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quinta-feira, 24 de junho de 2021

Polarização política e crise social impõem posicionamento de artistas, dizem especialistas


Polarização política e crise social impõem posicionamento de artistas, dizem especialistas


Ivete Sangalo e Anitta estão contra Bolsonaro | Foto: Reprodução / Coluna da TV

Nas últimas semanas, diversos artistas têm usado as redes sociais para se posicionar politicamente, especialmente contra o governo federal, comandado por Jair Bolsonaro (sem partido). Cantores como Anitta, Djavan, Ivete Sangalo e Tico Santa Cruz, além de outras personalidades famosas como a apresentadora Xuxa e os ex-BBBs Gil do Vigor e Juliette, foram alguns dos que apresentaram ao público seu posicionamento político.

 

Para o sociólogo Joviniano Neto, essa onda de manifestações dos artistas nas redes sociais é resultado da polarização política no Brasil. Segundo ele, mesmo quando a pessoa pública não é envolvida diretamente em questões do âmbito político, ela acaba sendo levada a se posicionar por conta de uma exigência da sociedade civil.

 

“São efeitos do fenômeno da polarização. Boa parte da polarização é produzida primeiro na mídia, nas redes sociais e depois transborda. Na hora que transborda para o conjunto da sociedade, mesmos os atores que não são explicitamente político-partidários são muitas vezes submersos pela mobilização do conjunto da sociedade”, opinou Joviniano, em entrevista .

 

Outro ponto colocado pelo sociólogo foi a sensação geral de que o momento político vivido pelo país é decisivo. Para Joviniano, os impactos provocados pelas políticas de Bolsonaro em relação à economia e ao combate à pandemia da Covid-19 são fundamentais para que a população entenda que posicionamento público é fundamental, exigindo assim a manifestação de seus ídolos.

 

“A sociedade está cada vez mais polarizada, mobilizada inclusive pelas redes sociais, e com isso as pessoas se sentem cada vez mais provocadas a participar. Isso acontece quando a pessoa acha que o momento é decisivo. Quando há a ideia de uma decisão, de uma coisa muito grande, muito forte, muito importante, as pessoas se mobilizam”, analisou o sociólogo.

 

Essa pressão por posicionamento político foi vista de maneira intensa no caso da cantora baiana Ivete Sangalo. No último sábado (19), a artista publicou em seu Instagram uma mensagem lamentando a morte de 500 mil brasileiros em decorrência da Covid-19. Na publicação, ela preferiu escapar de questões partidárias. “Não é sobre partidos, é sobre humanidade”, afirmou.

 

A reação do público à postagem de Ivete foi avassaladora. A cantora foi criticada por seu posicionamento “isento” do ponto de vista político-partidário, já que parcela da população responsabiliza a postura do governo Bolsonaro pelo grande número de contaminados e de mortos pelo novo coronavírus.

 

Na segunda-feira (21), a funkeira Anitta chegou a publicar uma mensagem que foi entendida por muitos como uma resposta indireta à colega baiana: “500 mil mortos… é sobre Fora Bolsonaro, sim”.

 

O cantor e compositor baiano Caetano Veloso, famoso também por seus posicionamentos políticos, usou suas redes sociais para refletir sobre o papel dos artistas na sociedade.

 

“O artista é um tipo particular de cidadão. A sociedade pede, cria, demanda essas personalidades. A gente se forma assim, para cumprir um papel que é esse", afirmou. "Ele tem seu lugar na sociedade, ele tem determinadas posições; e que usa a fama que a arte lhe deu, para colocar essas posições”, concluiu o santamarense.

 

A repercussão negativa obrigou Ivete a fazer uma nova publicação na terça (22). “Entendo o quão necessário é nesse momento não estabelecer dúvidas sobre o que acredito. Esse governo que aí está não me representa nem mesmo antes da ideia dele existir. E isso vamos resolver quando unirmos forças nas próximas eleições, através do poder do voto”, afirmou a referência da Axé Music.

 

De acordo com o cientista político Cláudio André, os efeitos da pandemia da Covid-19 no Brasil e as constantes ameaças dirigidas pelo bolsonarismo à democracia brasileira são decisivos para essa onda de posicionamentos de artistas nas redes sociais. Para ele, o momento de crise social impõe a necessidade de se colocar com clareza diante dos problemas.

 

“Essa mobilização digital reflete este momento que a gente está vivendo, porque a maior parte do eleitorado enxerga um governo errático, uma crise social. Um problema que a CPI da Covid está evidenciando com provas é que o governo ignorou a vacina, ignorou tratativas mais rápidas e eficientes de conseguir inserir o Brasil no mapa da vacina”, disse Cláudio André, em entrevista ao Bahia Notícias.

 

“A gente vive um momento de extrema preocupação com a nossa democracia, sobretudo porque nós temos um presidente da República que apresenta valores antidemocráticos, antirrepublicanos, em relação ao estado e à sociedade civil. Inclusive, isso está muito presente na sua incompreensão do que é a democracia”, continuou o cientista político.

 

Segundo Cláudio André, o contexto social decisivo vivido pelo Brasil tornou a população mais atenta a essas questões políticas, o que acaba refletindo também no comportamento dos ídolos nas redes sociais, que, nos dias de hoje, são o principal meio de diálogo dos artistas com seus fãs.

 

“De uma maneira geral, a gente tem uma população que está mais sensível a essas demandas e, ao mesmo tempo, a gente começa a perceber que alguns artistas enxergam a necessidade de se posicionar diante de um objetivo de se valorizar, de dialogar, de buscar engajamento nas redes sociais”, comentou Cláudio André.

 

“E não só uma estratégia de marketing, do ponto de vista de posicionamento nas redes sociais, mas também de relação com o eleitorado, de influenciar de fato uma parte da sociedade que tem apresentado uma percepção mais crítica em relação ao governo e ao que está acontecendo no cenário político brasileiro”, finalizou.


por Mari Leal / Lula Bonfim

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