Por Marcius Pirôpo
O jornalismo de defesa do consumidor no Brasil deu mais um sinal de alerta vermelho. O repórter David Corrêa e sua equipe foram covardemente agredidos durante a produção de uma reportagem na Mooca, zona leste de São Paulo. O caso ocorreu dentro de uma empresa de refrigeração comercial, após um desentendimento com o responsável pelo estabelecimento.
Imagens divulgadas pelo próprio jornalista mostram o início da discussão com o proprietário do local. Ao perceber que estava sendo filmado, o comerciante avançou violentamente contra o cinegrafista. De acordo com a assessoria de David Corrêa, a situação rapidamente evoluiu para agressões físicas contra toda a equipe.
Mesmo após o repórter avisar que acionaria a polícia, a violência não cessou. Vídeos posteriores mostram David recebendo os primeiros socorros em uma maca, ainda no local, antes de ser transferido para uma unidade hospitalar. Nas redes sociais, o jornalista informou que passou por exames detalhados, incluindo uma ressonância magnética, e segue sob avaliação médica.
A migração do crime para o CNPJ e a sensação de impunidade
Este trágico episódio traz à tona uma realidade que acompanho de perto diariamente: o Brasil se tornou um terreno fértil para crimes contra o consumidor, e o crime organizado ou de oportunidade percebeu que migrar para o CNPJ é um negócio lucrativo e de baixo risco. Hoje, basta abrir uma fachada, vender, não entregar e aplicar golpes sistemáticos. O estelionatário se disfarça de "empresário" porque sabe que dificilmente sairá algemado de seu estabelecimento.
Existe uma falha estrutural gravíssima na segurança pública brasileira. Em quase todas as abordagens onde o clima esquenta e a polícia é acionada, a resposta padrão dos agentes de segurança é: "Isso é relação de consumo, procurem o PROCON". Essa frase soa como música para os ouvidos de estelionatários. O cidadão que vai trocar um pneu achando que vai gastar R$ 500,00 e sai da oficina com uma dívida de R$ 8.000,00 sob ameaça, é orientado a buscar a via administrativa, enquanto o criminoso continua operando livremente.
O que torna esse cenário ainda mais impressionante e ultrajante é o comportamento de duas medidas adotado por parcelas da própria polícia. Nesses programas de rua, não é raro ver os próprios agentes de segurança agirem com arrogância, hostilidade e agressividade contra os jornalistas. O desrespeito ocorre mesmo quando o profissional do microfone também tem formação jurídica e prerrogativas legais, como é o caso de David Corrêa, que é advogado. Para o policial na ocorrência, o repórter independente ou de canal digital é visto como um "estorvo", e não como um aliado da legalidade.
Esse tratamento agressivo, contudo, desaparece num passe de mágica quando o apresentador do programa possui um mandato político. Os únicos que a polícia nunca desrespeita e para quem sempre bate continência são os deputados que fazem esse tipo de quadro, como Celso Russomano, Daniel Librelon e o Xerife do Consumidor. Diante do poder político e da imunidade parlamentar, o rigor seletivo da polícia se transforma em submissão. Já para o jornalista de raça, que está no asfalto sem crachá do Congresso, o que sobra é o deboche da autoridade ou a conivência com o agressor.
Russomano, que foi o pioneiro e faz um trabalho excelente nas telas, falhou em sua atuação no Legislativo Federal ao não conseguir fazer com que o Código de Defesa do Consumidor (CDC) entrasse, de fato, na pauta e no treinamento operacional das polícias do Brasil para que o estelionato ao consumidor fosse tratado como crime de prisão em flagrante.
Enquanto as leis não mudam e o privilégio político impera, repórteres independentes e de canais digitais como David Corrêa, Ben Mendes, Carlos Santos, Dilson Batista, Jadiel Santos e equipes do TV Alerta colocam o peito na linha de frente sem qualquer proteção do Estado.
ATENÇAÕ: Fazer jornalismo investigativo de consumo no Brasil sem segurança privada ao lado tornou-se o equivalente a brincar de Roleta Russa. Nunca se sabe quando o golpista disfarçado de comerciante estará armado, ou pronto para partir para socos, chutes e uso de armas brancas.
A agressão sofrida por David Corrêa não é um caso isolado; é o reflexo de um sistema que desprotege o cidadão, ignora o crime financeiro de consumo, tolera a soberba de maus policiais e deixa o jornalista, que exerce o papel que deveria ser das autoridades, completamente vulnerável ao perigo de morte. Fica o alerta urgente para todos os profissionais do setor: andar com segurança não é vaidade, é item de sobrevivência.
