Por Juranildes Araújo - Presidente do Sicomércio Camaçari
Ontem participei de mais uma reunião de uma instituição à qual dedico parte significativa da minha vida há quase duas décadas. Ao deixar o encontro, não saí pensando em eleições, chapas vencedoras ou derrotadas. Saí refletindo sobre algo muito maior: o verdadeiro significado da liderança e o papel das instituições na construção da sociedade.
Durante a reunião, foi mencionada a conhecida metáfora do “cemitério”, frequentemente associada a reflexões sobre decepções, confiança rompida e pessoas que deixam de ocupar espaço em nossa vida afetiva. É uma imagem forte, que provoca reflexão sobre as relações humanas.
Mas uma pergunta permaneceu em minha mente: será que instituições podem ter cemitérios?
As pessoas, naturalmente, têm o direito de escolher quem desejam manter por perto. Podem se afastar, romper vínculos ou encerrar ciclos. As instituições, porém, possuem uma missão diferente. Especialmente aquelas que representam milhares de empresários, trabalhadores e famílias. Seu papel não é construir sepulturas simbólicas para os que divergem, mas criar pontes capazes de unir diferentes visões em torno de objetivos comuns.
A divergência não é uma ameaça à democracia. Ela é sua própria essência.
Ao longo da história do Sistema Comércio, inúmeros líderes ocuparam posições de destaque. Alguns deixaram marcas extraordinárias. Outros enfrentaram críticas e desafios. Todos, sem exceção, foram passageiros diante da grandeza das instituições que ajudaram a fortalecer.
O Sesc, o Senac, as Federações e os Sindicatos não pertencem a indivíduos. Não pertencem a sobrenomes. Não pertencem a grupos específicos. Pertencem à coletividade empresarial que lhes dá sustentação e legitimidade.
Por isso, quando uma eleição termina, não deveria haver vencedores de um lado e derrotados condenados ao esquecimento de outro. O que deveria existir é uma instituição mais forte, mais madura e mais preparada para acolher diferentes pensamentos, experiências e contribuições.
As árvores que produzem frutos recebem pedras. Essa é uma realidade conhecida por quem exerce liderança. Quem ocupa posições de destaque inevitavelmente será aplaudido por alguns e questionado por outros. O que distingue os grandes líderes não é a ausência de críticas, mas a forma como lidam com elas.
A verdadeira liderança não elimina vozes. A verdadeira liderança escuta.
A verdadeira liderança não constrói muros. Constrói pontes.
A verdadeira liderança não cria cemitérios simbólicos para aqueles que pensam diferente. Cria espaços para que todos possam contribuir, inclusive os que apresentam opiniões divergentes.
Ao final de cada mandato, de cada eleição e de cada disputa, o que permanece não é o poder. O que permanece é o legado.
E os maiores legados da história foram construídos por homens e mulheres que compreenderam uma verdade simples e poderosa: o respeito à divergência não enfraquece as instituições. Pelo contrário, é uma das mais nobres expressões de sua grandeza.
Que possamos continuar construindo pontes. Porque são elas, e não os cemitérios, que permitem às instituições atravessar o tempo e cumprir sua missão de servir à sociedade.

