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Mãe de santo acusa pastor de racismo, intolerância religiosa e LGBTQfobia na Bahia


"Disse que enquanto estiver vivo, que esse 'ponto de satanás' ia sair daqui", contou a ialorixá



A mãe de santo Rosilene dos Santos Santana Sousa, 45 anos, conhecida como Mãe Rosa, afirma ter sido alvo de racismo, intolerância religiosa e LGBTQfobia por parte de pessoas ligadas uma igreja evangélica. Dona do terreiro Ilé Asé Alaketu Omí Ógbá, ela tem 19 anos de candomblé e também atua na defesa dos direitos humanos em Vitória da Conquista, sudoeste da Bahia.
O caso ocorreu no início da noite de domingo passado (30), no bairro Vila América, e o boletim foi registrado no dia seguinte na 1ª Delegacia de Vitória da Conquista. Ela relatou que seu terreiro foi chamado de “casa de negrinhas” e “ponto de satanás”.
A mãe de santo conversou com o CORREIO e relatou que foi a uma padaria com a sua cadela de estimação. Quando retornava para o terreiro onde mora, encontrou uma mulher evangélica no caminho, que estava com a Bíblia na mão, e as duas iniciaram uma conversa amistosa sobre o animal. Quando chegou à porta do terreiro, Mãe Rosa se despediu e anunciou que havia chegado em casa, para o espanto da outra mulher, que deu início às ofensas.
Mãe Rosa relata que a evangélica ironizou e disse: "Você mora aí, é? Vou orar por você". Ela rebateu: "Não precisa, já tenho minha crença". Irritada, a evangélica teria dito a seguinte frase: "Ah, você é a sapatão que mora aí, então, né? A que fica levando essas negrinhas para esse ponto de satanás".
Surpresa com a reação, a mãe de santo, que é casada com uma mulher, alertou à evangélica que ela estava tendo uma postura criminosa. Em seguida, Mãe Rosa conta que se dirigiu à igreja evangélica frequentada pela mulher, localizada nas proximidades do terreiro de candomblé, para conversar com o responsável pelo local, o pastor Wellington da Silva, a quem ela conhece há muitos anos.
“Na igreja, para a minha surpresa, o pastor já veio me atender todo nervoso. Acho que a mulher já tinha falado com ele sobre a conversa. Ele veio me empurrando com os dedos, me pressionando forte contra meus seios, e disse que enquanto estiver vivo que esse 'ponto de satanás' ia sair daí de qualquer forma”, relatou.
Segundo a mãe de santo, ela nem teve chance de ser ouvida pelo pastor. “Eu fui lá levar uma cartilha da Defensoria Pública da Bahia sobre o Estatuto da Igualdade Racial, fui para levar educação, para que ele pudesse orientar as pessoas da igreja sobre respeito às religiões, mas ele me recebeu com essa agressão”, lamentou.
O CORREIO tentou localizar o pastor Wellington, sem sucesso. Segundo duas pessoas que se dizem integrantes da igreja, denominada apenas como “Igreja Evangélica”, não foram desferidas agressões nem xingamentos à ialorixá, e que o pastor "apenas dito a ela que seriam feitas orações para a mãe de santo".
Na delegacia, o caso foi registrado contra o pastor, mas ainda não foi designado delegado responsável para realização das investigações, segundo informou uma agente da Polícia Civil que preferiu não ter o nome divulgado. A delegada titular da delegacia, Tânia Silveira, está de férias.
Luta por direitos
Mãe Rosa diz estar bastante abalada com a situação, sobretudo porque ela é militante dos direitos humanos – já comandou por 15 anos a Coordenação de Promoção da Igualdade Racial da Prefeitura de Vitória da Conquista e a Coordenação LGBTQ+.
A ialorixá também integra o grupo operativo da Ouvidoria da Defensoria Pública do Estado, que recebe denúncias de crimes semelhantes aos que a mãe de santo sofreu. O terreiro dela atua em parceria com a Defensoria em diversas causas relacionadas aos direitos humanos, com assistência a minorias.
“Durante minha vida, tenho buscado fazer um trabalho de assistência para as pessoas que mais necessitam e sem querer impor a ninguém a minha religião. Tenho duas filhas adotivas de pessoas que não as quiseram porque são negras, a mais velha tem 15 anos”, declarou a mãe de santo.
Foto: Blog do Anderson/Divulgação

FONTE: CORREIO
Marcius Pirôpo Campeão Mundial

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