Por Marcius Pirôpo
O resultado do segundo turno das Eleições 2026 entra definitivamente para os livros de história do Brasil. Pela primeira vez na história da redemocratização do país, um candidato que terminou o primeiro turno em segundo lugar conseguiu buscar a virada e vencer a disputa presidencial.
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) consolidou a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com 51,78% dos votos válidos (64.241.786 votos), superando Flávio Bolsonaro (PL), que obteve 48,22% (59.818.887 votos) — uma diferença de mais de 4,4 milhões de votos.
A reviravolta entre os dois turnos e o novo fôlego da candidatura de Lula demonstraram como estratégia, postura e comunicação podem alterar os rumos do país.
Um feito inédito na história eleitoral do Brasil
Desde a instituição do segundo turno na Constituição de 1988, quem liderava a apuração no primeiro turno sempre saía vitorioso nas urnas. Em 2026, esse paradigma caiu. Após terminar a primeira etapa com 45,16% contra 47,03% de Flávio Bolsonaro (uma diferença de 1,87 ponto percentual), Lula voltou com força total para a etapa final, revertendo um cenário considerado adverso por diversos analistas.
Ataques, deboche e o repúdio ao bullying político
Se a campanha vitoriosa soube se recalibrar, o lado adversário sofreu com graves erros de condução. O tom agressivo e pejorativo — exemplificado pelo uso do termo "nove dedos" contra o adversário —, somado a episódios de deboche por parte de aliados próximos (como parlamentares e vereadores que apelidaram e chamaram ex-ministros de "desempregados" em sabatinas e debates), custou muito caro.
A população brasileira demonstrou nas urnas que rejeita a prática do bullying institucional na figura de um governante. O eleitorado moderado e indeciso temeu entregar o comando do país a um grupo associado à falta de postura executiva e ao desrespeito pessoal.
Extremismo religioso e o afastamento do eleitor de centro
Outro fator crucial para a perda de tração de Flávio Bolsonaro foi a atuação ostensiva e inflamada de lideranças evangélicas extremistas, como o pastor Silas Malafaia. A retórica radical acabou provocando um efeito inverso: em vez de apenas aglutinar a base conservadora, alienou cristãos moderados e eleitores de centro que rejeitam o uso da fé para disputas partidárias e ataques políticos.
Reestruturação de marketing, transporte no Nordeste e a força dos aposentados
A virada de Lula começou no próprio dia seguinte ao primeiro turno. O candidato reconheceu falhas, trocou a equipe de marketing e adotou uma postura mais próxima do eleitor comum. Houve uma mobilização de rua focada na escuta atenta, na garantia do apoio aos aposentados e na recuperação do voto de quem havia se abstido.
Essa grande mobilização ocorreu mesmo diante de graves dificuldades logísticas enfrentadas em cidades do Nordeste, onde a escassez e as falhas no transporte público no dia da votação dificultaram a ida de milhares de eleitores às urnas. Não fossem esses entraves de mobilidade urbana e rural, a margem de vitória de Lula teria ultrapassado com facilidade a marca dos 6 milhões de votos de frente.
A grande lição das urnas de 2026
A eleição de 2026 encerra-se deixando uma mensagem cristalina para a política nacional: arrogância e falta de respeito custam caro, enquanto a capacidade de reconhecer erros, mudar a rota e dialogar com simplicidade constrói viradas históricas.
Marcius Pirôpo jornalista, radialista, professor e campeão mundial de Karatê na Itália em 2019, representando o Brasil.
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