fundamentais para evitar a contaminação de famílias inteiras", sintetiza.

O auxílio financeiro é  pago em parceria com as prefeituras municipais. O governo do Estado arca com a primeira parcela no valor de R$ 250,00 e os municípios complementam a segunda metade, também no valor de R$ 250,00.

Até a noite desta quarta-feira, a Bahia registra um total de 112.993 casos da Covid-19. Destes, 23.647 encontram-se ativos e  6.708 já são considerados. O total de óbito no período pandêmico é de 2.638, tendo sido 54 registrados nas últimas 24h. O Boletim da Secretaria de Saúde do Estado evidencia ainda um total de 2.964 casos no acumulado diário, o que representa uma taxa de crescimento de 2,7%. 

BN

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